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Índice de verbetes



Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas



A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, por vezes abreviada como SPEE, em francês Société Parisienne des Études Spirites, foi a entidade fundada por Allan Kardec, em 1 de abril de 1858, com o objetivo específico de fazer experimentos mediúnicos em prol do estudo e pesquisa do Espiritismo, conforme sinaliza o primeiro artigo do seu regulamento: "A Sociedade tem por objeto o estudo de todos os fenômenos relativos às manifestações espíritas e suas aplicações às ciências morais, físicas, históricas e psicológicas" (O Livro dos Médiuns, Allan Kardec - Cap. XXX). Como o próprio título sugestiona, teve sua sede em Paris, França, mudando de endereço em algumas circunstâncias. Kardec foi escolhido, por aclamação, seu primeiro presidente, sendo reeleito sucessivas vezes até a sua desencarnação, em 1869. Contava com a colaboração de vários médiuns, pelos quais seus membros interagiam com os Espíritos comunicantes, tendo São Luís como o patrono espiritual de seus trabalhos.


Representação gráfica de uma reunião mediúnica na Sociedade Parisiense de Estudos EspíritasRepresentação gráfica de uma sessão na SPEE (créditos: CCDPE-ECM)



Pioneirismo e respaldo

A SPEE é frequentemente mencionada como sendo o primeiro centro espírita oficialmente constituído no mundo, o que tem a sua razão de ser, em considerando o qualificativo "espírita" estritamente reservado ao que diz respeito à doutrina codificada por Kardec. No entanto, como ocasionalmente o próprio codificador estendia essa qualificação a todo o movimento espiritualista, é preciso que se considere os inúmeros grupos mediúnicos instituídos em várias partes do mundo e anteriores inclusive às pesquisas de Allan Kardec, que, através da sua Revista Espírita, registrou uma reinvindicação vinda dos confrades espanhóis da cidade de Cádis, que lá mantinham um centro de estudos mediúnicos desde 1853 (quatro anos antes do lançamento de O Livro dos Espíritos:

"Os espíritas de Cádis, reivindicam para a sua cidade a honra de ter sido uma das primeiras, se não a primeira na Europa, a possuir uma reunião espírita constituída, recebendo comunicações regulares dos Espíritos, pela escrita e pela tiptologia, sobre assuntos de moral e de filosofia. Com efeito, esta pretensão é justificada pela publicação, em 1854, de um livro impresso em língua espanhola. Contém de início um prefácio explicativo sobre a descoberta das mesas falantes e a maneira de as utilizar; depois a relação de respostas a perguntas dirigidas aos Espíritos numa série de sessões realizadas desde 1853."
Revista Espírita, Allan Kardec - abril de 1868: "O Espiritismo em Cádis, em 1853 e 1868"

À parte da questão do pioneirismo, é fora de dúvida que a SPEE foi o mais referendado centro de estudos espíritas e, por conseguinte, a divulgação de seus trabalhos na Revista Espírita influenciou fortemente o movimento em todo o mundo, como é bem observado pelas correspondências de Kardec publicadas naquele jornal.


Oficialização da SPEE

O lançamento oficial da Sociedade foi noticiado na Revista Espírita, edição de maio de 1858 da seguinte forma:

"A extensão por assim dizer universal que a cada dia tomam as crenças espíritas fazia vivamente desejar-se a criação de um centro regular de observações; essa lacuna acaba de ser preenchida. A Sociedade, cuja formação temos o prazer de anunciar, composta exclusivamente de pessoas sérias, isentas de prevenções e animadas do sincero desejo de serem esclarecidas, contou, desde o início, entre seus associados, com homens eminentes por seu saber e posição social. Ela é chamada — disso estamos convencidos — a prestar incontestáveis serviços à comprovação da verdade. Seu regulamento orgânico lhe assegura uma homogeneidade sem a qual não há vitalidade possível; autorizada por portaria do Sr. Prefeito de Polícia, conforme o aviso de S. Exa. Sr. Ministro do Interior e da Segurança Geral, em data de 13 de abril de 1858.
Baseia-se na experiência dos homens e das coisas e no conhecimento das condições necessárias às observações que são o objeto de suas pesquisas. Vindo a Paris, os estrangeiros que se interessarem pela Doutrina Espírita encontrarão, assim, um centro ao qual poderão dirigir-se para obter informações, e onde poderão também comunicar suas próprias observações."
Allan Kardec

Carta de Kardec solicitando ao governo francês autorização para fundação e funcionamento legal da SPEECarta de Kardec solicitando ao governo francês autorização para fundação e funcionamento legal da SPEE


Em Obras Póstumas, o fundador da Sociedade conta que a entidade surgiu da necessidade de acolher o crescente número de adeptos ao Espiritismo que vinham participar das reuniões regulares que ele realizava em sua casa, na Rua dos Mártires, às terças-feiras. Os participantes propuseram então alugarem juntos um cômodo apropriado para comportar aqueles importantes trabalhos.

"Mas, então, fazia-se necessária uma autorização legal, a fim de se evitar que a autoridade nos fosse perturbar. O Sr. Dufaux, que se relacionava pessoalmente com o Prefeito de Polícia, encarregou-se de tratar do caso. A autorização também dependia do Ministro do Interior. A tarefa de obter essa autorização coube então ao general X..., que, sem que ninguém o soubesse, era simpático às nossas ideias — embora sem as conhecer inteiramente. Graças à sua influência, a autorização pôde ser concedida em quinze dias, quando, normalmente, leva três meses para ser dada."
Allan Kardec, Obras Póstumas - 2ª Parte, "Fundação da Sociedade Espírita de Paris"

Palais-Royal, local de lançamento de O Livro dos Espíritos e sede da SPEEPalais-Royal, local de lançamento de O Livro dos Espíritos e sede da SPEE


Uma vez regulamentada a entidade, as sessões foram transferidas para uma sala alugada no Palais-Royal, inicialmente na galeria de Valois, depois, para uma sala maior, na Galeria Montpensier, quando suas sessões foram remarcadas para as sextas-feiras. Em 1860, a instituição foi relocada para a Rua Saint-Anne, n° 59, permanecendo lá fixada até a desencarnação de seu presidente.


Passagem à Rua Saint'Anne, sede da SPEE Passagem à Rua Saint'Anne, sede da SPEE


Vê-se, portanto, o cuidado que Allan Kardec teve com as formalidades legais vigentes em seu tempo, quando a França estava sob o regime autoritário do imperador Napoleão III, que era sistematicamente vigilante com possíveis associações conspiratórias contra seu governo.

No filme Kardec, a história por trás do nome (Brasil, 2019, direção: Wagner de Assis), Allan Kardec recebe voz de prisão durante uma sessão na SPEE, justamente sob o pretexto de formar aquela aglomeração, contrariando o controle governamental. Esta cena, obviamente, não passa de uma licença artística do roteiro, recurso típico do cinema, e que não reflete a realidade, de acordo com os conhecidos dados históricos referentes à oficialização daquela Sociedade.


Organização da Sociedade

As sessões da SPEE eram fechadas ao público, reservando-se aos seus sócios e, eventualmente, a convidados que fossem previamente apresentados por um membro e autorizados pelo presidente. A admissão de um associado seguia um rigoroso processo de aprovação que, entre outros critérios, exigia a fiança de dois membros titulares e conhecimentos prévios da doutrina. Havia então dois tipos de associados: membro titular e associado livre.

O regulamento completo da entidade foi publicado em O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, Cap. XXX. As principais atividades e notas da Sociedade eram publicadas na Revista Espírita.


Cartões de membro da SPEE (fonte: AKOL)


Reeleito sucessivas vezes presidente da entidade, Kardec lutou para a manutenção da rígida disciplina das sessões e não menos rigoroso cuidado na admissão dos associados; enquanto isso, nos corredores, muitos de seus correligionários cobravam uma abertura maior da instituição.

Alegando sobrecarga de tarefas, o codificador espírita chegou a pedir demissão de suas funções administrativas da Sociedade, o que não ocorreu devido ao apelo geral dos membros em favor de sua permanência na presidência (Revista Espírita, Julho de 1859: "Discurso de encerramento do Ano Social").


São Luís e as sessões mediúnicas da SPEE

No intuito especial de colher instrução moral a partir de acontecimentos cotidianos, as sessões da Sociedade Espírita de Paris promoviam evocações e entrevista junto a Espíritos envolvidos com as questões propostas, além de, eventualmente, receberem manifestações mediúnicas espontâneas.

Desde dissertações de músicos como Rossini e Mozart, de astrônomos como Galileu, de médicos como Dr. Demeure e Hahnemann (pai da Homeopatia), de personalidades como Erasto (discípulo do apóstolo Paulo), os filósofos Santo Agostinho e Jean-Jacques Rousseau, além de anônimos em geral, a Sociedade tratou dos mais diversos assuntos que de alguma forma estivessem ligados ao Espiritismo.

Com atuação marcante na Sociedade, o Espírito de São Luís era o patrono da entidade. Santo católico e um dos padroeiros da França, Luís IX (1214-1270) foi o 42° rei francês de 1226 até sua morte e é lembrado com muito respeito pela sua bondade, prudência no enfrentamento das questões e zelo pelos valores cristãos. Em face dessas credenciais biográficas e da presteza do Espírito aos trabalhos da SPEE, era costumeiramente este quem Allan Kardec evocava para o intermediação esclarecedora acerca das mais distintas proposições e problemas ali em debate, pelo que o presidente da casa não se furtava de agradecer constantemente:

"Não queremos terminar o ano sem dirigir os nossos agradecimentos aos bons Espíritos que tiveram a bondade de nos instruir. Agradecemos sobretudo a São Luís, nosso presidente espiritual, cuja proteção à Sociedade que tomou sob seu patrocínio foi evidente, e que, assim esperamos, terá a bondade de continuá-la, rogando-lhe que nos inspire, a todos, os sentimentos que dela nos tornem dignos."
Allan Kardec, Revista Espírita - fevereiro de 1861


São Luís, patrono espiritual da SPEE



A Sociedade Espírita Parisiense pós-Kardec

Foi exatamente durante a mudança para a nova sede da Sociedade que Allan Kardec foi surpreendido com sua desencarnação; da Passagem Saint'Anne, a SPEE era transferida para a Rua de Lilie n° 7, dividindo o endereço com a Livraria Espírita — o mais recente empreendimento do Mestre espírita.

Em virtude da irreparável perda de seu presidente, a organização formou uma nova diretoria, em 9 de abril daquele 1869, composta por: Malet (presidente), Jules Levent (vice-presidente), Canaguiere, Ravan, Armand Desliens, Alexandre Delanne e Jean Marie Tailleur (ver Revista Espírita, maio de 1869: ‘Nova constituição da Sociedade de Paris’). Malet, porém, não ficou muito tempo na direção, vindo a renunciar já no terceiro mês do seu mandato. Em 1870 a presidência ficou a cargo do célebre historiador e escritor Eugène Bonnemère, instituindo também o notável astrônomo Camille Flammarion como seu presidente de honra.

Fugindo da tradição kardequiana, a partir dos anos 1870 a Revista Espírita deixou de noticiar as atividades da SPEE, de modo que, desde então, os registros históricos a respeito da entidade ficaram cada vez mais escassos. Sabe-se que de 1871 a 1877, sob a presidência do Sr. Boiste, ela passou a se reunir na Rua Molière n° 27; de 1881 1884, esteve sediada na Rua Saint-Denis n° 183, sob a presidência do Capitão Bourgès, com cuja renúncia foi substituído pelo Sr. Auzanneau; que o seu endereço também mudou para a Galeria de Valois n° 167, desde setembro de 1884 até setembro de 1885, quando voltou ao mesmo número da Rua Saint-Denis 183.

Desde que Pierre-Gaëtan Leymarie assumiu a direção da Revista Espírita, em meados de 1871, o tradicional periódico passou a ser questionado pela comunidade espírita sob acusações de graves desvios doutrinários e distanciamento da Sociedade Espírita de Paris, então ofuscada pela Sociedade Anônima. Muito provavelmente por conta disso, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritos chegou a lançou o seu próprio jornal, então intitulado La Pensée Libre (Pensamento Livre), uma singela publicação mensal de quatro páginas, cuja primeira edição data de novembro de 1885, sendo reeditado mensalmente até o seu encerramento em outubro do ano seguinte.

. Deste tempo em diante, não temos mais conhecimento de suas atividades, o que permite se pressupor que a existência da Sociedade não tenha durado muito além daquele 1885.

Ver Sociedade Anônima.


La Pensée Libre, jornal da SPEE


Além da dissintonia com Sociedade Anônima comandada por Leymarie, a SPEE acabou sendo eclipsada pela criação da União Espírita Francesa, liderada por Gabriel Delanne, Berthe Fropo e Léon Denis, propositadamente instituída para fazer frente à Sociedade Anônima em prol de um resgate dos princípios doutrinários da doutrina kardecista.

Ver União Espírita Francesa.


Referências

  • Obras Póstumas, Allan Kardec - especialmente 2ª Parte, "Fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas" (ebook)
  • Revista Espírita, Allan Kardec - especialmente as coleções de 1858, 1868 e 1869.
  • O Livro dos Médiuns, Allan Kardec- especialmente cap. XXX: "Regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas" (ebook).
  • Kardec, Marcel Souto Maior.
  • Revolução Espírita, Paulo Henrique de Figueiredo.
  • Em nome de Kardec, Adriano Calsone.
  • Monografia Os períodos pré e pós-Kardec da fanpage CSI do Espiritismo (acesso em junho, 2020).
  • Museu Online do Espiritismo no Portal Allan Kardec Online (acesso em junho, 2020).
  • Jornal La Pensée Libre no site da Biblioteca Nacional da França BnF (acesso em junho, 2020).



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A Gênese
Agênere
Aksakof, Alexandre
Alexandre Aksakof
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Alma gêmea
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Anastasio García López
Andrew Jackson Davis
Anna Blackwell
Auto de Fé de Barcelona
Banner of Light
Baudin, Irmãs
Bem
Berthe Fropo
Blackwell, Anna
Boudet, Amélie-Gabrielle
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Canuto Abreu
Caridade
Caroline Baudin
Cepa espírita
Charlatanismo
Charlatão
Chevreuil, Léon
Chico Xavier
Cirne, Leopoldo
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Consolador
Crookes, William
Daniel Dunglas Home
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Denis, Léon
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Dentu, Édouard
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Errático
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Espiritismo à Francesa: a derrocada do movimento espírita francês pós-Kardec
Espírito da Verdade
Espírito de Verdade
Espírito Errante
Espírito Santo
Espírito Verdade
Espiritual
Espiritualismo
Espiritualismo Moderno
Evangelho
Fora da Caridade não há salvação
Francisco Cândido Xavier
Franco, Divaldo Pereira
Fropo, Berthe
Galeria d'Orléans
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Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas
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