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Índice de verbetes


Consolador



Consolador, ou Consolador Prometido, é como o Espiritismo por vezes é denominado, em alusão à promessa feita por Jesus, conforme os evangelhos bíblicos, de que o paráclito seria enviado por Deus à humanidade, para reestabelecer a verdade ensinada pelo Cristo, para ensinar coisas novas e permanecer definitivamente com os homens, auxiliando-os em sua jornada evolutiva. Esse Paráclito também é descrito como “Espírito da Verdade”, que a tradição religiosa cristã chama de Espírito Santo (a terceira pessoa da chamada Santíssima Trindade) e que a teologia comumente entende como sendo o Messias que ressurgirá na Terra (isto é, a volta de Jesus, fisicamente). Por sua vez, a Doutrina Espírita compreende o Consolador Prometido como sendo o derramamento da mediunidade, a Revelação Espírita ou o próprio Espiritismo, então compondo a Terceira Revelação da Lei Divina; segundo a codificação kardequiana, o advento deste movimento renovador é presidido pelo Espírito da Verdade (subentendido Jesus) e, conforme foi predito, o Espiritismo vem no tempo determinado cumprir a promessa cristã.



Referência bíblica do Paráclito

A referência para a definição do Espiritismo como sendo o consolador prometido por Jesus está na obra de Allan Kardec para a codificação espírita, com base nos textos do Novo Testamento da Bíblia, cujo contexto é: Jesus anuncia aos seus apóstolos que ele seria entregue aos doutores da lei e que estes o condenariam à morte; portanto, ele haveria de partir, porém Jesus deixou a promessa que, se seus discípulos guardassem aqueles ensinamentos cristãos, ele pediria que o Pai (Deus) lhes enviasse “outro paráclito”. Aqui então temos o vocábulo que serve de referência para o desenvolvimento das ideias a respeito do tema proposto.

Paráclito vem do grego παράκλητος = paráklētos, transliterado para o latim paracletus, significando, num sentido mais amplo, “aquele que conforta, reanima, guia, defende e intercede em favor de alguém”. Na Grécia Antiga, assim era chamado, num sentido mais estrito, quem representava o réu perante o tribunal, algo próximo do que hoje entendemos pelo ofício do advogado. Este termo é usado em algumas passagens bíblicas na versão grega e tem sido traduzido para a língua portuguesa (e termos equivalentes em outros idiomas) de diversas formas, dentre as quais: Consolador (tradução ACF), Auxiliador (NTLH), Conselheiro (NVI) e Encorajador (NVT) — acrescentando que a versão católica (VC) e tradução da Sociedade Bíblica Britânica (TB) usam a forma transliterada Paráclito, preservando assim o sentido original da referência da língua grega. O termo comum aplicado em francês é Consolateur (Consolador), inclusive na tradução de Lemaistre de Sacy (1613-1684), que é a versão padrão usada por Kardec, conforme ele anota na Introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo.

Vejamos os textos de referência, que aqui reproduzimos conforme a versão NAA - Nova Almeida Atualizada, correspondente à modernização da tradução do português João Ferreira de Almeida (1628-1691); esta versão está disposta na versão online (www.bibliaonline.com.br).

Extraímos as primeiras referências do Evangelho segundo João:

“Se vocês me amam, guardarão os meus mandamentos. E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Consolador, a fim de que esteja com vocês para sempre: é o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece. Vocês o conhecem, porque ele habita com vocês e estará em vocês.
“Mas o Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse ensinará a vocês todas as coisas e fará com que se lembrem de tudo o que eu lhes disse.
“Quando, porém, vier o Consolador, que eu enviarei a vocês da parte do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim.
“Mas eu lhes digo a verdade: é melhor para vocês que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vocês; mas, se eu for, eu o enviarei a vocês.
“Porém, quando vier o Espírito da verdade, ele os guiará em toda a verdade. Ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que ouvir e anunciará a vocês as coisas que estão para acontecer. Ele me glorificará, porque vai receber do que é meu e anunciará isso a vocês."
João, 14: 15-17,26; 15:26; 16:7,13-14

Vemos, pois, que no evangelho joanino o paráclito está intimamente associado às expressões “Espírito da verdade” e “Espírito Santo”. A questão que se apresenta então é a de interpretar “quem” ou “o que” é esse Paráclito, esse Espírito da verdade ou Espírito Santo. E isto é o que faremos a seguir.


Interpretação judaica

O Judaísmo não aceita o Novo Testamento como a segunda revelação da lei divina, detendo-se basicamente na Lei Mosaica (atribuída à revelação divina feita a Moisés) contida no Velho Testamento; portanto, para esta crença, a promessa de Jesus não tem maiores consequências do que o sentido comum interpretado do termo Paráclito, no seu sentido mais estrito: advogado, defensor, porém numa forma impessoal, representando simplesmente as próprias boas ações de cada um perante Deus.

Em harmonia com essa significação, a coletânea de máximas hebraicas Pirkei Avot [Ética dos Pais], livro 4, item 13, exprime: “Aquele que pratica uma boa ação obteve para si um advogado [paráclito], e aquele que comete uma transgressão obtém para si um acusador.”, espelhando a passagem do livro de Jó, 16:19 — “Já agora a minha testemunha está no céu, e nas alturas se encontra quem advoga a minha causa”. No Shabbat 32a, lê-se: “As obras de benevolência e misericórdia feitas pelo povo de Israel neste mundo tornam-se agentes de paz e intercessores [paráclitos] entre eles e seu Pai no céu.” Neste contexto, “paráclito” não se confunde com uma pessoa ou um anjo; trata-se de uma metáfora que remete às qualidades do próprio indivíduo, que se beneficia de suas boas obras. E o mesmo se aplica às expressões Espírito da verdade e Espírito Santo.

A propósito deste contexto, a Jewish Encyclopedia sugere uma incorreção na interpretação que os teólogos cristãos tradicionais dão à conotação de “consolador”, “intercessor” ou “auxiliador” na forma de uma terceira pessoa envolvida na relação íntima de cada qual para com Deus, ainda que este intermediário seja Jesus: “Deus não precisa de um intercessor, isto é, um ajudante” — declara Kaufmann Kohler, o rabino que assina o referido verbete naquela enciclopédia judaica.


Paráclito na tradição cristã

Conquanto haja várias correntes doutrinárias mais ou menos diferentes, o entendimento majoritário dentro do cristianismo tradicional consagra um sentido mais amplo do termo paráclito, abrangendo a conotação de “consolador”, com base numa forma verbal derivada da mesma raiz grega (παρακληθήσονται => paraclethesontai: consolar) utilizada por Jesus numa das máximas do Sermão da Montanha, segundo o Evangelho de Mateus, 5: 4 — “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.” Ora, quem chora precisa de consolo; logo, tal verbo “paracletear” só poderia ser entendido como consolar.

Fora isso, assim como a tradição judaica interpreta, a doutrina católica entende o paráclito como sendo o mesmo que o Espírito da Verdade e o Espírito Santo, com a diferença que ele seja pessoal, aliás, uma das três pessoas da chamada Santíssima Trindade: Deus-Pai (o Criador), Deus-Filho (Jesus) e Deus-Espírito Santo. Segundo tal catecismo, essa divisão da divindade estaria justificada principalmente pela passagem seguinte atribuída a uma fala de Jesus:

“Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.”
Mateus, 28:19

O “mistério da Santíssima Trindade” é um dogma que foi instituído pela igreja católica, porém é rejeitado por várias denominações cristãs, que então se declaram unicistas, inspirados na declaração contida em Deuteronômio, 6:4 — “Escute, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor.”

Quanto à promessa de Jesus para o advento do Consolador, conforme a doutrina das igrejas cristãs em geral, ela se realizará completamente com a segunda vinda física de Jesus, que então julgará as almas conforme predito no Apocalipse. Por outro lado, alguns teólogos propõem que a promessa já foi cumprida em parte: quando a ressurreição do Cristo completava cinquenta dias (Pentecostes), os seus discípulos estavam reunidos e, segundo a narração bíblica, aconteceu o extraordinário fenômeno de um som vindo do céu repentinamente e enchendo a casa onde eles estavam assentados; em seguida, os discípulos viram algo parecido com “línguas de fogo”, que se repartiram e pousaram sobre eles. Então:

“Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem.”
I João, 4:6

Grande multidão se formou e, tendo vindo pessoas de diversas regiões, que falavam outros idiomas, eles escutavam o discurso dos apóstolos cada qual em sua língua nativa. Apesar da exuberância daquele fenômeno de xenoglossia, muitos chegaram a zombar e supor que os discípulos estavam embriagados, ao que Pedro (líder dos apóstolos) retrucou:

“Estes homens não estão bêbados, como vocês estão pensando, porque são apenas nove horas da manhã. Mas o que está acontecendo é o que foi dito por meio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz Deus, que derramarei o meu Espírito sobre toda a humanidade. Os filhos e as filhas de vocês profetizarão, os seus jovens terão visões, e os seus velhos sonharão. Até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei o meu Espírito naqueles dias, e profetizarão.”
Atos dos Apóstolos, 2:15-18

De fato, essa profecia consta no livro de Joel, 2:28-30, no Antigo Testamento.


Conceituação espírita

A obra kardequiana analisa a promessa de Jesus sobre o Paráclito começando pela justificativa da necessidade desta futura providência:

“Jesus promete outro consolador: é o Espírito de Verdade, que o mundo ainda não conhece, por não estar maduro para compreendê-lo, que o Pai enviará para ensinar todas as coisas e para relembrar o que o Cristo disse. Portanto, se o Espírito da Verdade devia vir mais tarde ensinar todas as coisas, é porque o Cristo não tinha dito tudo; se ele vem relembrar aquilo que o Cristo disse, é porque ele seria esquecido ou mal compreendido.”
O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec - cap. VI, item 4

Está enfatizado que os ensinamentos do Cristo (Segunda Revelação) precisariam de complemento (a Terceira Revelação) porque à sua época o mundo não estava “maduro”; para isso, era preciso tempo para o desenvolvimento das ciências e do espírito da humanidade, pois se a nova revelação tivesse vindo pouco tempo depois de Jesus, ela teria encontrado o povo nas mesmas condições pouco propícias para novos desenvolvimentos e não teria feito mais do que ele. Eis por que Allan Kardec vai dizer: “Se o Espiritismo tivesse vindo antes das descobertas científicas teria sido uma obra abortada, como tudo que vem antes do seu tempo.” (A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo - cap. I, item 16) Além disso, nesse complemento, o paráclito precisaria reestabelecer as coisas; Jesus havia previsto que seus ensinamentos seriam desviados, pois “só se restabelece aquilo que foi desfeito.”

Quanto ao nome Consolador, Kardec esclarece:

“Este nome — significativo e sem ambiguidade — é toda uma revelação. Ele previa com isso que os homens precisariam de consolações, o que implica a insuficiência daquelas que eles achariam na crença que iam fundar. Talvez o Cristo nunca tivesse sido tão claro e tão explícito quanto nestas derradeiras palavras, às quais poucas pessoas deram atenção o bastante, provavelmente porque evitaram esclarecê-las e aprofundar o seu sentido profético.”
A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo - cap. I, item 27

Com efeito, estando a par da História das igrejas, das atrocidades cometidas pelos religiosos — em nome da “verdade” — e das controvérsias teológicas, o codificador espírita lembra que até antes do Espiritismo, nenhuma nova grande verdade espiritual se estabeleceu para justificar o cumprimento da promessa crística, que prediz que o Consolador viria “ensinar todas as coisas”, nem mesmo no fenômeno de Pentecostes:

“Se disserem que essa promessa se cumpriu no dia de Pentecostes por meio da descida do Santo Espírito, responderemos que o Santo Espírito os inspirou, que pôde abrir a inteligência deles, desenvolveu neles as aptidões mediúnicas que deveriam facilitar a sua missão, porém que nada lhes ensinou além daquilo que Jesus já havia ensinado, porque não encontramos aí nenhum vestígio de um ensinamento especial. Portanto, o Santo Espírito não realizou o que Jesus havia anunciado quanto ao Consolador; de outra forma os apóstolos teriam elucidado, enquanto vivos, tudo o que permaneceu obscuro no Evangelho até o dia de hoje e cuja interpretação contraditória deu origem às inúmeras seitas que têm dividido o cristianismo desde os primeiros séculos.”
A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo - cap. XVII, item 42

Em contrapartida a essa imprecisão teológica e estando inteiramente ciente das extraordinárias revelações promovidas pelo Espiritismo, Kardec apresenta a Doutrina Espírita como o Consolador Prometido:

“Assim, o Espiritismo realiza o que Jesus disse do Consolador prometido: conhecimento das coisas, fazendo que o homem saiba donde vem, para onde vai e por que está na Terra; atrai para os verdadeiros princípios da lei de Deus e consola pela fé e pela esperança”
O Evangelho segundo o Espiritismo - cap. VI, item 4


Impessoalidade do Consolador

Em face da excepcional contribuição da Revelação Espírita para a evolução espiritual da humanidade, exercendo o papel do Paráclito predito pelo Cristo, Allan Kardec ressalta o caráter impessoal do Consolador; assim sendo, não se trata de uma individualidade, nem carnal nem espiritual, e ninguém pode se dizer ser o criador ou dono dele; este “Novo Messias” (Enviado) é de fato a personificação de uma doutrina soberanamente consoladora, fruto do ensino coletivo dos Espíritos.

Desmistificando a ideia de que o Paráclito viesse a ser exatamente Jesus (em Espírito ou renascido na Terra), Kardec frisa que as próprias palavras do Evangelho ilustram a separação das partes ao dizer: “Eu pedirei a meu Pai e ele lhes enviará outro Consolador” — no que observamos três elementos distintos: “Eu” (Jesus), “meu Pai” (Deus) e “outro Consolador”. De outra maneira, ele teria dito: “Eu voltarei para completar o que lhes tenho ensinado”. Diz Kardec, ratificando esta dedução lógica:

“Depois [Jesus] acrescentou: ‘A fim de que ele fique eternamente com vocês e ele estará em vocês’. Essa afirmação não poderia referir-se a uma individualidade encarnada, que não poderia demorar-se eternamente conosco, nem ainda menos estar em nós, mas compreendemos muito bem que seja uma doutrina que, com efeito, quando a tivermos assimilado, poderá estar eternamente em nós.”
A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo - cap. XVII, item 40

Tal posicionamento de Jesus também refuta totalmente o dogma da Santíssima Trindade, cuja inconsistência é igualmente demonstrada logicamente pela conceituação espírita da indivisibilidade de Deus. A Igreja propôs que Jesus era Deus observando literal e isoladamente a passagem bíblica em João, 10:30 — “O Pai e eu somos um”. Entretanto, a sequência desse mesmo capítulo indica bem que por esses termos Jesus exprimia que ele e Deus estavam unidos pelo mesmo propósito, que ambos representavam os mesmos pensamentos, sentimentos e ações. Nesse mesmo contexto fica entendido a relação de Jesus com os seus apóstolos tal como ele prediz em João, 14:18-20 — “Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós. Ainda um pouco, e o mundo não me verá mais, mas vós me vereis, porque eu vivo, e vós vivereis. Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós.”


A Terceira Revelação

O necessário advento do Consolador — devidamente representado pelo Espiritismo — coloca a Doutrina Espírita na linha histórica da tradição religiosa judaico-cristã, compondo então a Terceira Revelação da Lei Divina, tendo esta nova revelação características peculiares em relação às demais; por exemplo, ela não se apoia tão somente na autoridade de quem a dita ou de quem a recebeu, mas principalmente na lógica dos seus postulados, em acordo com as leis da Natureza, observáveis pelo estudo e pela experimentação, do que Allan Kardec vai dizer que: “o que caracteriza a revelação espírita é que a sua origem é divina, que a iniciativa pertence aos Espíritos e que a sua elaboração é fruto do trabalho do homem.” (A Gênese, os Milagres e as Predições... - cap. I, item 13) Esta mesma peculiaridade ratifica a impessoalidade da nova doutrina reveladora:

“A lei do Antigo Testamento teve em Moisés a sua personificação; a do Novo Testamento está no Cristo. O Espiritismo é a terceira revelação da lei de Deus, mas não está personificada em nenhuma individualidade, porque é fruto do ensino dado não por um homem, e sim pelos Espíritos, que são as vozes do Céu, em todos os pontos da Terra, com a cooperação de uma multidão infinita de intermediários. De certa maneira, é um ser coletivo, formado pelo conjunto dos seres do mundo espiritual, cada um dos quais traz o tributo de seus entendimentos aos homens, para lhes tornar esse mundo conhecido e a sorte que os espera.”
O Evangelho segundo o Espiritismo - cap. I, item 6


Espírito de Verdade e Espírito Santo

As passagens evangélicas associam o Paráclito ao Espírito da Verdade (ou Espírito de Verdade) e ao Espírito Santo (ou Santo Espírito), que a tradição religiosa comumente interpreta como a terceira pessoa da dita Santíssima Trindade — concepção claramente refutada pelo Espiritismo, que por sua vez compreende o Espírito Santo como sendo a Providência Divina, a ação do Pai Celestial para cuidar de todas as criaturas — e não propriamente Deus. Em suma, toda inspiração espiritual, todas as leis e reações da natureza são, portanto, ações da Providência, quer dizer, do Espírito Santo, que então assume metaforicamente a ideia de uma entidade, apesar de impessoal. É neste sentido que devemos entender a inspiração que o Espírito Lacordaire invoca para escrever sobre o orgulho e a humildade em O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VII, item 11 — “Que o Espírito Santo me ilumine e ajude a tornar compreensível a minha palavra, concedendo-me o favor de pô-la ao alcance de todos!”

Novamente desmistificando o conceito da trindade divina, também Jesus diferenciou a pessoa dele e o Espírito Santo, dizendo:

“Se alguém disser alguma palavra contra o Filho do Homem, isso lhe será perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, isso não lhe será perdoado, nem neste mundo nem no porvir.”
Mateus, 12:32

Já o Espírito de Verdade, este é colocado como sinônimo do Paráclito, isto é, o Consolador — o movimento revelador prenunciado pelo Cristo, então realizado pelo advento do Espiritismo. Por conseguinte, o Paráclito (Espírito de Verdade, Consolador, Espiritismo, Terceira Revelação) é uma das providências do Criador. E inserido no mecanismo operacional dessa providência divina, encontraremos também a ação espiritual executando os desígnios de Deus, exatamente tal como no cumprimento da promessa messiânica do Paráclito, conforme os Espíritos anunciaram:

“Os Espíritos anunciam que chegaram os tempos marcados pela Providência para uma manifestação universal e que, sendo eles os ministros de Deus e os agentes de sua vontade, sua missão é a de instruir e de esclarecer os homens, abrindo uma nova era para a regeneração da humanidade.”
O Livro dos Espíritos, Allan Kardec - ‘Prolegômenos’


Espírito Santo e mediunidade

Certas citações bíblicas sugerem que o Espírito Santo tenha uma relação íntima com a mediunidade, que é o exercício da comunicabilidade espiritual; noutras palavras, a interação entre desencarnados e encarnados, ou mesmo entre a Divindade e os homens. Na passagem de Lucas, 1:67, por exemplo, lemos que Zacarias (pai de João Batista) “ficou cheio do Espírito Santo e profetizou"; em Lucas, 2:25-33, temos a história do ancião Simeão, justo e temente a Deus, a quem foi revelado pelo Espírito Santo que não morreria antes de ter visto o Messias — como de fato ocorreu.

É pelas suas capacidades mediúnicas que o apóstolo Paulo alegar ser guiado pelo Espírito Santo, que lhe havia prevenido das prisões e sofrimentos que o esperavam, segundo o livro Atos dos Apóstolos, 20:22-23. Esse mesmo Paulo, na sua carta aos Hebreus, 6:5-6, narra que aqueles que foram batizados em nome do Senhor Jesus, sobre os quais o apóstolo impôs as mãos, encheram-se do Espírito Santo e então falavam línguas (Xenoglossia) e profetizavam.

Assim, “encher-se” do Espírito Santo, ou “estar com” ele, equivale a entrar em transe mediúnico e se deixar guiar por ele, quer dizer, pelos anjos, pelos guias espirituais, os Espíritos protetores etc. Nessa mesma direção, uma exemplificação de psicofonia está exposta em Lucas, 12:11-12 — “Quando levarem vocês às sinagogas ou à presença de governadores e autoridades, não se preocupem quanto à maneira como irão responder, nem quanto às coisas que tiverem de falar. Porque o Espírito Santo lhes ensinará, naquela mesma hora, as coisas que vocês devem dizer.” Essa mesma fala de Jesus é transcrita em Marcos, 13:11, e em Mateus, 10:19-20, embora nesta última passagem, ao invés de “Espírito Santo”, o termo usado é “Espírito do Pai”. A propósito da diversidade de fenômenos mediúnicos, Paulo lista alguns exemplos, denominando-os “dons do Espírito Santo” (I Coríntios, capítulo 12).

Em consequência disso, o Consolador Prometido encontra-se também referenciado na profecia do derramamento do Espírito Santo (manifestações espirituais, mediunidade) no Antigo Testamento (Joel, 2:28-30) e replicada no Novo Testamento:

“E acontecerá nos últimos dias, diz Deus, que derramarei o meu Espírito sobre toda a humanidade. Os filhos e as filhas de vocês profetizarão, os seus jovens terão visões, e os seus velhos sonharão. Até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei o meu Espírito naqueles dias, e profetizarão.”
Atos, 2:15-18

Desta feita, o paráclito é, de maneira genérica, o conjunto de toda a fenomenologia mediúnica — dentro e fora dos preceitos doutrinários espíritas — irrompida com a moda das Mesas Girantes e todo o movimento do Espiritualismo Moderno de meados do século XIX, do qual, depois, a Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec se estabeleceu como o núcleo da nova revelação e dependendo absolutamente das manifestações dos Espíritos — sem as quais não haveria a Revelação Espírita.


Espírito da verdade e o Espírito Verdade

O derramamento da mediunidade, representando o Paráclito, não poderia ser de forma aleatória e sem comando; ao contrário, tudo demonstra uma ordem e plano didático, que o escritor e médico Arthur Conan Doyle chamou de “invasão organizada de Espíritos” (A História do Espiritualismo - cap. I). A Doutrina Espírita, a propósito, foi elaborada mediante uma programação espiritual meticulosa — “segundo o ensinamento dado pelos Espíritos superiores”, como está grafado na folha de rosto de O Livro dos Espíritos, que é a obra inaugural da nova doutrina.

Para tanto, estabelecendo essa ordem e essa organização, subentende-se uma hierarquia espiritual e uma liderança ativa, que Allan Kardec primeiramente afirma pertencer a Jesus:

“Portanto, ele [o Espiritismo] é obra do Cristo, que o preside pessoalmente, conforme igualmente o anunciou, para a regeneração que se opera e prepara o reino de Deus na Terra.”
O Evangelho segundo o Espiritismo - cap. I, item 7

Depois, num trecho bastante semelhante, Kardec aponta a liderança para o Espírito de Verdade:

“O Espiritismo vem na época predita cumprir a promessa do Cristo: o Espírito de Verdade é quem preside o seu advento.”
O Evangelho segundo o Espiritismo - cap. VI, item 4

Logo na sequência do texto desta última citação, Kardec reproduz uma coletânea de mensagens, recebidas entre 1861 e 1863 e ditadas por uma entidade espiritual que assinou com a alcunha “O Espírito de Verdade”. O teor das comunicações não deixa dúvidas que seu autor declara ser o próprio Jesus: “Como em outros momentos eu fiz aos transviados filhos de Israel, venho a vocês, trazer a verdade e dissolver as trevas. Escutem: como antigamente a minha palavra fez, o Espiritismo tem de lembrar aos incrédulos que acima deles reina a imutável verdade: o Deus bom, o Deus grande, que faz germinem as plantas e se levantem as ondas. Revelei a doutrina divinal. Como um ceifeiro, reuni em feixes o bem espalhado no seio da Humanidade e disse ‘Venham a mim, todos vocês que sofrem...” Esta mesma dissertação, aliás, já havia sido publicada quatro anos antes, com pequenas modificações, em O Livro dos Médiuns, de onde recortamos o trecho a seguir:

“Eu venho — eu, o teu Salvador e o teu juiz —, venho, como outrora entre os filhos transviados de Israel; venho trazer a verdade e dissipar as trevas. Escutem-me! O espiritismo, como a minha palavra outrora, deve relembrar aos materialistas que acima deles reina a imutável verdade: Deus bom, o Deus grande que faz germinar a planta e que levanta as ondas. Eu revelei a doutrina divina; como o ceifador, juntei em feixes o bem esparso na humanidade e disse: Venham a mim, todos vocês que sofrem!”
O Livro dos Médiuns - 2ª parte, cap. XXXI, dissertação IX

O ponto mais interessante aqui é que nesta primeira publicação Kardec revela que o autor desta mensagem havia assinado com o nome Jesus de Nazaré.


Jesus de Nazaré, o Cristo


Ao longo da bibliografia kardequiana, vamos encontrar várias mensagens e menções ao Espírito de Verdade — às vezes grafado Espírito da Verdade, Espírito Verdade ou simplesmente A Verdade — ficando claramente subentendido que é o próprio Cristo, que então estaria presidindo a Revelação Espírita, isto é, o próprio Espiritismo, por exemplo, nas passagens que seguem:

“As religiões fundadas no Evangelho não podem por isso se dizerem com a posse de toda a verdade, pois ele [Jesus] reservou para si o complemento posterior de seus ensinamentos.”
A gênese, os Milagres e as Predições... - cap. XVII, item 37
“Segundo o pensamento de Jesus, o Consolador é de fato a personificação de uma doutrina soberanamente consoladora, cujo inspirador há de ser o Espírito de Verdade.”
A gênese, os Milagres e as Predições... - cap. XVII, item 39

Outros Espíritos dão seu testemunho, tanto da identificação de Jesus como Espírito de Verdade quanto da presidência do movimento espírita, como é o caso de Erasto:

“Eis, meus filhos, a verdadeira lei do Espiritismo, a verdadeira conquista de um futuro próximo. Caminhem, pois, em vosso caminho imperturbavelmente, sem se preocuparem com as zombarias de uns e o orgulho ferido de outros. Estamos e ficaremos convosco, sob a égide do Espírito de Verdade, meu senhor e o vosso.”
Erasto
Revista Espírita - fev. de 1868: ‘Futuro do Espiritismo’

Já o Espírito de Hahnemann, tratando de um grave caso de possessão, acrescenta que o Espírito de Verdade não apenas preside a Terceira Revelação, mas também dirige todo o planeta Terra:

“Essas obsessões frequentes terão também um lado muito bom, naquilo que sendo penetrada pela prece e pela força moral, pode-se fazê-la cessar e adquirir o direito de expulsar os maus Espíritos, cada um procurará, pela melhoria de sua conduta adquirir esse direito que o Espírito de Verdade, que dirige este globo, conferirá quando for merecido.”
Hahnemann
Revista Espírita - jan. de 1864: ‘Um caso de Possessão: Senhorita Julie’

Em se confirmando a mesma identidade nos dois personagens em questão, ainda assim poderemos ver a impessoalidade da obra espírita, pois Jesus, com toda a sua realeza, não se fez dono do Consolador, como afirmou o filósofo José Herculano Pires:

“De outro lado, o Espírito da Verdade não se dizia o detentor exclusivo da Verdade, nem o Revelador Espiritual, mas o orientador dos trabalhos de toda a Falange do Consolador. Ao lado do Espírito da Verdade encontramos toda a plêiade de entidades espirituais que subscrevem a mensagem publicada nos ‘Prolegômenos’ de O Livro dos Espíritos, e as demais, que aparecem como autoras das numerosas mensagens transcritas nesse livro, bem como em O Evangelho segundo o Espiritismo e nas outras obras da codificação.”
O Espírito e o Tempo, J. Herculano Pires - cap. V, item 4


Espiritismo consolador

O caráter essencial presente no Espiritismo que faz jus ao seu qualificativo de “doutrina consoladora” é explicado nos seguintes termos:

“O Cristo disse: ‘Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados’; mas, como encontrar felicidade no sofrimento, se não sabemos por que estamos sofrendo? O Espiritismo mostra a causa dos sofrimentos nas existências anteriores e na destinação da Terra, onde o homem expia o seu passado; ele mostra o objetivo disso, de que os sofrimentos são como crises salutares que trazem a cura e que eles são a purificação que assegura a felicidade nas existências futuras. O homem compreende que mereceu sofrer e considera seu sofrimento justo; ele sabe que esse sofrer auxilia o seu adiantamento e o aceita sem murmurar, como o operário aceita o trabalho que há de garantir o seu salário. O Espiritismo lhe dá fé uma inabalável no futuro e a dúvida pungente já não controla mais a sua alma; mostrando-lhe as coisas do alto, a importância das vicissitudes terrenas se perde no vasto e esplêndido horizonte que ele abraça, e a perspectiva da bonança que o espera lhe dá a paciência, a resignação e a coragem de ir até a fim do caminho.”
O Evangelho Segundo o Espiritismo - cap. VI, item 4

Enfim, a fonte do consolo espírita está no esclarecimento da verdade sobre a necessidade e a justiça dos sofrimentos atuais e sobre as recompensas futuras. Por isso, dizemos que o Espiritismo consola os corações iluminando as mentes ao mesmo passo em que ilumina as mentes consolando os corações.


Veja também


Referências

  • O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec - ebook.
  • A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, Allan Kardec - ebook.
  • O Livro dos Espíritos, Allan Kardec - ebook.
  • Verbete Paráclito na Wikipédia.
  • Bíblia, versão online - site.
  • Jewish Encyclopedia [Enciclopédia Judaica] (em inglês) - versão online.
  • Pirkei Avot [Ética dos Pais] (em inglês) - versão online.
  • A História do Espiritualismo, Arthur Conan Doyle - ebook.
  • O Espírito e o Tempo, J. Herculano Pires - Ebook.


Tem alguma sugestão para correção ou melhoria deste verbete? Favor encaminhar para Atendimento.


Índice de verbetes
A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo
Abreu, Canuto
Adolphe Laurent de Faget
Agênere
Alexandre Aksakof
Allan Kardec
Alma
Alma gêmea
Amélie Gabrielle Boudet
Anália Franco
Anastasio García López
Andrew Jackson Davis
Anna Blackwell
Arigó, Zé
Arthur Conan Doyle
Auto de Fé de Barcelona
Auto-obsessão.
Banner of Light
Baudin, Irmãs
Bem
Berthe Fropo
Blackwell, Anna
Boudet, Amélie Gabrielle
Cairbar Schutel
Canuto Abreu
Caridade
Carma
Caroline Baudin
Célina Japhet
Cepa Espírita
Charlatanismo
Charlatão
Chevreuil, Léon
Chico Xavier
Cirne, Leopoldo
Codificador Espírita
Comunicabilidade Espiritual
Conan Doyle, Arthur
Consolador
Crookes, William
Daniel Dunglas Home
Davis, Andrew Jackson
Denis, Léon
Dentu, Editora
Dentu, Édouard
Desencarnado
Deus
Didier, Pierre-Paul
Divaldo Pereira Franco
Dogma
Dogmatismo
Doutrina Espírita
Doyle, Arthur Conan
Dufaux, Ermance
Ectoplasma
Ectoplasmia
Ecumenismo
Editora Dentu
Édouard Dentu
Elementos Gerais do Universo
Emancipação da Alma
Encarnado
Epífise
Erasto
Ermance Dufaux
Errante
Erraticidade
Errático
Escala Espírita
Escrita Direta
Espiritismo
Espiritismo à Francesa: a derrocada do movimento espírita francês pós-Kardec
Espírito da Verdade
Espírito de Verdade
Espírito Santo
Espírito Verdade
Espiritual
Espiritualidade
Espiritualismo
Espiritualismo Moderno
Evangelho
Expiação
Faget, Laurent de
Fascinação
Fluido
Fora da Caridade não há salvação
Fox, Irmãs
Francisco Cândido Xavier
Franco, Anália
Franco, Divaldo Pereira
Fropo, Berthe
Galeria d’Orleans
Gama, Zilda
Glândula Pineal
Henri Sausse
Herculano Pires, José
Herege
Heresia
Hippolyte-Léon Denizard Rivail
Home, Daniel Dunglas
Humberto de Campos
Imortalidade da Alma
Inquisição
Irmão X
Irmãs Baudin
Irmãs Fox
Jackson Davis, Andrew
Japhet, Célina
Jean Meyer
Jean-Baptiste Roustaing
Joanna de Ângelis
Johann Heinrich Pestalozzi
José Arigó
José Herculano Pires
José Pedro de Freitas (Zé Arigó)
Julie Baudin
Kardec, Allan
Kardecismo
Kardecista
Karma
Lachâtre, Maurice
Lamennais
Laurent de Faget
Léon Chevreuil
Léon Denis
Leopoldo Cirne
Leymarie, Pierre-Gaëtan
Linda Gazzera
Livraria Dentu
London Dialectical Society
Madame Kardec
Mal
Maurice Lachâtre
Mediatriz
Médium
Mediunidade
Mesas Girantes
Metempsicose
Meyer, Jean
Misticismo
Místico
Moderno Espiritualismo
Necromancia
O Livro dos Espíritos
O Livro dos Médiuns
Obras Básicas do Espiritismo
Obsediado
Obsessão
Obsessor
Onipresença
Oração
Palais-Royal
Panteísmo
Paráclito
Parasitismo psíquico
Pélagie Baudin
Percepção extrassensorial
Pereira, Yvonne A.
Perispírito
Pestalozzi
Pierre-Gaëtan Leymarie
Pierre-Paul Didier
Pineal
Pires, José Herculano
Pneumatografia
Possessão
Prece
Pressentimento
Projeto Allan Kardec
Quiromancia
Religião
Revelação Espírita
Rivail, Hypolite-Léon Denizard
Roustaing, Jean-Baptiste
Santíssima Trindade
Santo Ofício
Sausse, Henri
Schutel, Cairbar
Sematologia
Sentido Espiritual
Sexto Sentido
Silvino Canuto Abreu
Sociedade Dialética de Londres
Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas
SPEE
Subjugação
Superstição
Terceira Revelação
Tribunal do Santo Ofício
Trindade Universal
Ubiquidade
UEF
União Espírita Francesa
Vampirismo
Verdade, Espírito
Videira Espírita
William Crookes
X, Irmão
Xavier, Chico
Xenoglossia
Yvonne do Amaral Pereira
Zé Arigó
Zilda Gama

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