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Índice de verbetes


Fluido



Fluido é, em termos científicos, qualquer substância capaz de fluir (por exemplo, os líquidos e os gases) e que não resiste de maneira permanente às mudanças de forma provocadas por uma tensão de cisalhamento (tensão gerada por forças aplicadas em sentidos opostos, porém em direções semelhantes no material analisado); as substâncias fluídicas tendem a mudar de forma de acordo com o ambiente. A compreensão da natureza dos fluidos é essencial para o Espiritismo, no sentido de explicar conceitos fundamentais desta doutrina, tais como: a providência divina, a constituição e as propriedades do perispírito, os fenômenos mediúnicos etc. Neste sentido, a codificação espírita postula que, além das substâncias conhecidas pelas ciências humanas, há outras tantas formas materiais mais sutis, também ditas etéreas ou quintessenciadas — sendo a mais elementar de todas o fluido cósmico universal — e que são manipuláveis pelos Espíritos.


Representação gráfica de uma manipulação de fluidos espirituais



Conceituação

De maneira simples, podemos dizer que, no entendimento contemporâneo, fluido é tudo aquilo que flui, escorre, expande-se e se dispersa com facilidade, em oposição ao que é sólido; porém, por mais sutil que seja, não deixa de ser matéria. Normalmente, usamos como demonstração de coisas fluídicas as substâncias gasosas e líquidas. Mas ainda assim é possível comparar a fluidez destas substâncias pelo atributo da viscosidade: por exemplo, a água é muito mais fluídica do que o óleo; entre os tipos de óleos, há alguns mais viscosos que outros e, portanto, menos fluídicos.

No século XIX, quando a Doutrina Espírita foi codificada por Allan Kardec, havia ainda uma significação especial para o termo em questão: chamava-se fluido toda forma material — e algumas vezes efeitos físicos — que não eram bem conhecidos e devidamente explicados; quando a substância era identificada, chamava-se pelo seu nome (nitrogênio, enxofre, ferro, hélio etc.), e quando era desconhecida, dizia-se “fluido”. Imaginava-se, por exemplo, que o calor, a luz e a eletricidade fossem substâncias precisamente, donde costumava-se dizer “fluido calórico”, “fluido elétrico” etc. Até mesmo o codificador espírita por vezes usou essas expressões em sua obra doutrinária — porque esta era a linguagem científica de seu tempo.

À vista disso, era perfeitamente correto que Kardec aplicasse o vocábulo fluido para se referir às substâncias da natureza espiritual, que escapam do domínio dos laboratórios de ciências humanas. Assim começa o campo de investigação da ciência espírita, partindo da primeira citação kardequiana aos fluidos, já na Introdução de O Livro dos Espíritos, oportunamente falando do princípio vital:

“Para uns, o princípio vital é uma propriedade da matéria, um efeito que se produz quando a matéria se encontra em certas circunstâncias; segundo outros — e esta é a ideia mais comum —, ele reside em um fluido especial, universalmente espalhado e do qual cada ser absorve e assimila uma parcela durante a vida, tal como vemos os corpos inertes absorverem a luz; esse seria então o fluido vital que, na opinião de alguns, não seria outro que o fluido elétrico animalizado, assim designado pelos nomes de fluido magnético, fluido nervoso etc.”
O Livro dos Espíritos, Allan Kardec - Introdução, item II


Fluido na obra kardequiana

Primordialmente, a Doutrina Espírita estabelece que os fluidos não são emanações de Deus, como se fossem o corpo de Deus, ou um pedaço dele; eles fazem parte da Criação, são obras divinas, como todas as coisas (O Livro dos Médiuns, Allan Kardec - 2ª parte, cap IV, item 74).

Ao longo da obra doutrinária espírita de Allan Kardec, vamos encontrar diversas aplicações para o termo fluido, porém notadamente segmentadas em duas vertentes, assim consideradas por um determinado estudo:

“Verificando as origens históricas do termo, observa-se duas vertentes, das quais Kardec se utilizou para a construção do conceito de fluido. São elas: o sentido técnico-científico e o sentido terapêutico. O primeiro abrange ideias que se desenvolveram junto com a história do conhecimento humano em busca de entender o princípio das coisas, desde os pré-socráticos. O segundo nasce a partir do desenvolvimento da alquimia, no período medieval, onde a saúde humana era um ponto ainda cercado de mistério e os processos de cura se davam a partir de conexões com o divino.”
A Evolução do Conceito de Fluído, Victor Pereira Neves

Considerando essas duas vertentes, veremos então Kardec levar a ciência espírita a investigar o princípio das coisas, os elementos gerais do Universo, a possível constituição física do mundo espiritual e dos Espíritos, bem como os fluidos manipuláveis por eles, por exemplo, para fins terapêuticos (como no passe magnético) e para a realização das manifestações mediúnicas.

Desta feita, importa nos compenetrarmos da evolução do conceito de fluidos nos campos científicos e terapêuticos, tal como faremos a seguir.


Contexto científico

A progressão do entendimento científico da ideia dos fluidos remonta à Antiguidade, desde a busca pela origem e organização do Universo.

A Filosofia deslanchou na Grécia Antiga a partir da especulação dos filósofos pré-socráticos a respeito da constituição (essência) das coisas, partindo da ideia de que todas as formas físicas no Universo deviam proceder de uma única substância (matéria primitiva). O primeiro a propor sistematicamente essa ideia foi Anaximandro (610 - 546 a.C.), que denominou essa substância matriz de apeiron, que era uma substância indeterminada, ilimitada e possuindo movimento próprio, não gerada e imperecível que continha e dirigia todas as coisas. Já Tales de Mileto (624 - 546 a.C.) apostou na água como a fonte material de tudo. Por sua vez, Platão (427 - 347 a.C.) apresentava a ideia de uma substância chamada éter que seria a forma mais pura do ar, ocorrendo nas regiões mais altas da atmosfera, em contraste com sua forma mais densa que seria “nevoeiro”; essa suposição foi parcialmente admitida por Aristóteles (384 - 322 a.C.), que acredita no éter como o elemento responsável apenas pela constituição dos corpos celestes e não presente no planeta Terra, estabelecendo assim uma divisão entre o macrocosmo e o microcosmo; esse éter, para ele, seria então um quinto elemento, em conjunto com as quatro substâncias primitivas de que tudo era formado em nosso mundo: água, terra, fogo e ar. Dessas ideias se originam termos como etéreo etéreo e Quintessência, muito utilizado pelos alquimistas na era medieval e encontrados também na obra kardequiana.

Na Idade Média, desenvolveu-se a arte da Alquimia, que envolvia religiosidade e química, e cujo propósito primordial era o de buscar a perfeição espiritual e física, representada pela iluminação dos conhecimentos (aspecto espiritual) e a imortalidade (aspecto físico). Nesse sentido, os alquimistas acreditavam ser necessário — e possível — alcançar e controlar a quintessência (o éter dos antigos filósofos gregos); eles supunham que essa matéria sublime guardava alguma relação com aquilo que era mais valioso no nosso mundo: o ouro; por isso, o interesse em encontrar a fórmula para transformar metais em ouro, como caminho para encontrar o éter, conforme a concepção oriunda da obra alquímica Tábua de Esmeralda, atribuída ao filósofo e legislador egípcio Hermes Trismegisto (por volta de 1330 a.C.).

Na Era Moderna, o filósofo francês René Descartes (1596 - 1650) levantou o conceito de que nenhum lugar do espaço universal era vazio, que tudo era preenchido pela substância primeira (éter ou plenum) que interagiam com as outras duas substâncias que formavam a tríade material cósmica: matéria bruta terrena e a irradiação solar (fonte de luz e calor). Desdobrando-se sobre essas ideias de Descartes, Issac Newton (1643 - 1727) vai estudar os efeitos da luz então concordará com a proposição de um fluido cósmico (éter) pela explicação plausível de que a irradiação solar precisa de um meio físico para viajar no espaço do Sol até nós. Na mesma sintonia, o médico e físico inglês William Gilbert (1544 - 1603) estudando os efeitos do magnetismo mineral e da eletricidade, elaborou o conceito de que determinados corpos materiais exalam uma espécie de fluido — que ele chamou de eflúvio. Daí vieram os subsequentes estudos sobre eletricidade com Charles du Fay (1698 - 1739), Abbe Nollet (1700 - 1770) e Benjamin Franklin (1706 - 1790) que culminaram com a teoria do fluido elétrico e seus dois tipos de carga: positiva e negativa.

Os estudos eletromagnéticos avançaram substancialmente na Idade Contemporânea, a partir do século XIX, com a descoberta das correntes elétricas que criam os campos magnéticos, por Hans Christian Ørsted (1777 - 1851), e dos princípios da indução eletromagnética, por Michael Faraday (1791 - 1867), que deram origem a motores elétricos e posteriormente permitiu avanços na eletrificação urbana. Disso resultou a teoria do eletromagnetismo de James Clerk Maxwell (1831 - 1879), que prevalece até a atualidade e na qual, embora haja espaço para o éter, sua presença tornou-se irrelevante para o mecanismo deste fenômeno físico — o que levou esse conceito para a margem dos principais estudos.


Fluido no contexto terapêutico

Da alquimia para a medicina, os fundamentos do médico e alquimista suíço Paracelso (1493 - 1541) estabeleciam que a saúde dependia do equilíbrio entre o macrocosmo (universo) e o microcosmo (corpo), devotando ao fluido quintessenciado o mecanismo próprio das curas, sempre ministrado por Deus. Tal concepção de um “fluido curador” paracelsista influenciou o médico germânico Franz Anton Mesmer (1734 - 1815), o pai do Magnetismo Animal, ou Mesmerismo, cuja doutrina terapêutica consiste basicamente na ação de promover o equilíbrio do fluido magnético animal (animal aqui aplicado ao que vem da alma = ânima ou animus, em latim), que é uma espécie de energia que dá vitalidade aos corpos; essa ação (magnetização) se efetua pela capacidade humana de emanar e direcionar seus próprios fluidos para outrem; Mesmer operava essa magnetização através da imposição de mãos sobre algumas partes do corpo do enfermo, a utilização de água magnetizada, roda de pessoas de mãos dadas e o uso de imãs. E no background de tudo isso havia necessariamente um fluido universal a preencher todos os espaços e a permitir o caminho dos fluidos curador de um ser para outro, como a água do oceano por onde nadam os peixes:

“Não se pode duvidar da existência de um fluido universal, que é o conjunto de todos os tipos da matéria dividida pelo movimento interno (isto é, o movimento de suas partículas entre si). Neste estado, ele preenche os interstícios de todos os fluidos, assim como todos os sólidos contidos no espaço. Por causa dele, o Universo está fundido e reduzido a uma única massa.”
Mémoire de F. A. Mesmer, Docteur en Médecine, sur ses Découvertes, p. 22. -


Franz Anton Mesmer, pai do Magnetismo Animal


Allan Kardec, como veremos adiante, bebeu da fonte de Mesmer para codificar a sua Doutrina Espírita.


Materialidade do mundo espiritual

O emprego do termo fluido na codificação do Espiritismo ocorre primeiramente em função de um princípio estabelecido pelas pesquisas espíritas através das experimentações mediúnicas: a natureza material da espiritualidade.

Ao contrário do pensamento de muitos, a Revelação Espírita atesta que o ser espiritual (Espírito, alma, mente, consciência, indivíduo etc.) não é algo totalmente abstrato, vago e imaterial, mas sim alguma coisa que tem sua forma própria de ser e pela qual é identificada fisicamente na dimensão em que se encontra. O próprio Espírito em si (o ser íntimo) é descrito como uma “centelha etérea” cujo brilho colorido “varia do escuro a uma cor brilhante do rubi, conforme o Espírito é mais ou menos puro.” (O Livro dos Espíritos - questões 88 e 88-a) Se tem uma chama, e até cor, obviamente que consiste em algo material. Além disso, esse ser íntimo (Espírito) tem um corpo espiritual, que o Espiritismo chama de perispírito; eis, pois, um exemplo ainda mais concreto da materialidade dos indivíduos mesmo após a morte, ou desencarnação, como Kardec explana:

“Temos dito que, embora fluídico, o perispírito não deixa de ser uma espécie de matéria, e isso decorre do fato das aparições tangíveis, [...] A natureza íntima do Espírito propriamente dito, isto é, do ser pensante, nos é completamente desconhecida; ela só se revela para nós por seus atos, e seus atos não podem afetar nossos sentidos a não ser por um intermediário material. Portanto, o Espírito precisa de matéria para atuar sobre a matéria. Ele tem por instrumento direto o seu perispírito, assim como o homem tem o seu corpo; ora, seu perispírito é uma matéria, conforme acabamos de ver.”
O Livro dos Médiuns - 2ª parte, cap. I, itens 57 e 58

Algumas vezes os Espíritos são descritos como “imateriais”, da mesma forma que “invisíveis” ou “incorpóreos”, tendo por comparação a sua natureza muitíssimo sutil em relação à estrutura física que conhecemos em nosso mundo, conforme conferimos na questão proposta a seguir:

Será exato dizermos que os Espíritos são imateriais?
“Como se pode definir uma coisa quando faltam termos de comparação e com uma linguagem insuficiente? Um cego de nascença poderia definir a luz? Imaterial não é bem o termo; incorpóreo seria mais exato, pois deve-se compreender bem que, sendo uma criação, o Espírito há de ser alguma coisa; é uma matéria quintessenciada, mas sem analogia para vocês, e tão etérea que não pode ser percebida pelos vossos sentidos.”
O Livro dos Espíritos - questão 82

Em complemento à resposta acima, o codificador espírita vai assinalar: “Dizemos que os Espíritos são imateriais porque, pela sua essência eles são diferentes de tudo o que conhecemos sob o nome de matéria.” Com efeito, fica patente a imprecisão de nossa linguagem, pelo que o comentário kardequiano é concluído com a seguinte reflexão: “Não os podemos definir senão por meio de comparações sempre imperfeitas, ou por um esforço da nossa imaginação.”

A propósito, por falta de expressões mais exatas para definir o organismo espiritual, com seu corpo perispiritual, às vezes vamos vê-lo representado por “corpo fluídico” ou corpo “semimaterial”, como quando o perispírito é definido como “vestimenta fluídica que, de certo modo, faz parte integrante do Espírito, vestimenta semimaterial, isto é, pertencente à matéria pela sua origem e à espiritualidade pela sua natureza etérea...” (A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo - cap. XI, item 17)

Sendo os Espíritos de alguma ordem física, por mais sutil que seja, nada há de absurdo se supor que eles ocupem uma posição no tempo e no espaço; neste contexto, o perispírito servirá como a identidade de cada indivíduo, assim como o corpo humano designa cada cidadão terreno. Isso implica que o mundo espiritual — em todas as suas dimensões — igualmente seja materializado; isso dá plausibilidade às descrições feitas por tantas obras mediúnicas que descrevem construções arquitetônicas, ferramentas e as mais diversas instrumentações “físicas” nos planos espirituais. O próprio Kardec publicou na sua Revista Espírita exemplos de tais construções; na edição de agosto de 1858, no artigo intitulado ‘Habitações em Júpiter’, ele considerou que “como nós, os Espíritos tenham as suas habitações e as suas cidades”, e ainda reproduziu um desenho mediúnico da casa de Mozart.


Desenho da casa de Mozar em Júpiter


Quanto aos materiais de que o mundo espiritual é feito, eles costumam ser referidos como “fluidos espirituais”, mas mesmo essa designação não condiz com a exatidão da coisa, como diz o pioneiro espírita:

“A qualificação de fluidos espirituais não é rigorosamente exata, já que definitivamente é sempre matéria, mais ou menos quintessenciada. De espiritual realmente não há mais que a alma ou princípio inteligente. Nós o designamos assim por comparação e em razão sobretudo de sua afinidade com os Espíritos. Podemos dizer que é a matéria do mundo espiritual: eis por que lhes chamamos fluidos espirituais.”
A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo - cap. XIV, item 5


A materialidade do mundo espiritual e a admissão de formas físicas nas dimensões dos desencarnados nos conduz à dedução de diversos estágios materiais etéreos, ou seja, diversos tipos de fluidos, dentre os quais o mais importante é o fluido cósmico universal, como verificaremos no próximo tópico.


Fluido cósmico universal

As mais diversas ordens de fluidos espirituais partem de uma mesma fonte geradora, da qual também são extraídas todas as substâncias do nosso Universo físico; esta fonte primordial é definida em Espiritismo pela expressão “fluido cósmico universal”, que preenche todos os espaços, em todas as dimensões, pois “não existe o vazio” (O Livro dos Espíritos - questão 36); nesse fluido primitivo e onipresente na Criação está a substância elementar, dita Matéria Cósmica Primitiva, da qual tudo o mais que diz respeito à matéria é gerado:

“A matéria etérea — mais ou menos rarefeita, que permeia os espaços interplanetário —, esse fluido cósmico — que preenche o mundo, mais ou menos rarefeito nas regiões imensas, repletas de aglomerações de estrelas, mais ou menos condensado lá onde o céu astral ainda não brilha, mais ou menos modificado por diversas combinações de acordo com as localidades da extensão — não é outra coisa senão a substância primitiva onde residem as forças universais, donde a natureza tem tirado todas as coisas.”
A Gênese, os Milagres e as Predições - cap. VI, item 18

O fluido universal forma uma espécie de oceano cósmico em que tudo está mergulhado, ou um campo eletromagnético que se estende ao infinito e dentro do qual tudo e todos agem e reagem incessantemente, pois é por ele que viajam os pensamentos, sentimentos e emoções, bem como todas as propriedades materiais atuam. Estando esse fluido sob o domínio divino, assim se explica como Deus é dotado da onisciência, já que a menor ação física ou espiritual interage nesse fluido cósmico (A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo - cap. II, itens 20 e seguintes).

Importa lembrarmos que esse conceito do fluido universal já havia sido desenvolvido por Franz Anton Mesmer em sua teoria do Magnetismo Animal, ciência da qual o codificador espírita era versado e a qual ele definiu como “gêmea” do Espiritismo (Revista Espírita - janeiro de 1869: ‘Estatística do Espiritismo’).

As formas materiais conhecidas na Terra são, pois, estágios mais grosseiros dessa matéria primitiva; em estágios mais sutis (presentes nos mundos mais evoluídos e nas dimensões espirituais) encontram-se fluidos mais purificados, como o fluido vital (ou fluido magnético) que dá vitalidade e anima os corpos físicos.

“Os fluidos espirituais, que constituem um dos estados do fluido cósmico universal, são, a bem dizer, a atmosfera dos seres espirituais; o elemento donde eles tiram os materiais sobre que operam; o meio onde ocorrem os fenômenos especiais, perceptíveis à visão e à audição do Espírito, mas que escapam aos sentidos carnais, impressionáveis somente à matéria tangível; o meio onde se forma a luz peculiar ao mundo espiritual, diferente, pela causa e pelos efeitos da luz ordinária; finalmente, o veículo do pensamento, como o ar o é o do som.”
Revista Espírita - junho de 1868: ‘Fotografia do pensamento’


Força ou energia

Conquanto os fluidos pareçam mais facilmente compreensíveis como sendo formas materiais propriamente ditas, em outro sentido eles podem ser interpretados como uma espécie de “força”, porque se distinguem por propriedades especiais que não estão presentes na matéria comum, a começar pelo fluido universal, o qual assume o papel de um agente (manipulado pelos Espíritos) para a agregação e as transformações da matéria (O Livro dos Espíritos - questão 27). É nesse sentido que Zalmino Zimmermann vai dizer que:

“Em tempos, aliás, da chamada Teoria da Grande Unificação, em que se busca reunir os quatro tipos de forças fundamentais conhecidas (eletromagnética, gravitacional, interação fraca e interação forte) em uma única grande força, a ideia de um ‘fluido cósmico’ (ou universal), apontada pelos Instrutores de Kardec, surge cada vez mais compreensível. [...] E quanto ao termo ‘fluido’, parece bem claro que, em Espiritismo, tem mesmo o significado de força (e não, pois, de uma fase da matéria), aplicável não só às categorias conhecidas em Física, como àquelas de cuja existência se sabe, por enquanto, só por informação dos Espíritos.”
O Perispírito, Zalmino Zimmermann - nota 3 do cap. I


Nesta mesma direção, o notável filósofo espírita Léon Denis vai chamar os fluidos de “energias”:

“O estudo dos fenômenos espíritas nos fez conhecer estados de matéria e condições de vida que a ciência havia longo tempo ignorado. Ficamos sabendo que, além do estado gasoso e mesmo do estado radiante descoberto por William Crookes, a matéria, tornada invisível, imponderável, se encontra sob formas cada vez mais sutis, que denominamos ‘fluidos’. À medida que se rarefaz, adquire novas propriedades e uma capacidade de irradiação sempre crescente; torna-se uma das formas da energia.”
No Invisível, Léon Denis - cap. XIV

A este caráter corresponde a ideia do princípio material, que é a fonte de toda a matéria, mas não é exatamente uma matéria.


Manipulação dos fluidos

Em primeira instância, toda as manipulações fluídicas se sucedem mediante a vontade divina, sendo elas operadas diretamente por Deus ou pelos Espíritos. Os benfeitores espirituais amigos da codificação do Espiritismo explicam como os seres invisíveis operam essas manipulações:

“Os Espíritos atuam sobre os fluidos espirituais, não os manipulando como os homens manipulam os gases, mas pela ajuda do pensamento e da vontade. O pensamento e a vontade são para os Espíritos o que mão é para o homem. Pelo pensamento, eles dirigem esses fluidos para essa ou aquela direção; eles os aglomeram, combinam ou dispersam; formam com eles conjuntos que têm uma aparência, uma forma e uma coloração determinadas; mudam suas propriedades como um químico muda as propriedades dos gases ou de outros corpos combinando-os conforme certas leis. É a grande oficina ou laboratório da vida espiritual.”
A Gênese - cap. XIV, item 14

Evidentemente, o controle que os Espíritos têm para processar essas manipulações fluídicas é proporcional ao próprio grau deles na escala espírita; quanto mais adiantados em intelecto e moralidade, mais eles são aptos a controlar os fluidos.

Dentre tantas possibilidades, os Espíritos podem fazer combinações fluídicas para tratamentos de cura e para a produção de fenômenos mediúnicos, neste caso valendo-se necessariamente de fluidos emanados pelos encarnados aptos a lhes servir de médiuns; em determinadas ocasiões, os seres espirituais manipulam estas emanações mesmo sem que os médiuns tenham conhecimento desta ação. Explicando o papel dos encarnados nas manifestações espirituais em nosso mundo físico, o Espírito de Erasto destaca: “precisamos sempre da assistência consciente ou inconsciente de um médium humano, porque carecemos da união de fluidos similares — o que não encontramos nem nos animais nem na matéria bruta.” (O Livro dos Médiuns - 2ª parte, cap. XXII, item 236)

É interessante observar o que se passa com determinados fluidos em determinadas manifestações de efeitos físicos (por exemplo, nos casos de materializações espirituais), quando fluidos etéreos são misturados com eflúvios provindos dos médiuns (também conhecidos como ectoplasmas) e que, em dado momento, se condensam e se solidificam a ponto de se tornarem tangíveis, portanto, perdendo momentaneamente a condiçõa fluídica, para depois se desmaterializarem e dispersarem no ar, novamente se fluidificando.


Materialização do Espírito Katie King


Por outro lado, Espíritos moralmente inferiores podem usar os fluidos para o mal, como nos processos de obsessão; nestes casos, o domínio se dá por conta de uma afinidade fluídica entre obsessor e obsediado. Se alguém é mal influenciado por Espíritos inferiores, é porque “sua natureza se presta melhor a determinadas relações; seu fluido se identifica mais com um Espírito do que com outro; é isso o que dá um domínio tão grande àqueles que querem abusar dele.” (O Livro dos Médiuns - 2ª parte, cap. XXIII, item 254)

Porém, a maneira mais simples de modelação fluídica se dá pelo nosso simples pensamento, que emite vibrações — mais ou menos fortes, conforme certas condições como a nossa força de vontade — que repercutem no ambiente cósmico no qual estamos todos inseridos através do fluido universal, semelhante às ondas de rádio e via satélite, que irradiam pelo ar. Aliás, a tradição espiritualista dá conta de que cada indivíduo conserva em torno de si um campo vibratório fluídico, chamado de aura, que se caracteriza pela qualidade dos seus próprios pensamentos; a partir desse conhecimento, Léon Denis dá seu testemunho de um experimento científico capaz de registrar as vibrações mentais dos participantes:

“Colocada a extremidade dos dedos sobre a chapa mergulhada no banho revelador, se, elevando o pensamento, num subitáneo e ardente impulso, fazemos uma prece, verificaremos em seguida que as irradiações adquiriram no vidro uma forma particular — a de uma coluna de chamas que se eleva de um jato. Esse fato demonstra, não somente a ação do nosso pensamento sobre os fluidos, mas também quanto influem as nossas disposições psíquicas sobre o meio em que operamos e lhe podem modificar as condições vibratórias.”
No invisível, Léon Denis - cap. XV, nota 108


Em suma, o fluido cósmico universal — que é ao mesmo tempo o princípio material e a matéria primitiva — é fonte geradora de todas as demais substâncias, tanto as do nosso mundo físico como as da dimensão espiritual; quando essas combinações cumprem seu papel e são enfim desfeitas, toda a matéria que as compõem voltam ao estado primitivo e são reaproveitadas para novas combinações, pois “Deus renova os mundos como renova os seres vivos” (O Livro dos Espíritos - questão 41).


Veja também


Referências

  • O Livro dos Espíritos, Allan Kardec - Ebook.
  • O Livro dos Médiuns, Allan Kardec - Ebook.
  • A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, Allan Kardec - Ebook.
  • Revista Espírita - coleção 1858, Allan Kardec - Ebook.
  • Revista Espírita - coleção 1869, Allan Kardec - Ebook.
  • A Evolução do Conceito de Fluído, Victor Pereira Neves - Faknet.
  • Mémoire de F. A. Mesmer, Docteur en Médecine, sur ses Découvertes, Franz Anton Mesmer - Gallica.
  • Verbete Hermes Trismegisto na Wikipédia.
  • O Perispírito, Zalmino Zimmermann. Editora Allan Kardec, Campinas - SP. 4ª edição, 2002.
  • No Invisível, Léon Denis - Ebook.


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Índice de verbetes
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