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Índice de verbetes


Erasto



Erasto, também denominado Erasto de Corinto, ou Erasto de Paneas, foi um discípulo do apóstolo Paulo e um dos mais importantes trabalhadores do Cristianismo nascente. Ele foi procurador público (tesoureiro) de Corinto, na Grécia; diácono na igreja em Jerusalém e depois bispo em Paneas, na Palestina. Desencarnado, foi um dos mais ativos colaboradores da codificação do Espiritismo, principalmente através do médium Alis d’Ambel, contribuindo especialmente no esclarecimento de assuntos relacionados aos fenômenos mediúnicos, razão pela qual Allan Kardec o reputou-o um Espírito evoluído. Erasto é muito lembrado pelo movimento espírita pela célebre máxima: “Mais vale repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma única teoria errada”.


Erasto



Apresentação do Espírito Erasto

O nome de Erasto aparece pela primeira vez na obra kardequiana em O Livro dos Médiuns, publicado em 15 de janeiro de 186; mas é certo que sua contribuição à codificação espírita começa desde os primórdios da pesquisa doutrinária de Allan Kardec, culminando com o lançamento de O Livro dos Espíritos, em 18 de abril de 1857, obra essa que teve ativa participação do personagem em questão — embora ele não tenha sido citado —, como veremos no tópico Contribuição doutrinária espírita deste verbete.

Kardec o apresenta formalmente no capítulo V, item 98 da 2ª parte de O Livro dos Médiuns, 98), tratando da teoria do fenômeno dos transportes e das manifestações físicas em geral; o autor do livro qualifica Erasto como “um Espírito cujas todas as comunicações contêm um cunho incontestável de profundidade e lógica”. Depois de informar que a referida obra iria reproduzir várias mensagens daquele Espírito, o codificador espírita completa: “Ele se apresentou pelo nome de Erasto, discípulo de são Paulo, e como protetor do médium que lhe serviu de intérprete:” O médium, no caso, era o Sr. D’Ambel, sobre quem falaremos mais adiante.

Na mesma obra literária, agora no cap. XIX, item 225 da 2ª parte, cujo assunto específico é o papel dos médiuns nas comunicações espirituais, Erasto assina uma dissertação ao lado do Espírito Timóteo. Na apresentação desta mensagem, Kardec se refere a Erasto como “Espírito superior”. A dissertação começa com o seguinte parágrafo:

“Qualquer que seja a natureza dos médiuns escreventes, que eles sejam mecânicos, semimecânicos ou simplesmente intuitivos, nossos procedimentos de comunicação com eles não variam essencialmente. De fato, nós nos comunicamos com os próprios Espíritos encarnados assim como com os Espíritos propriamente ditos, somente pela irradiação do nosso pensamento.”
Erasto e Timóteo
O Livro dos Médiuns, Allan Kardec – 2ª parte, cap. XIX, item 225

Ao fim desta comunicação reproduzida, Kardec acresce uma nota pela qual expressa seu reconhecimento pela presteza do Espírito amigo: “Esta análise sobre o papel dos médiuns e sobre os processos pelos quais os Espíritos se comunicam é tão clara quanto lógica.” Interessante observarmos esta parceira, reforçando os laços espirituais entre os dois missionários cristãos, lembrando ainda que Timóteo foi o primeiro bispo de Éfeso e aquele que era para são Paulo “filho amado e fiel ao Senhor” (I Coríntios, 4:17) e “verdadeiro filho na fé” (2 Coríntios, 1:2). Portanto, unidos no século I da era cristã, unidos na tarefa da codificação espírita.

Ainda em O Livro dos Médiuns, na mensagem numerada XXVII e presente no cap. XXXI, das ‘Dissertações Espíritas’, o próprio Espírito assina seu nome e a referência “discípulo de Paulo”, confirmando a apresentação feita por Allan Kardec.


Erasto e o Cristianismo nascente

Erasto é um personagem do Novo Testamento bíblico, formalmente citado três vezes. Pela primeira citação direta, depreende-se que ele tenha servido ao apóstolo Paulo, ao lado de Timóteo:

“E, enviando à Macedônia dois daqueles que o serviam, Timóteo e Erasto, ficou ele [Paulo] por algum tempo na Ásia.”
Atos dos Apóstolos, 19:22

A segunda passagem que o cita, na epístola de são Paulo aos Romanos, tomamos nota de seu cargo público de Corinto, qual seja o de procurador (em grego, οἰκονόμος, oikonomos), equivalente a tesoureiro da cidade:

“Saúda-vos Gaio, meu hospedeiro, e de toda a igreja. Saúda-vos Erasto, procurador da cidade, e também o irmão Quarto.”
Romanos, 16:23

No terceiro versículo, contido na segunda epístola de Paulo a Timóteo, temos a ratificação de que Erasto era um assessor do apóstolo convertido a caminho de Damasco:

“Erasto ficou em Corinto, e deixei Trófimo doente em Mileto.”
II Timóteo 4:20

De acordo com a tradição da Igreja Ortodoxa Oriental, Erasto é contado entre os Setenta Discípulos e teria servido como diácono e mordomo da Igreja em Jerusalém, sendo mais tarde ordenado bispo de Paneas, na Palestina. A hagiografia ortodoxa celebra Santo Erasto no dia 4 de janeiro, como sendo ele um dos Setenta Discípulos, e no dia 10 de novembro, ao lado de Olimpas, Herodião (bispo de Patras), Quarto (bispo de Berito), Sosípatro (bispo de Icônio) e Tércio (bispo de Icônio).

A cultura católica diz que Erasto era descendente da tribo de Benjamim e nascera no ano 13 da Era Cristã. Sua família e a de Saulo de Tarso (São Paulo) eram conhecidas e mantinham laços de amizade. Na infância, em anos distintos, ambos receberam formação religiosa da mesma escola judaica, a dos fariseus, cujo mestre maior naquele tempo era Gamaliel, o Velho. Durante a juventude, compromissos familiares o levaram para Éfeso, movimentada cidade portuária da Ásia Menor, centro próspero de comércio e de cultura grega, com milhares de habitantes, onde a dominação romana oferecia melhores perspectivas de vida. No ano 32, sequioso de trabalho e falando perfeitamente o grego, Erasto deslocou-se para Corinto, importante colônia romana no coração da Grécia, cidade mais requintada depois de Atenas. No início da idade juvenil, Erasto tomara conhecimento das pregações do Cristo. Depois, na maturidade, ao passar por Jerusalém no ano 49, ele reviu Paulo, seu conhecido de anos passados, que estava na cidade para participar do concílio apostólico. Voltou a encontrar-se com ele em Corinto, durante a segunda viagem missionária do apóstolo dos gentios. O cargo público que ocupava na administração da cidade não lhe permitia maior exposição para realizações apostólicas. Por essa razão, abraçou publicamente o Cristianismo no ano 54, em outra cidade, Éfeso, quando hospedou o Apóstolo dos Gentios em sua casa.

Reza a hagiologia cristã oriental que os chamados “Setenta Discípulos” (na verdade, setenta e dois, segundo algumas versões), nos quais Erasto está incluso, foram os primeiros seguidores de Jesus então mencionados no Evangelho de Lucas; no texto, o Cristo os designou e enviou aos pares numa determinada missão rumo a diversas regiões. Assim principia a narração:

“E depois disto designou o Senhor ainda outros setenta, e mandou-os adiante da sua face, de dois em dois, a todas as cidades e lugares aonde ele havia de ir. E dizia-lhes: Grande é, em verdade, a seara, mas os obreiros são poucos; rogai, pois, ao Senhor da seara que envie obreiros para a sua seara. Ide; eis que vos mando como cordeiros ao meio de lobos.”
Lucas, 10: 1-3

Na sequência, o Messias instrui detalhadamente como esses missionários deveriam se portar diante da boa ou má acolhida que recebessem.

Conquanto a listagem destes missionários seja questionada por muitos estudiosos — a dúvida valendo igualmente quanto à participação de Erasto —, é pacífico o entendimento de que nosso personagem em destaque foi um ostensivo seareiro do Cristianismo nascente, testemunhando fielmente a Boa Nova do Cristo, estando muito próximo de Paulo e Timóteo. Seu paradeiro final é desconhecido, porém é dado como certo que ele tenha sido martirizado, a exemplo de praticamente todos os seus colegas discípulos cristãos.


Especulações históricas

Em 1929, partes de uma inscrição mencionando o nome “Erasto” foram encontradas perto de uma área pavimentada a nordeste do teatro de Corinto; este achado é internacionalmente conhecido como The Erastus Inscription. A sua datação é contestada, mas é possível que a inscrição remonte a meados do século I. Trata-se de uma placa de benemérito; o texto diz “Erasto, em troca de sua edilidade, pavimentou tudo às suas próprias custas." (no original em latim: “ERASTVS. PRO. AED. SP STRAVIT”, abreviado para “ERASTUS PRO AEDILITATE SUA PECUNIA STRAVIT”). Alguns especialistas no estudo do Novo Testamento identificaram este Erasto edil (espécie de fiscal de obras públicas no Império Romano) com o Erasto mencionado na Epístola aos Romanos; não obstante, tal identificação é contestada por outros estudiosos.

No meio espírita, uma especulação foi levantada a respeito de uma possível reencarnação do Espírito Erasto durante a Era Medieval: na tradução da Revista Espírita - coleção de 1869 publicada pela EDICEL, consta um índice biobibliográfico, onde o personagem em destaque é apresentado como tendo sido Thomaz Liber, dito “Erasto”, que foi um médico, filósofo e teólogo alemão, nascido em 1524 e morrido em 1583; professor de Medicina em Heidelberg e de Moral, em Basileia. No campo da Teologia, Thomaz Liber combateu o poder temporal da Igreja e se opôs à disciplina calvinista e à ordem presbiteriana. Sua posição lhe valeu uma excomunhão, sob suspeita de heresia, sendo reabilitado algum tempo depois. Suas teorias tiveram muitos partidários, sobretudo na Inglaterra. Legou somas consideráveis aos estudantes pobres, sendo especialmente respeitado por seus gestos de benemerência. Em torno dele foi construída uma doutrina conhecida como Erastianismo.

Em sua pesquisa histórica acerca desta especulação, o escritor espírita mineiro Kleber Halfeld assim pontuou, sem refutar nem ratificar tal suposição:

“O que deveras importa é a respeitável tarefa desenvolvida tanto à época do apóstolo Paulo quanto ao tempo de Kardec, por um Espírito. No primeiro caso, encarnado, ressalta a divulgação realmente extraordinária que fez do Cristianismo nascente, empreendimento esse, aliás, realizado em campos nem sempre acolhedores. No segundo, as elucidações precisas que a entidade espiritual apresentou em favor da codificação da Doutrina Espírita em uma época em que Kardec consultava com assiduidade o Plano Espiritual Maior, buscando uma quantidade suficiente de respostas para temas de vital importância!”
Reformador- outubro de 1993: ‘Um Espírito chamado Erasto’


Contribuição espiritual de Erasto

Na condição de desencarnado, Erasto prestou um grande serviço em prol da obra doutrinária espírita, especialmente tratando de assuntos relacionados à medianimidade — fenômenos mediúnicos e anímicos. Desse modo, suas comunicações aparecem com frequência em O Livro dos Médiuns, publicado em 1861. Entretanto, é preciso recordar que grande parte do conteúdo desta obra veio da 1ª edição de O Livro dos Espíritos, publicado três anos e meio antes; nesta edição original, consta um capítulo inteiro — Livro Primeiro, cap. X — abordando o tema ‘Manifestações dos Espíritos’, que foi retirado da 2ª edição (1860) propositadamente, a fim de ser inserido numa obra exclusiva sobre o assunto, conforme explicou Kardec:

“O ensinamento relativo às manifestações propriamente ditas e aos médiuns forma uma espécie de parte distinta da filosofia, e que deve ser objeto de um estudo especial. Já que essa parte recebeu os mais consideráveis desenvolvimentos como resultado da experiência adquira, pensamos que deveríamos fazê-la num volume diferente, contendo as respostas dadas sobre todas as questões referentes às manifestações e aos médiuns, bem como numerosas observações sobre o Espiritismo prático; essa obra (nota: que já está sendo impressa) formará a sequência, ou seja, o complemento de O LIVRO DOS ESPÍRITOS.”
Nota especial inserida na 2ª edição de O Livro dos Espíritos

Inicialmente, Kardec pensava em intitular essa nova obra como “Espiritismo Experimental”, mas acabou publicando-o com o título O Livro dos Médiuns, aproveitando aqui textos nos quais seguramente podemos apontar a autoria de Erasto pela similaridade dos tópicos tratados, por exemplo: manifestações físicas espontâneas, variedades de médiuns, o papel dos médiuns nas comunicações etc.); em geral, a autoria das respostas espirituais é omitida no primeiro livro, mas é assinalada no segundo, de modo que podemos verificar a participação de Erasto em várias passagens. Isto significa que nosso protagonista estava presente e atuante na obra kardequiana desde os primeiros estudos doutrinários do codificador do Espiritismo.


Presença na codificação kardequiana

Como sabemos, as respostas espirituais contidas em O Livro dos Espíritos geralmente não são acompanhadas da autoria, razão pela qual ignoramos a maioria das contribuições. No final da seção dos Prolegômenos consta uma relação de nomes que cooperaram com o autor, constando no final um “et cetera’, indicando que outros tantos Espíritos deixaram sua contribuição. Dentre estes “anônimos”, não há por que duvidar da participação de Erasto, conforme dito no tópico anterior.

Já em O Livro dos Médiuns, sua assinatura é expressa e a mais frequente nesta obra, somando uma dúzia de vezes — fora as passagens não assinadas. Depois do já mencionado item 98, quando é apresentado pelo autor da obra, e do item 225, no qual lemos a dissertação escrita em parceria com Timóteo, o nome de Erasto aparece várias vezes no item 99, fazendo anotações após as alegações do Espírito Jeannet (então evocado para dar explicações a respeito de uma série de manifestações perturbadoras por ele produzidas numa casa da rua dos Noyers, em Paris) ocasião em que Erasto complementa as informações e retifica alguns equívocos narrados pelo Espírito perturbador.

Na sequência do mesmo livro, agora no cap. XVI, o autor vai fazer uma classificação dos “médiuns especiais” e informa ao leitor que as notas espirituais, adicionadas esporadicamente, com mais detalhes sobre as referidas faculdades mediúnicas, são informações majoritariamente da autoria de Erasto e de Sócrates. Numa das classes contendo inserções atribuídas expressamente ao nosso personagem, Kardec define os “médiuns suscetíveis” desta maneira: “variedade dos médiuns orgulhosos; irritam-se com as críticas de que suas comunicações possam ser alvo; zangam-se com a menor contradição e, quando mostram o que obtêm, é para causar admiração e não para pedir a opinião de ninguém. Geralmente eles tomam aversão às pessoas que não os aplaudem sem restrições e fogem das reuniões em que não possam se impor e dominar.” Sobre estes médiuns, a nota de Erasto exprime:

“Deixem-lhes irem se exibir noutros lugares e procurar ouvidos mais complacentes, ou se retirarem ao isolamento; as reuniões que se privam da presença deles não sofrem nenhuma grande perda.”
O Livro dos Médiuns - 2ª parte, cap. XVI, item 196

O discípulo de Paulo se faz presente no cap. XX, dissertando sobre a influência moral dos médiuns. Aqui encontra-se a famosa frase pela qual muito é lembrado no movimento espírita:

“Mais vale repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma única teoria errada”.
Idem- cap. XX, item 230

Também oferece seus conhecimentos a respeito da medianimidade dos animais, no cap. XXII. Finalmente, deixa um discurso forte nas dissertações de número XXVII e XXVIII, no capítulo XXXI. Destas preciosas linhas, destacamos o trecho avante:

“Repulsem implacavelmente todos esses Espíritos que pretendem ser os únicos a dar conselhos, pregando a divisão e o isolamento. São quase sempre Espíritos vaidosos e medíocres, que tendem a se impor aos homens fracos e crédulos, esbanjando-lhes elogios exagerados, a fim de lhes fascinar e tê-los sob sua dominação. Geralmente são Espíritos sedentos de poder, que — como eram tiranos, públicos ou particulares, quando eram vivos — ainda querem fazer vítimas para tiranizar depois da morte. Em geral, desconfiem de comunicações que tragam um caráter de misticismo e de estranheza, ou que recomendem cerimônias e atos bizarros; nesses casos, sempre há um motivo legítimo de suspeita.”
Idem - cap. XXXI, dissertação XXVII

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, contamos quatro mensagens assinadas por este Espírito. A primeira se encontra já no cap. I, item 11, no tópico ‘A Nova Era’, fazendo apologia a santo Agostinho. Na segunda mensagem, inserida no cap. XX, item 4, dentro do tópico ‘Missão dos espíritas’, ele marca sua assinatura e acrescenta a referência “anjo da guarda do médium” (Sr. d’Ambel); consiste numa tocante exortação vocacional dirigida a todos os confrades espíritas, da qual sempre é válido recordar:

“Já não escutam o ruído da tempestade que há de levar o velho mundo e abismar no nada o conjunto das iniquidades terrenas? Ah, bendigam o Senhor, vocês que puseram a fé na Sua soberana justiça e que, como os novos apóstolos da crença revelada pelas proféticas vozes superiores, vão pregar o novo dogma da reencarnação e da elevação dos Espíritos, conforme tenham cumprido bem ou mal suas missões e suportado suas provas terrestres! Não se assustem mais! As línguas de fogo estão sobre as suas cabeças. Ó verdadeiros adeptos do Espiritismo! Vocês são os escolhidos de Deus! Vão e preguem a palavra divina. É chegada a hora em que, para a sua propagação, devem sacrificar os próprios hábitos, os próprios trabalhos, as suas ocupações fúteis. Vão e preguem!”
O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec - cap. XX, item 4

Veremos as duas outras mensagens no cap. XXI, itens 9 e 10, respectivamente denominadas ‘Características do verdadeiro profeta’ e ‘Os falsos profetas da erraticidade’, sendo que na última ele próprio novamente se identifica como discípulo de são Paulo.

Na obra O Céu e o Inferno, primeiro ele é citado como um dos Espíritos que assistem o retorno à Pátria Espiritual do Sr. Jobard (diretor do Museu da Indústria de Bruxelas, Bélgica, e presidente honorário da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas), selecionado entre os ‘Espíritos felizes’, no cap. II da 2ª parte do referido livro; depois, ele assina uma comunicação, dentro do cap. VII, pela qual dá mais informações — que Kardec frisa como sendo “dignas da mais séria atenção” — sobre a situação de Lapommeray, um Espírito endurecido “castigado pela luz”, sobre quem o benfeitor espiritual comenta:

“Todo pensamento mau — e Deus sabe se a sua alma o exprime — lhe trai por fora e por dentro, como empurrado por choque elétrico irresistível. Procura esquivar-se da multidão, e a luz odiosa o devassa continuamente. Quer fugir, e desanda numa carreira infrene, desesperada, através dos espaços incomensuráveis, e por toda a parte luz, olhares que o observam. E corre, e voa novamente em busca da sombra, em busca da noite, e sombra e noite não mais existem para ele! Chama pela morte... Mas a morte não é mais que palavra sem sentido. E o infeliz foge sempre, a caminho da loucura espiritual — castigo tremendo, dor horrível, a debater-se consigo para se desembaraçar de si mesmo, porque tal é a lei suprema para além da Terra, isto é: o culpado busca por si mesmo o seu mais inexorável castigo”
O Céu e o Inferno, Allan Kardec - 2ª parte, cap. VII

Logo mais, no capítulo VIII, falando das expiações terrestres, Erasto complementa a narração do drama do Espírito sofredor Antonio B, “enterrado vivo sob a pena do talião”.

O ilustre nome espiritual foi grafado também em alguns fascículos da editada por Allan Kardec, tal como nos artigos: ‘Epidemia demoníaca na Saboia’, de abril de 1862; ‘Hereditariedade moral’, de julho de 1862; ‘Questões e problemas’, de maio de 1863 e assim por diante.

Nas Obras Póstumas de Allan Kardec (1890), vamos nos deparar com uma mensagem sobre o futuro da igreja, assinada apenas com a inicial “E”, recebida pelo médium Sr. d’A... em 30 de setembro de 1863 — mesma época das comunicações ditadas por Erasto ao Sr. D’Ambel que seriam aproveitadas em O Evangelho segundo o Espiritismo e na Revista Espírita. Tanto o assunto em questão quanto o estilo da escrita nos sugerem fortemente que a composição é do nome principal deste verbete. Vejamos um trecho desta mensagem:

“É chegada a hora em que a Igreja tem de prestar contas do depósito que lhe foi confiado, da maneira como pratica os ensinos do Cristo, do uso que fez da sua autoridade, enfim, do estado de incredulidade a que levou os espíritos. A hora é vinda em que ela tem de dar a César o que é de César e de assumir a responsabilidade de todos os seus atos. Deus a julgou, e, daqui por diante, a reconheceu inapta para a missão de progresso que incumbe a toda autoridade espiritual. Somente por meio de uma transformação absoluta lhe seria possível viver; mas, essa transformação se resignará a ela? Não, já que então não seria a Igreja; para assimilar as verdades e as descobertas da Ciência, teria de renunciar aos dogmas que lhe servem de fundamentos; para voltar à prática rigorosa dos preceitos do Evangelho, teria de renunciar ao poder, à dominação, de trocar o fausto e a púrpura pela simplicidade e a humildade apostólicas. Ela se acha nesta alternativa: ou se suicida, transformando-se; ou sucumbe nas garras do progresso, se permanecer estacionária.”
Obras Póstumas, Allan Kardec - 2ª parte, ‘A igreja’

E para reforçar nossa suposição, um pouco mais à frente se pode ver o nome de Erasto no diálogo mediúnico datado de 14 de outubro do mesmo ano, através do mesmo médium Sr. d’A..., no tópico ‘Vida de Jesus por Renan’, em referência ao livro Vie de Jésus [Vida de Jesus], recém-publicado pelo historiador francês Ernest Renan (1823-1892).

Em suma, ficou assaz evidente quão profícua foi a cooperação do Espírito Erasto na bibliografia kardequiana.


D’Ambel, o médium predileto

Servindo à obra de Allan Kardec, Erasto se manifestou através de Alis d’Ambel, vice-presidente da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, médium da confiança do codificador espírita e seu primeiro secretário particular. Seu nome batismal era Emmanuel Balthazard Marie Eugène Alis d’Ambel, mas ao longo da vida ele se apresentou com diversos pseudônimos (Abel d’Islam, Marie Alis, A. D’A., Al. de Paris, E. Alis etc.). D’Ambel foi era o médium predileto de Erasto, mas ele também recebeu comunicações de diversas entidades (Espírito Verdade, Jobard, François-Nicolas Madeleine etc.).

A estima que o mestre tinha pelo seu secretário-médium fica bem ilustrada através de uma carta de Kardec (de viagem à Sainte-Adresse, em retiro a fim de escrever O Evangelho segundo o Espiritismo) para sua esposa, Amélie Boudet, escrita em 6 de setembro de 1863, na qual ele roga: “Darás conhecimento desta resposta ao Sr. D’Ambel e lhe dirás que eu ficaria muito contente se Erasto, a Verdade ou qualquer outro Espírito bom houvesse por bem me dar uma comunicação em meu retiro.” Contudo, o pesquisador espírita Carlos Seth Bastos anota:

“Apesar desta proximidade com Allan Kardec, o Sr. D’Ambel apareceu nas publicações da Revista Espírita apenas de junho de 1861 a julho de 1865, com cerca de vinte e oito comunicações, sendo dezenove de Erasto.”
Espíritos sob investigação: resgatando parte da História - cap. 10

Esse curto período de notoriedade do médium tem uma explicação: D’Ambel desertou do círculo kardecista apostando em criar sua própria corrente espiritualista, cheio de ideias ousadas, muito em sintonia com as ideias de André Pezzani, autor de Une philosophie nouvelle [Uma filosofia nova]; em 1864, ele funda o jornal L’Avenir [O futuro], para o qual o secretário de Kardec vai escrever textos defendendo questões polêmicas, por exemplo, a de uma “morte espiritual”.

Kardec é alertado sobre a leviandade de Alis d’Ambel durante uma sessão sonambúlica em 8 de outubro de 1865.

“Quanto ao senhor D’Ambel, vejo dois homens com ele! Um é seu livre-arbítrio, seu eu; o outro, a influência de seus assistentes (espirituais). Seu eu lhe dissera: não, não vá para a sessão [à qual] sua assistência lhe disse para ir. Ele não queria, a assistência queria, e como afinal o livre-arbítrio nem sempre é o mais forte, ele veio. (...) Ele, ele é mau, muito mau, cheio de personalidade, de orgulho e de ideias adquiridas. Seu entorno (espiritual) é bom, mas seu ego o supera (...). Mas, sobretudo, não ponha fé em nada que saia da boca desse homem. Ele é maldoso, falso, hipócrita; o bem quer às vezes agir sobre ele, mas o orgulho, a inveja, o ciúme, essa trilogia de paixões sempre vence. Seria melhor para todos e para ele mesmo que ele se retirasse completamente!”
Espíritos sob Investigação - cap. 10

Os presságios não eram otimistas para os dissidentes: a nova doutrina e a revista de Pezzani iriam arruinar e levar junto o médium predileto de Erasto. Foi o que ocorreu; o último exemplar do L’Avenir foi às bancas já em abril de 1866, uma semana depois da publicar a oitava e última parte da série que compunha a fatídica obra O Livro de Erasto, cujo teor desconfigurava totalmente o conhecido estilo do assessor paulino, como bem analisou Carlos Seth Bastos: “Além da ‘doutrina dos anjos caídos’, encontramos alguns trechos estranhos como a descrição das pessoas da era anti-hebraica. Erasto, irreconhecível, também se esqueceu da cultura oriental, além de apresentar o Cristo como salvador etc.” Sete meses depois da falência do ousado jornal, Alis d’Ambel se suicida em seu apartamento. Kardec, por sua vez, lamentou publicamente a tragédia do ex-confrade:

“Uma morte que nos surpreendeu tanto quanto nos afligiu foi a do Sr. D’Ambel, antigo diretor do jornal L’Avenir, ocorrida a 17 de novembro de 1866. Suas exéquias se realizaram na Igreja de Notre-Dame de Lorette, sua paróquia. A malevolência dos jornais que dele falaram revelou-se, nesta circunstância, de maneira lamentável, por sua afetação em ressaltar, exagerar, envenenar, como se tivessem prazer em revolver o ferro na ferida, tudo quanto esta morte poderia ter de penoso, sem consideração pelas suscetibilidades de família, esquecendo até o respeito que se deve aos mortos, sejam quais forem suas opiniões e suas crenças em vida. Esses mesmos jornais teriam gritado escândalo e profanação contra quem quer que dessa maneira tivesse falado de um dos seus.”
Revista Espírita - dezembro, 1866: ‘Necrólogo’

Ninguém sensato ousará duvidar dos constantes esforços do Espírito Erasto no sentido de instruir D’Ambel, seu médium apadrinhado de outrora, a fim de vencer os desafios comuns da mediunidade, e sobretudo para dissuadi-lo do golpe final contra si mesmo que lhe arrancou a vida terrena pela terrível porta do suicídio; porém, o mentor espiritual não pode cercear o livre-arbítrio daquele que tenha conquistado tal direito sagrado com seu discernimento.

Desde o funesto desfecho da parceria Erasto-D’ambel, não mais vimos o nome do emérito Espírito atribuído a alguma nova comunicação espiritual na obra kardequiana; dele, a Revista Espírita de fevereiro de 1868 vai publicar, dentre outras “instruções do Espíritos”, as mensagens ‘O futuro do Espiritismo’ e ‘O juízo final’, mas datando seu recebimento respectivamente de 1863 e 1861 — portanto, bem antes de Alis d’Ambel deixar a Sociedade Espírita de Paris. Todavia, é indubitável que Erasto tenha continuado e ainda continue a servir à causa espírita. E por tudo que fez em prol da nossa doutrina, ele será sempre lembrado como um dos grandes patronos da humanidade.

“Erasto é considerado um dos mais importantes mensageiros do Espiritismo que, sob a coordenação do Espírito da Verdade, transmitiu mensagens que revelam sabedoria e elevação moral.”
Marta Antunes Moura
Reformador - novembro, 2020: ‘Erasto, Espírito orientador da Codificação Espírita’


Curiosidades

  • A grafia Erasto vem do grego εραστο, transliterado para o latim como Erastus, significando “o que é amado, querido”.

  • Erasto empresta seu nome ao segundo centro espírita mais antigo do Estado de Alagoas, no Nordeste brasileiro; segundo o portal da Federação Espírita do Estado de Alagoas, o Grupo Espírita Erasto, de Maceió, foi fundado em 10 de outubro de 1910 e continua ativo até os dias atuais.


Veja também


Referências

  • Revista Espírita - coleção 1860, Allan Kardec - Ebook.
  • Revista Espírita - coleção 1862, Allan Kardec - Ebook.
  • Revista Espírita - coleção 1863, Allan Kardec - Ebook.
  • Revista Espírita - coleção 1866, Allan Kardec - Ebook.
  • Obras Póstumas, Allan Kardec - Ebook.
  • Verbete “Erasto de Paneas” na Wikipédia.
  • Verbete “Erastus of Corinth” (em inglês) na Wikipédia.
  • Verbete “Setenta Discípulos” na Wikipédia.
  • Reformador de outubro, 1993. FEB editora - Acervo online.
  • Reformador de novembro, 2020. FEB editora - Acervo online.
  • Hagiografia de Erasto em The Prologue from ochrid [Prólogo de Ocrida], de São Nicolau de Ocrida, no portal da Diocese da Austrália e da Nova Zelândia para a Igreja Ortodoxa Russa - Portal ROCOR.
  • Busca por “Erasto” na - Bíblia Online.
  • Sobre a inscrição de Erasto encontrada em Corinto, Grécia, ver o vídeo The Erastus Inscription: Possible Evidence for the Erastus of Corinth Found in Romans 16:23 - YouTube.
  • Verbete “Erastianismo” (em espanhol) na Wikipédia.
  • “Erasto” na galeria Expoentes da Codificação no portal da Federação Espírita do Paraná - FEP.
  • Espíritos sob Investigação: resgatando parte da História, Carlos Seth Bastos - CCDPE-ECM.
  • O espírita dissidente André Pezzani e sua obra Uma filosofia nova, na fanpage CSI do Espiritismo - Facebook.
  • Federação Espírita do Estado de Alagoas - FEEAL.


Tem alguma sugestão para correção ou melhoria deste verbete? Favor encaminhar para Atendimento.


Índice de verbetes
A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo
Abreu, Canuto
Adolphe Laurent de Faget
Agênere
Alexandre Aksakof
Allan Kardec
Alma
Alma gêmea
Amélie Gabrielle Boudet
Anália Franco
Anastasio García López
Andrew Jackson Davis
Anna Blackwell
Arigó, Zé
Arthur Conan Doyle
Auto de Fé de Barcelona
Auto-obsessão.
Banner of Light
Baudin, Irmãs
Bem
Berthe Fropo
Blackwell, Anna
Boudet, Amélie Gabrielle
Cairbar Schutel
Canuto Abreu
Caridade
Carma
Caroline Baudin
Célina Japhet
Cepa Espírita
Charlatanismo
Charlatão
Chevreuil, Léon
Chico Xavier
Cirne, Leopoldo
Codificador Espírita
Comunicabilidade Espiritual
Conan Doyle, Arthur
Consolador
Crookes, William
Daniel Dunglas Home
Davis, Andrew Jackson
Denis, Léon
Dentu, Editora
Dentu, Édouard
Desencarnado
Deus
Didier, Pierre-Paul
Divaldo Pereira Franco
Dogma
Dogmatismo
Doutrina Espírita
Doyle, Arthur Conan
Dufaux, Ermance
Ectoplasma
Ectoplasmia
Ecumenismo
Editora Dentu
Édouard Dentu
Elementos Gerais do Universo
Emancipação da Alma
Encarnado
Epífise
Erasto
Ermance Dufaux
Errante
Erraticidade
Errático
Escala Espírita
Escrita Direta
Espiritismo
Espiritismo à Francesa: a derrocada do movimento espírita francês pós-Kardec
Espírito da Verdade
Espírito de Verdade
Espírito Errante
Espírito Santo
Espírito Verdade
Espiritual
Espiritualismo
Espiritualismo Moderno
Evangelho
Expiação
Faget, Laurent de
Fascinação
Fluido
Fora da Caridade não há salvação
Fox, Irmãs
Francisco Cândido Xavier
Franco, Anália
Franco, Divaldo Pereira
Fropo, Berthe
Galeria d’Orleans
Gama, Zilda
Glândula Pineal
Henri Sausse
Herculano Pires, José
Herege
Heresia
Hippolyte-Léon Denizard Rivail
Home, Daniel Dunglas
Humberto de Campos
Imortalidade da Alma
Inquisição
Irmão X
Irmãs Baudin
Irmãs Fox
Jackson Davis, Andrew
Japhet, Célina
Jean Meyer
Jean-Baptiste Roustaing
Joanna de Ângelis
Johann Heinrich Pestalozzi
José Arigó
José Herculano Pires
José Pedro de Freitas (Zé Arigó)
Julie Baudin
Kardec, Allan
Kardecismo
Kardecista
Karma
Lachâtre, Maurice
Lamennais
Laurent de Faget
Léon Chevreuil
Léon Denis
Leopoldo Cirne
Leymarie, Pierre-Gaëtan
Linda Gazzera
Livraria Dentu
London Dialectical Society
Madame Kardec
Mal
Maurice Lachâtre
Mediatriz
Médium
Mediunidade
Mesas Girantes
Metempsicose
Meyer, Jean
Misticismo
Místico
Moderno Espiritualismo
Necromancia
O Livro dos Espíritos
O Livro dos Médiuns
Obras Básicas do Espiritismo
Obsediado
Obsessão
Obsessor
Onipresença
Oração
Palais-Royal
Panteísmo
Paráclito
Parasitismo psíquico
Pélagie Baudin
Percepção extrassensorial
Pereira, Yvonne A.
Perispírito
Pestalozzi
Pierre-Gaëtan Leymarie
Pierre-Paul Didier
Pineal
Pires, José Herculano
Pneumatografia
Possessão
Prece
Pressentimento
Projeto Allan Kardec
Quiromancia
Religião
Revelação Espírita
Rivail, Hypolite-Léon Denizard
Roustaing, Jean-Baptiste
Santíssima Trindade
Santo Ofício
Sausse, Henri
Schutel, Cairbar
Sentido Espiritual
Sexto Sentido
Silvino Canuto Abreu
Sociedade Dialética de Londres
Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas
SPEE
Subjugação
Superstição
Terceira Revelação
Tribunal do Santo Ofício
Trindade Universal
Ubiquidade
UEF
União Espírita Francesa
Vampirismo
Verdade, Espírito
Videira Espírita
William Crookes
X, Irmão
Xavier, Chico
Xenoglossia
Yvonne do Amaral Pereira
Zé Arigó
Zilda Gama

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