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Índice de verbetes



Índice de verbetes
A Gênese
A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo
Abreu, Canuto
Adolphe Laurent de Faget
Agênere
Alexandre Aksakof
Allan Kardec
Alma
Alma gêmea
Amélie Gabrielle Boudet
Anastasio García López
Andrew Jackson Davis
Anna Blackwell
Arigó, Zé
Auto de Fé de Barcelona
Auto-obsessão.
Banner of Light
Baudin, Irmãs
Bem
Berthe Fropo
Blackwell, Anna
Boudet, Amélie Gabrielle
Cairbar Schutel
Canuto Abreu
Caridade
Carma
Caroline Baudin
Célina Japhet
Cepa espírita
Charlatanismo
Charlatão
Chevreuil, Léon
Chico Xavier
Cirne, Leopoldo
Codificador Espírita
Comunicabilidade Espiritual
Consolador
Crookes, William
Daniel Dunglas Home
Davis, Andrew Jackson
Denis, Léon
Dentu, Editora
Dentu, Édouard
Desencarnado
Deus
Didier, Pierre-Paul
Divaldo Pereira Franco
Dogma
Dogmatismo
Doutrina Espírita
Ectoplasma
Ectoplasmia
Ecumenismo
Editora Dentu
Édouard Dentu
Epífise
Errante
Erraticidade
Errático
Escrita Direta
Espiritismo
Espiritismo à Francesa: a derrocada do movimento espírita francês pós-Kardec
Espírito da Verdade
Espírito de Verdade
Espírito Errante
Espírito Santo
Espírito Verdade
Espiritual
Espiritualismo
Espiritualismo Moderno
Evangelho
Faget, Laurent de
Fascinação
Fora da Caridade não há salvação
Francisco Cândido Xavier
Franco, Divaldo Pereira
Fropo, Berthe
Galeria d'Orléans
Gama, Zilda
Glândula Pineal
Henri Sausse
Herculano Pires, José
Herege
Heresia
Hippolyte-Léon Denizard Rivail
Home, Daniel Dunglas
Humberto de Campos
Imortalidade da Alma
Inquisição
Irmão X
Irmãs Baudin
Jackson Davis, Andrew
Japhet, Célina
Joanna de Ângelis
Johann Heinrich Pestalozzi
José Arigó
José Herculano Pires
José Pedro de Freitas (Zé Arigó)
Julie Baudin
Kardec, Allan
Kardecismo
Karma
Lachâtre, Maurice
Lamennais
Laurent de Faget
Léon Chevreuil
Léon Denis
Leopoldo Cirne
Leymarie, Pierre-Gaëtan
Linda Gazzera
Livraria Dentu
London Dialectical Society
Madame Kardec
Mal
Maurice Lachâtre
Médium
Mediunidade
Metempsicose
Misticismo
Místico
Moderno Espiritualismo
Necromancia
O Livro dos Espíritos
Obras Básicas do Espiritismo
Obsediado
Obsessão
Obsessor
Oração
Palais-Royal
Paráclito
Parasitismo psíquico
Pélagie Baudin
Percepção extrassensorial
Pereira, Yvonne A.
Pestalozzi
Pierre-Gaëtan Leymarie
Pierre-Paul Didier
Pineal
Pneumatografia
Prece
Projeto Allan Kardec
Quiromancia
Religião
Revelação Espírita
Rivail, Hypolite-Léon Denizard
Santíssima Trindade
Santo Ofício
Sausse, Henri
Schutel, Cairbar
Sentido Espiritual
Sexto Sentido
Silvino Canuto Abreu
Sociedade Dialética de Londres
Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas
SPEE
Subjugação
Superstição
Terceira Revelação
Tribunal do Santo Ofício
Ubiquidade
UEF
União Espírita Francesa
Vampirismo
William Crookes
X, Irmão
Xavier, Chico
Xenoglossia
Yvonne do Amaral Pereira
Zé Arigó
Zilda Gama

Espiritismo



Espiritismo, ou Doutrina Espírita — também denominado Kardecismo — é uma doutrina caracterizada como filosofia espiritualista, sob o princípio da racionalidade, codificada por Allan Kardec, que a definiu como “a ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo espiritual”. Considera-se 18 de abril de 1857 o seu marco inaugural, com o lançamento de O Livro dos Espíritos. Também é chamado de Terceira Revelação e O Consolador Prometido, com referência a uma profecia evangélica. É ainda um desdobramento das ideias do Mesmerismo, ou Magnetismo Animal — que Kardec denominou "ciência irmã do Espiritismo" — e do Espiritualismo Moderno. Desenvolvendo-se no tríplice aspecto: científico, filosófico e religiosoa, a Doutrina Espírita tem como objetivo prático a promoção do aperfeiçoamento intelectual e moral da Humanidade, em cooperação com a espiritualidade, através da mediunidade. Seus praticantes são chamados de espíritas, ou espiritistas. A máxima kardequiana “Fora da Caridade não há salvação” é usada pelo Movimento Espírita como uma espécie de lema ou slogan espírita, representando a síntese da moral espírita.



Etimologia e aplicação

Espiritismo é a tradução do termo em francês spiritisme, cunhada a partir dos vocábulos latinos spirit (espírito) e isme (doutrina), resultando na definição literal “doutrina dos espíritos”. Trata-se, portanto, de um neologismo estabelecido por Allan Kardec para designar o sistema por ele codificado em acordo com as revelações espirituais.

“Para coisas novas é preciso palavras novas, como a clareza da linguagem assim o exige, para evitar a confusão inseparável dos múltiplos significados dos mesmos termos. As palavras: espiritual, espiritualista e espiritualismo têm uma acepção bem definida; dar a eles uma nova significação para aplicá-los à doutrina dos Espíritos seria multiplicar os casos já tão numerosos de anfibologia. De fato, o espiritualismo é o oposto do materialismo; quem acredita haver em si alguma coisa além da matéria é espiritualista; mas isso não quer dizer que ele creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em lugar das palavras ESPIRITUAL e ESPIRITUALISMO, nós usamos, para designar esta crença, os termos espírita e espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido da raiz da palavra, e que por isso mesmo tem a vantagem de serem perfeitamente compreensíveis, reservando ao vocábulo espiritualismo a significação que lhe é própria.”
Allan Kardec, O Livro dos Espíritos - Introdução ao estudo da Doutrina Espírita, item I

Apesar da preocupação com a justeza das significações, o próprio Allan Kardec às vezes vai aplicar esses seus novos termos estrategicamente em designações distintas: ora de forma generalizada, ora mais especificamente, relacionando-os exclusivamente à doutrina baseada na nova revelação por ele sistematizada. Por vezes, por exemplo, ele vai considerar como espiritismo toda e qualquer crença na existência e manifestação dos Espíritos e de outras vezes ele ressalta a distinção entre ambos (diferenciando o seu Espiritismo das demais doutrinas espiritualistas); por vezes ele equiparar o qualificativo espírita ao mesmo conceito de espiritual e noutras tantas vai reservar aquele seu adjetivo ao que se refere com exclusividade ao seu Espiritismo propriamente dito, a exemplo de quando, em certo momento, ele assim define:

“O Espiritismo só reconhece como adeptos os que põem em prática os seus ensinamentos, isto é, que trabalham a sua própria melhora moral, porque é o sinal característico do verdadeiro espírita. Ele não é responsável pelos atos daqueles a quem agrada dizer-se espíritas, mais do que a verdadeira ciência pelo charlatanismo dos escamoteadores, que se intitulam professores de física, nem a sã religião pelos abusos cometidos em seu nome.”
Revista Espírita - jan. 1869: 'O Espiritismo do ponto de vista católico'

Com efeito, não tardou e o emprego dos termos espiritismo e espírita acabou se generalizando e, de forma comum, sendo apropriados para se referirem a toda a fenomenologia espiritualista também para além dos círculos kardecistas.

Ver Espiritualismo Moderno.


Allan Kardec, codificador do Espiritismo


Como essa polissemia permanece até os dias de hoje, frequentemente se usa as expressões Espiritismo Kardecista ou Kardecismo para enfatizar a designação da Doutrina Espírita codificada por Kardec, fazendo assim a sua distinção em relação às demais crenças e filosofias espiritualistas. Porém, há quem tenha manifestado certa rejeição contra tais expressões, normalmente sob a alegação de que elas podem suscitar a ideia de que a Revelação Espírita fosse fruto pessoal de Allan Kardec.

Ver Kardecismo.

De forma categórica, compreendemos o Espiritismo como o conjunto dos fundamentos codificados por Allan Kardec e de todos os conceitos logicamente desenvolvidos em acordo com aqueles fundamentos. Nesse contexto, admitimos as definições Doutrina Espírita, Kardecismo e Doutrina Kardecista (ou suas variantes, como Kardeciana e Kardequiana etc.) como seus sinônimos. As demais concepções — ainda que sejam parcialmente concordantes com os fundamentos espíritas — classificam-se, portanto, como espiritualistas.

Compreendemos assim que as fontes elementares que deram origem a sua codificação básica foram os fenômenos espirituais, pelo que as manifestações de efeitos físicos ensejaram a parte científica da doutrina e as comunicações inteligentes serviram de base para o corpo filosófico e religioso, obedecendo a uma programação da espiritualidade em vista de promover a evolução da Humanidade. Diante disso, faz sentido o título “Doutrina dos Espíritos”, mas ao lado da contribuição dos seres espirituais (revelações do mundo espiritual), soma-se o trabalho também necessário dos encarnados, dando à doutrina um caráter progressista. Destarte, reconhecemos o mérito de Allan Kardec no monumental serviço de codificar a base doutrinária espírita, assim como o de seus continuadores, com os quais todos os espíritas são convidados a colaborar.

Ver Codificação Espírita.


Desenvolvimento histórico

Considera-se a data 18 de abril de 1857 o marco inicial do Espiritismo, quando da publicação de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, em Paris, França, contendo a síntese dos conceitos fundamentais da nova doutrina, frutos de cerca de dois anos de intenso estudo e pesquisa do autor acerca das questões espirituais e, em especial, da observação das manifestações mediúnicas e da sistematização das comunicações de Espíritos.

De fato, em meados daquele século XIX, uma onda de manifestações espirituais espalhou-se pelo mundo. Começando pelo caso das irmãs Fox, nos Estados Unidos da América, estabeleceu-se um movimento conhecido como mesas girantes, em que se realizavam sessões para evocar os ditos fenômenos sobrenaturais. Logo em seguida essa moda chega à Europa e se prolifera nos grandes centros urbanos a partir da década de 1850. As reuniões em geral visavam o entretenimento com os movimentos ditos sobrenaturais, em que móveis (mesas convencionalmente) se erguiam saltitavam, dançavam e produziam batidas e ruídos diversos — o que, por si só, já era uma forte evidência de uma força extra-humana inteligente, uma vez que respondia ao comando dos evocadores. Daí se concluiu a existência dos Espíritos e da faculdade que eles tinham para atuar no nosso mundo físico. Entretanto, além dos efeitos físicos, descobriu-se a possibilidade de se obter mensagens inteligentes das entidades espirituais, para a qual foram criados métodos de comunicação, a começar pela tiptologia (associação das letras do alfabeto a um determinado número de batidas) até que se desenvolvesse vias mediúnicas mais práticas, como a psicografia e a psicofonia.

Esses desdobramentos resultaram no movimento que ficou conhecido como Espiritualismo Moderno, quando as questões da espiritualidade voltaram a ficar em voga e ser tema de estudo, depois da reação materialista dos grandes centros acadêmicos, que comumente propunham a extinção de qualquer ideia espiritual e, por conseguinte, religiosa.

Ver Espiritualismo Moderno.

Dentre os estudiosos que foram atraídos pelas mesas girantes figurava o pedagogo francês Hippolyte-Léon Denizard Rivail. Inicialmente cético em relação àqueles fenômenos, ele propôs a si mesmo desvendar o mistério que provocou uma verdadeira febre em toda a gente. Porém, tendo participado de algumas sessões ao lado de pessoas estimadas e depois de averiguar todas as possibilidades de fraude ou ilusão, convenceu-se da veracidade das manifestações e da existência dos Espíritos. Desde então se dedicou completamente às pesquisas espíritas e mais adiante se inteirou da missão que lhe havia sido confiada, qual seja, a de sintetizar as novas revelações espirituais e publicá-las, codificando assim a base da nova doutrina, que ele denominou Espiritismo, quando publicou a sua obra básica — O Livro dos Espíritos — que ele assinou com o pseudônimo Allan Kardec.


O Livro dos Espíritos, marco inaugural da Doutrina Espírita


A positiva repercussão do livro inaugural fez surgir, tanto na França como no exterior, um crescente interesse pela nova doutrina, motivando Kardec a prosseguir ainda mais com suas pesquisas. Tal demanda o inspirou a lançar em 1 de janeiro de 1858 a Revista Espírita, publicação mensal subintitulada “Jornal de Estudos Psicológicos”. A extraordinária propagação do Espiritismo resultou na fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em 1 de abril de 1858, onde se realizavam experimentações mediúnicas e estudo de suas comunicações visando o desenvolvimento da doutrina. A exemplo desta, outras instituições foram fundadas em várias partes do mundo, com muitas das quais Kardec mantinha frequente intercâmbio.

Além de O Livro dos Espíritos e da Revista Espírita, Kardec deu prosseguimento à codificação do Espiritismo com novas publicações. Em 1859, ele escreveu O Que é o Espiritismo, uma breve síntese da doutrina; em 1861, foi lançado O Livro dos Médiuns, o “Guia dos médiuns e evocadores”; em 1864 veio a público O Evangelho segundo o Espiritismo; em 1865 foi a vez de O Céu e o Inferno, de cujo subtítulo “A Justiça Divina segundo o Espiritismo”; em 1868, publicou A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Após a desencarnação do codificador, uma coletânea de seus escritos pessoais e ensaios doutrinários inéditos foram copilados e publicados no livro Obras Póstumas em 1890 pela Sociedade Anônima, a entidade criada para dar continuação ao trabalho doutrinário de Kardec.

Ver Codificação Espírita.


Os fenômenos mediúnicos modernos

A partir do caso das irmãs Fox, verificou-se em meados do século XIX uma verdadeira onda de fenômenos espirituais em todo o mundo, descrita como uma “invasão organizada de Espíritos” no livro História do Espiritualismo de Arthur Conan Doyle. As primeiras manifestações mais comuns foram de ordem física, como batidas em móveis e paredes, transporte de objetos e levitação de corpos. Acreditava-se que esses fenômenos fossem manifestações diabólicas ou de Espíritos zombeteiros — caracterizando esses eventos como os de poltergeist. Particularidades de lado, descobriu-se uma coletividade de Espíritos querendo fazer-se notados, testemunhando a sobrevivência da alma pós-morte e a solidariedade entre a espiritualidade e o mundo físico.


As irmãs Fox: Leah, Kate e Maggie, precursoras do Espiritualismo Moderno


Logo mais foram desenvolvidos diversos meios de comunicação. No auge das mesas girantes, as entidades do além respondiam às perguntas dos evocadores através de um código, por exemplo, associando uma batida para “sim” e duas batidas para “não”, ou associando cada letra do alfabeto com um determinado número de batidas. O sistema de pancadas (tiptologia) foi depois substituído por outros meios (prancheta, tabuleiro etc.) até que com o passar do tempo as instrumentações físicas foram sendo deixadas de lado e os médiuns passaram a produzir mensagens mais diretamente, como pela escrita (psicografia) e incorporação de Espíritos (psicofonia).


Mesas Girantes e a febre do Espiritualismo Moderno


No desenrolar daquela singular fenomenologia, também se disseminaram outras variadas manifestações puramente de efeitos físicos, como levitação de objetos e — o mais notável de todos os fenômenos — de materialização de Espíritos ou de formas espirituais, pelo qual o médium libera uma substância gasosa (popularizada como ectoplasma) a fim de moldar corpos diversos.

Os fenômenos mediúnicos modernos começaram espontaneamente, revelando médiuns entre as pessoas de todos os gêneros, sem distinção de raça, classe social, grau de instrução, idade etc. Naturalmente a curiosidade popular levou as pessoas a se reunirem para sessões de evocação de Espíritos em ambientes familiares, salões privados e até em áreas públicas. Não tardou para que alguns médiuns passassem a explorar financeiramente suas capacidades mediúnicas apresentando-se em espetáculos nos teatros e casas de shows. Em consequência desse recurso material, surgiram os falsos médiuns, os charlatões e os ilusionistas, comprometendo a reputação dos verdadeiros médiuns e detratando a causa espiritual. Os médiuns mais notáveis daquela geração foram: Daniel Dunglas Home, Florence Cook, Elizabeth d'Espérance, Eusápia Palladino e Linda Gazzera.


Sessão mediúnica com um tabuleiro ouija


Repercussão

Desde o fim da Era Medieval, com o crescente progresso científico e uma maior liberdade de expressão, as ideias materialistas estavam bastante em voga, o repúdio às instituições religiosas era flagrante e tudo quanto dissesse respeito às questões espirituais era rechaçado com veemência. O século XVIII, chamado de “O século das Luzes”, também ficaria marcado como o século da incredulidade. No entanto, alguns movimentos de cunho científico e filosófico, baseados em certos eventos, vieram contrabalancear o curso das ideias e sedimentar a revolução espiritualista que viria logo adiante. Dentre esses movimentos, destacam-se:

  • Swedenborgianismo: uma igreja nova, fundada sob os princípios espirituais revelados através da mediunidade do polímata sueco Emanuel Swedenborg (1688-1772).
  • Mesmerismo (ou Magnetismo Animal): terapia criada pelo médico alemão Franz Anto Mesmer (1734-1815) a base de um fluido magnético.
  • Os transes do clarividente norte-americano Andrew Jackson Davis (1826-1910), que tiveram grande repercussão e suscitaram interessantes debates sobre o dito sobrenatural.
  • Espiritualismo Racional: movimento filosófico desenvolvido nas primeiras décadas do século XIX entre acadêmicos franceses, dentre os quais Royer-Collard, Victor Cousin, Jouffroy e Paul Janet, que propunham um estudo racional acerca das questões espirituais.
  • Espiritualismo Moderno (ou Neoespiritualismo): série de intensas manifestações ditas sobrenaturais, em meados do século XIX, também conhecida como fenômeno das Mesas Girantes, que acabou por despertar o interesse de Allan Kardec e, por conseguinte, na codificação do Espiritismo.

As religiões tradicionais contestaram o Espiritismo e o Espiritualismo Moderno, e por vezes — especialmente os católicos e protestantes — atentaram contra as ideias espíritas e a mediunidade em geral, por exemplo, sob o argumento de fraude, charlatanismo e satanismo. Um episódio histórico desse tipo de reação foi o célebre Auto de Fé de Barcelona, quando cerca de três centenas de livros espíritas foram confiscados pela Inquisição católica e queimados em praça pública em 9 de outubro de 1861 — evento esse que acabou por acirrar ainda mais o clamor popular contra o absolutismo da igreja e por despertar o seu interesse pela nova doutrina nas terras espanholas.


Representação grática de um Auto de Fé da Inquisição Católica


Os fenômenos mediúnicos modernos provocaram um alvoroço geral na comunidade científica que, a princípio, assistia à febre neoespiritualista com a preocupação de o misticismo embaraçar o progresso científico, através do apelo religiosista, e de a crença sobrepor a razão, tal como na Idade Média. Além disso, os frequentes flagrantes de embuste de pseudomédiuns afugentava o interesse de estudiosos sérios. Todavia, vários cientistas renomados se ocuparam em averiguar aqueles fenômenos e todos aqueles que melhor se aprofundaram nesse intento acabaram ratificando a veracidade das faculdades mediúnicas.

Dentre os grandes cientistas que diretamente estudaram os fenômenos no auge do Espiritualismo Moderno o mais proeminente foi o químico e físico inglês Sir William Crookes (1832-1919), respeitado presidente da Royal Society (a sociedade real de ciências da Inglaterra) e da British Association for the Advacement of Science (Associação Britânica pelo Avanço da Ciência). Crookes submeteu vários médiuns a experiências diversas, sob as mais rigorosas condições de averiguação científica e, apresentando o seu relatório final à academia, em 1874, declarou publicamente estar convencido da existência de uma força espiritual e inteligente, à qual a ciência se via obrigada a estudar. A academia arquivou o relatório do eminente cientista, votando por não se envolver oficialmente com tais fenômenos.


O físico Sir William Crookes averiguando a materialização do Espírito Katie King pela mediunidade de Florence Cook


Porém, o trabalho de Crookes inspirou outros ilustres homens da ciência que — quase sempre partindo da negação e do desejo de desmascarar os médiuns — igualmente validaram os fenômenos espirituais, dentre os quais, citamos: Oliver Lodge, Ernesto Bozzano, William James, Cesare Lombroso, Alexandre Aksakof, Alfred Russel Wallace e o Prêmio Nobel Charles Richet.

A partir dessa constatação, muitos pesquisadores procuraram desenvolver mecanismos que detectassem as forças ditas sobrenaturais. Das pesquisas de William Crookes, por exemplo, na tentativa de inventar um aparelho que medisse a capacidade mediúnica dos sensitivos, surgiram os raios catódicos, que mais tarde seriam usados nos tubos dos monitores de televisão e computadores. O fonógrafo de Thomas Edison seria outra invenção inspirada no desejo de registrar os fenômenos espirituais.

No século XX, o desenvolvimento das ideias espíritas na Europa foi bastante prejudicado pelas duas grandes guerras mundiais, que arrasaram o Velho Continente. Já nos Estados Unidos, as fortes tradições religiosas se opuseram à ideia reencarnacionista do Kardecismo, que não conseguiu fazer frente aos apelos convencionais daquela nação. Porém, além destas adversidades, o principal obstáculo para a continuidade do desenvolvimento do Espiritismo, tanto na Europa quanto na América, seria o descrédito na prática mediúnica em função do surgimento de doutrinas e movimentos ocultistas, místicos e esotéricos, especialmente a partir do começo do século XX, criando um sincretismo tal a ponto de ofuscar a promissora filosofia espírita.


Desembarque espírita no Brasil

Em contrapartida ao declínio do Movimento Espírita europeu, a Doutrina dos Espíritas veio a encontrar solo fértil no Brasil, tendo seus princípios motivado movimentos de reformulação religiosa e social, com forte articulação dos seus adeptos nas campanhas de abolição da escravidão e da proclamação da República. Mais adiante, surgiriam grandes personalidades espíritas, inclusive médiuns, que contribuiriam popularizar a doutrina e tornar o Brasil o maior país espírita do mundo na passagem do segundo para o terceiro milênio. Dentre esses eminentes nomes, destacamos: Bezerra de Menezes, Angeli Torteroli, Bittencourt Sampaio, Anália Franco, Eurípedes Barsanulfo, Peixotinho, Yvonne A. Pereira, Zé Arigó, José Herculano Pires, Divaldo Franco e, em especial, Francisco Cândido Xavier, conhecido como Chico Xavier — considerado por muitos o mais extraordinário médium espírita de todos os tempos e, através de sua mediunidade, o maior contribuinte doutrinário do Espiritismo após Allan Kardec.


Francisco Cândido Xavier, o mais extraordinário médium espírita de todos os tempos


Tríplice aspecto do Espiritismo: ciência, filosofia e religião

A Doutrina Espírita nasceu da observação das manifestações espirituais modernas, nos moldes de uma ciência comum, que observa as causas e efeitos dos fenômenos materiais. Como a fonte daquelas manifestações se revelou uma força viva e inteligente (os Espíritos), e que vinha a expressar informações e ensinamentos, a pesquisa deixou de ser meramente de ordem física e adentrou no campo filosófico, para especular então as consequências sociais daquela fenomenologia. Em razão de os ensinamentos espirituais constituírem uma moral fundamentada em elementos religiosos (Deus, oração, destinação da alma etc.), a nova doutrina também assumiu um aspecto religioso.

"O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que vêm dessas mesmas relações"
Allan Kardec, O Que é o Espiritismo - Preâmbulo
"O Espiritismo é uma doutrina filosófica de efeitos religiosos, como qualquer filosofia espiritualista, pelo que obrigatoriamente vai ter às bases fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma e a vida futura. Mas, não é uma religião constituída, visto que não tem culto, nem rito, nem templos e que, entre seus adeptos, nenhum tomou, nem recebeu o título de sacerdote ou de sumo sacerdote. Estes qualificativos são de pura invenção da crítica"
Allan Kardec, O Que é o Espiritismo - Ligeira resposta aos detratores do Espiritismo

Dizemos que o Espiritismo é também uma ciência em virtude de ser de seu escopo a investigação e o estudo acerca dos fenômenos espirituais, que afetam a nossa dimensão física, averiguando-os sob os princípios comuns dos métodos científicos tradicionais. Contudo, ele transcende as fronteiras das ciências convencionais, que se limitam ao horizonte das leis materiais. Não se trata, portanto, de uma ciência constituída, pois não se subordina a qualquer autoridade acadêmica, mas acompanha o progresso científico em acordo com o desenvolvimento natural das luzes, para o qual também contribui desvendando os mistérios da Natureza.

O Espiritismo também escapa dos modelos filosóficos tradicionais, pois que eles estes se sujeitam a condicionamentos de âmbito da nossa dimensão física. Ao considerar o elemento espiritual como parte da Natureza, a Doutrina Espírita estabelece um novo conceito de filosofia, de um campo de ideias mais alargadas, em que princípios como a imortalidade da alma e a reencarnação tornam-se instrumentos fundamentais para a compreensão e solução de todos os problemas humanos.

Os Espíritos colaboradores da codificação do Espiritismo deram testemunho de Deus — o Criador e Soberano do Universo — e das virtudes espirituais, especialmente a lei de amor, ou caridade; demonstraram claramente como nossos atos atuais implicam nas condições da vida futura, reconheceram a validade da prece, como canal íntimo de ligação de cada indivíduo com o ser divino e todas as forças positivas da espiritualidade. Em consequência disso, a Doutrina Espírita assumiu também o caráter religioso, uma vez que em seu código filosófico estão contidos certos efeitos religiosos, por exemplo a Lei de Adoração. Portanto, contém em si uma religião natural — a ligação intima e direta de cada indivíduo com o divino e com o todo universal. Entretanto, não é uma religião constituída, nem se fundamenta em dogmas místicos, não têm rituais ou cultos sacramentais, nem hierarquia sacerdotal, nem adota fórmulas litúrgicas ou símbolos sagrados. A cepa espírita — que costuma ser utilizada como emblema da doutrina — é uma representação gráfica da obra divina, inspirada pela espiritualidade, no entanto, sem qualquer caráter sacramental ou místico.


Cepa Espírita: representação gráfica da obra divina


Em suma, a Doutrina Espírita é uma ciência progressiva, que se alarga na medida em que a espiritualidade se revela e as capacidades humanas se qualificam para avançar na compreensão da Natureza, sempre em acordo com a lógica filosófica e à luz da razão. Entendemos que esse alargamento estão se dá não por exclusividade de uma só fonte reveladora e nem por intermédio de um só receptor, mas pela generalização dos fenômenos e pelo controle universal do ensino dos Espíritos.


Princípios doutrinários espíritas

Da observação dos fenômenos espirituais, da síntese das revelações dos Espíritos (filosoficamente ponderadas) e da moral comparada, Allan Kardec sistematizou os conceitos básicos do Espiritismo, fundamentando então uma doutrina específica, bem caracterizada, pelo que, o seu qualificativo (espírita) se distingue da generalidade daquele do espiritualismo comum (espiritualista). No entanto, em se tratando de uma doutrina progressiva, seus conceitos não são dogmatizados e estão todos submetidos ao seu próprio desenvolvimento — sempre em acordo com a fé raciocinada.

Os principais conceitos desenvolvidos pela codificação kardecista são:

Ver Conceitos Básicos do Espiritismo.


Obras Básicas e complementares

A codificação espírita parte das obras literária de Allan Kardec, dentre as quais destacam-se:

  • O Livro dos Espíritos (1857): contém os princípios fundamentais da Doutrina Espírita, além de uma breve introdução de sua origem e uma síntese do seu objetivo revolucionário: o progresso espiritual da Humanidade;
  • O Livro dos Médiuns, ou “Guia dos Médiuns e Evocadores” (1861): trata do caráter experimental da doutrina, tomando a mediunidade como instrumento de investigação e solidariedade entre a Humanidade e a espiritualidade;
  • O Evangelho segundo o Espiritismo (1864): desenvolve o aspecto moral e religioso da doutrina pela interpretação da essência cristã contida nos evangelhos bíblicos;
  • O Céu e o Inferno, ou “A Justiça Divina segundo o Espiritismo” (1865): compõe-se de reflexões filosóficas sobre a destinação do homem pós-morte comparando a sua fé raciocinada com teorias a respeito do céu, inferno, purgatório, limbo, penas eternas, anjos, demônios e justiça divina;
  • A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo (1868): trata de questões cientificas, como a criação e a organização do Universo, os milagres e a natureza espiritual, bem como de questões filosóficas, como as profecias acerca da renovação espiritual da Terra (transição planetária);
  • O Que é o Espiritismo (1859): resumo da conceituação e princípios fundamentais da doutrina.

Além de livros e opúsculos, Allan Kardec lançou a Revista Espírita, publicação mensal inaugurada em janeiro de 1859 e editada pelo codificador até a edição de abril de 1869, preparada pouco antes de sua desencarnação. Sob o subtítulo “Jornal de Estudos Psicológicos”, este periódico foi um importante veículo de desenvolvimento e propaganda da doutrina.


Obras Básicas de Allan Kardec para a Codificação Espírita


Ver Obras Básicas do Espiritismo.

Além da bibliografia kardecista, o desenvolvimento do Espiritismo é enriquecido com obras de outros autores espíritas e, indiretamente, de publicações diversas. A História do Espiritualismo, de Arthur Conan Doyle, que não é exatamente uma obra espírita, por exemplo, é considerada uma valiosa obra para a compreensão do contexto histórico da fenomenologia do século XIX que ensejou a fundação do Espiritismo. Entre os autores e psicógrafos espíritas, destacam-se vários trabalhos de personalidades bem reconhecidas como Léon Denis, Gabriel Delanne, José Herculano Pires, Yvonne A. Pereira e Chico Xavier. Especialmente falando da bibliografia deste último, alguns títulos ditados pelos Espíritos Emmanuel e André Luiz são apreciados como das maiores contribuições complementares para a literatura espírita.


O Consolador Prometido e a Terceira Revelação

O Espiritismo é por vezes chamado de O Consolador Prometido, em alusão à promessa de Jesus, segundo o Novo Testamento, que Deus enviaria o seu paráclito para instruir e consolar a Humanidade, estabelecendo assim a Terceira Revelação das leis divinas.

“O Espiritismo é a ciência nova que vem revelar aos homens a existência e a natureza do mundo espiritual e as suas relações com o mundo corpóreo, por meio de provas irrecusáveis. Ele nos mostra a espiritualidade, não mais como coisa sobrenatural, mas ao contrário, como uma das forças vivas e sempre atuantes da Natureza, como a fonte de uma imensidade de fenômenos até hoje incompreendidos e, por isso, jogados para o domínio do fantástico e do maravilhoso. É a essas relações que o Cristo menciona em muitas circunstâncias e daí vem que muito do que ele disse permaneceu incompreendido ou falsamente interpretado. O Espiritismo é a chave com o auxílio da qual tudo se explica de modo fácil.”
Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo- cap. I, item 5

Ver Consolador e Terceira Revelação.


Movimento Espírita

Denomina-se Movimento Espírita a prática comum do Espiritismo e o conjunto de atividades em prol do desenvolvimento desta sua doutrina realizado por aqueles que a estudam, professam, praticam e divulgam. Para tais fins, os centros espíritas e entidades associativas (como a Federação Espírita Brasileira) prestam-se a concentrar esforços no sentido de promover o estudo e a propagação dos princípios espíritas, visando o avanço espiritual da sociedade. Soma-se a essas organizações o desenvolvimento crescente da arte espírita (música, teatro, televisão e cinema).

No campo da divulgação do Espiritismo, a internet ocupa atualmente um lugar de destaque. A rede mundial de computadores tem contribuído significativamente para a democratização do conhecimento e para a aproximação e a interação entre os espíritas e demais interessados na doutrina, sendo o Portal Luz Espírita um dos pioneiros nessa devotada empreitada.

De certa forma, o Movimento Espírita se confunde com próprio Espiritismo, cujo futuro requer a cooperação dos seus adeptos, como asseverou o filósofo Léon Denis:

“O Espiritismo será o que os homens fizerem dele.”
No invisível, Léon Denis - 'Introdução'

Todavia, sendo de origem divina, o Espiritismo está fadada a triunfar, porque além da vontade dos homens encarnados está a sua condução espiritual:

“Quanto ao futuro do Espiritismo, como já sabemos, os Espíritos são unânimes em afirmar o seu triunfo próximo, não obstante os entraves que se opõem a ele; essa previsão é fácil para os Espíritos, primeiramente porque a sua propagação é obra pessoal deles: contribuindo para o movimento, ou dirigindo-o, eles sabem consequentemente o que devem fazer; em segundo lugar, basta-lhes entrever um período de curta duração, e nesse período eles veem ao longo do caminho os poderosos auxílios que Deus lhe suscita e que não tardarão para se manifestarem.”
A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, Allan Kardec - cap. XVIII, item 11


Espiritismo e atualidade

Indiretamente o Movimento Espírita se nutre do progresso natural das coisas, e mais notadamente do avanço mais recente das ciências e sua reabertura para questões relacionadas à espiritualidade. Concretamente, há atualmente renomados pesquisadores e conceituados centros de pesquisas científicas ao redor do mundo se debruçando sobre temas como sobrevivência da alma, reencarnação e múltiplas dimensões habitáveis, baseados em evidências objetivas tais como: fenômenos mediúnicos, Experiência de Quase-Morte - EQM, reminiscências de vidas passadas e transcomunicação instrumental - TCI.

A doutrina, contudo, continua a ser desdenhada e combatida por muitos incrédulos, ainda bastante influenciados pelo Materialismo, mas sua destinação, como sabemos, já está traçada e é ela o marco da Nova Era estabelecida para a humanidade:

“Os incrédulos vão rir dessas coisas e as qualificarão como quimeras; mas, digam o que disserem, não escaparão da lei comum; assim como os demais, eles cairão na sua hora, e então, o que lhes acontecerá? Eles dizem: Nada! No entanto, eles viverão mesmo a contragosto, e um dia serão forçados a abrir os olhos.”
A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, Allan Kardec - cap. XVIII, item 35


Referências

  • O Livro dos Espíritos, Allan Kardec - ebook.
  • O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec - ebook.
  • Obras Póstumas, Allan Kardec - ebook.
  • O que é o Espiritismo, Allan Kardec - ebook.
  • Conhecendo o Espiritismo, Louis Neilmoris - ebook.
  • Coleção completa da Revista Espírita, Allan Kardec.
  • Biografia de Allan Kardec, Henri Sausse - ebook.
  • Videodocumentário Roteiro Histórico Espírita em Paris, Luz Espírita, 2017 - YouTube.
  • História do Espiritualismo, Arthur Conan Doyle - ebook.
  • O Grande Enigma, Léon Denis - ebook.
  • No Invisível, Léon Denis - ebook.
  • Curso Dinâmico de Espiritismo, José Herculano Pires.
  • Doutrina Espírita para Principiantes, Luis Hu Rivas - ebook
  • Kardec, Marcel Souto Maior.
  • Em Nome de Kardec, Adriano Calsone.
  • Science and the Seance (A Ciência e as sessões espíritas), documentário da BBC em inglês) e versão traduzida em português.


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