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Índice de verbetes


O Livro dos Médiuns



O Livro dos Médiuns, cujo subtítulo é “Guia dos médiuns e dos evocadores”, do original em francês: Le Livre des Médiums ou guide des médiums et des évocateurs, escrito por Allan Kardec e originalmente publicado em Paris, em 15 de janeiro de 1861, é a segunda obra básica da chamada codificação do Espiritismo, constituindo-se o manual prático da mediunidade conforme os ensinamentos da Doutrina Espírita, definido como a sequência de O Livro dos Espíritos. Seu conteúdo foi revisado e sancionado pelos Espíritos mentores da Revelação Espírita, que também contribuíram com a composição da obra em diversos diálogos e dissertações, como complemento do desenvolvimento dos conceitos acerca dos vários temas nele estudados. Além de visar o esclarecimento individual, no sentido de fornecer instruções sobre como desenvolver, aperfeiçoar e aplicar as próprias faculdades mediúnicas, este livro objetiva ainda estimular o exercício prático e disciplinado do Espiritismo mediante orientações sobre a formação de grupos espíritas, partindo do modelo das atividades da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, da qual o livro reproduz o estatuto. O sucesso da publicação levou seu autor a empreender nove reimpressões, multiplicando-se após a desencarnação de Kardec, inclusive nas versões traduzidas para vários idiomas, refletindo sua aceitação e importância para o movimento espírita.


O Livro dos Médiuns, Allan Kardec



Sobre o título e sua epígrafe

O Livro dos Médiuns ou Guia dos Médiuns e dos Evocadores traz na sua folha de rosto a designação do gênero do seu conteúdo: “Espiritismo experimental”, como sequência natural da obra inaugura do Espiritismo: O Livro dos Espíritos, que é classificado como “Filosofia Espiritualista”. Enquanto o primeiro livro cuida da teoria doutrinária, explicando os conceitos fundamentais da nova doutrina, o livro seguinte cuida do lado prático, ou seja, da mediunidade aplicada conforme as instruções dos Espíritos superiores.

À visto disso é que a folha de rosto também traz a seguinte epígrafe:

CONTENDO O ENSINAMENTO ESPECIAL DOS ESPÍRITOS SOBRE A TEORIA DE TODOS OS GÊNEROS DE MANIFESTAÇÕES, OS MEIOS DE SE COMUNICAR COM O MUNDO INVISÍVEL, O DESENVOLVIMENTO DA MEDIUNIDADE, AS DIFICULDADES E OS PERIGOS QUE SE PODE ENCONTRAR NA PRÁTICA DO ESPIRITISMO


Contexto histórico do lançamento

A primeira razão de ser de O Livro dos Médiuns está no fundamento da comunicabilidade espiritual; por haver Espíritos e por eles poderem interagir no nosso ambiente físico, justifica-se o estudo sério e sistematizado desse intercâmbio. Com efeito, o surto de mediunidade que acometeu os grandes centros urbanos do século XIX — uma verdadeira “invasão organizada de Espíritos”, na interpretação de Arthur Conan Doyle — resultou na febre das Mesas Girantes e no movimento chamado de Espiritualismo Moderno, que foram os precursores da Doutrina Espírita, inaugurada com o lançamento de O Livro dos Espíritos de Allan Kardec, em 18 de abril de 1857. Com o crescente interesse popular em relação aos fenômenos mediúnicos e com a boa aceitação da obra kardequiana, surgiu uma grande demanda para uma obra que fornecesse orientações práticas e seguras sobre como o exercício mediúnico.

Embora na primeira edição de O Livro dos Espíritos já constasse um capítulo com uma breve apresentação dos fenômenos mediúnicos — “Manifestações dos Espíritos”, capítulo X do Livro Primeiro — a importância e complexidade do tema requeria novos e mais profundos desenvolvimentos, tanto é que seu autor já anunciava no Epílogo daquela primeira obra que um suplemento a respeito desse tema seria publicado em breve. Esta futura obra viria também para acompanhar as pesquisas subsequentes efetuadas por Allan Kardec, que, para tanto, acabou fundando um centro apropriado e regularmente instituído sob o título de Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, então formalizada em 1 de janeiro de abril de 1858. Além das experiências pessoais na SPEE, Kardec também se valeria da correspondência com outros tantos estudiosos espíritas e grupos mediúnicos, no interior da França e no exterior, que logo reconheceram nele a liderança do movimento espírita, especialmente depois do lançamento da Revista Espírita em 1 de janeiro daquele mesmo ano de 1858.

Portanto, o manual prático da mediunidade já estava amadurecendo.


Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas

A partir daquele resumo do capítulo X, o codificador espírita elaborou uma exposição mais detalhada sobre o assunto e a publicou em forma de opúsculo, já no ano de 1858, sob o título Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas (no original, em francês: Instruction Pratique sur les Manifestations Spirites). Em sua Introdução, o autor explica o porquê daquela composição:

“Muitas pessoas nos pediram para lhes indicar as condições que devem ser preenchidas e a maneira de se conduzirem para ser um médium. A solução dessa questão é mais complexa do que parece à primeira vista, porque repousa sobre conhecimentos preliminares de certa extensão.”
Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas, Allan Kardec - Introdução



Exemplar original de Instrução Prática, Allan Kardec


O opúsculo foi um sucesso, esgotando-se rapidamente. Consequentemente, vieram os apelos por uma nova reimpressão; contudo, ao invés de reeditar o opúsculo, o mestre espírita anuncia na Revista Espírita sua deliberação a respeito:

“Lembramos aos leitores que a obra Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas está esgotada e será substituída por outra, bem mais completa, sob o título de O Espiritismo Experimental, que está no prelo e aparecerá em dezembro próximo.”
Revista Espírita - novembro, 1860


Ou seja, estava por vir algo ainda mais bem elaborado, mais completo e atualizado sobre as experiencias mediúnicas.


Lançamento e repercussão

Como parte da estratégia de elaboração da codificação espírita, visando tratar dos assuntos principais em obras específicas, quando Allan Kardec já estava trabalhando na edição atualizada de O Livro dos Espíritos, ele então suprimiu aquele capítulo “Manifestações dos Espíritos”, justamente para melhor destinar o estudo da mediunidade para uma obra especial. De fato, ao publicar a edição revisada do primeiro livro espírita, em 1860, ele inseriu nela numa nota justificando esta providência:

“O ensinamento relativo às manifestações propriamente ditas e aos médiuns forma uma espécie de parte distinta da filosofia, e que deve ser objeto de um estudo especial. Já que essa parte recebeu os mais consideráveis desenvolvimentos como resultado da experiência adquira, pensamos que deveríamos fazê-la num volume diferente, contendo as respostas dadas sobre todas as questões referentes às manifestações e aos médiuns, bem como numerosas observações sobre o Espiritismo prático; essa obra (nota: que já está sendo impressa) formará a sequência, ou seja, o complemento de O LIVRO DOS ESPÍRITOS.”


Exemplar original de O Livro dos Médiuns, Allan Kardec


Finalmente, a referida obra complementar — que Kardec pensou inicialmente nomear como “Espiritismo Experimental” e que estava programada para ser lançada no finalzinho daquele ano de 1860 — acabou ficando para o ano seguinte, recebendo o nome que conhecemos: O Livro dos Médiuns, subintitulada “Guia dos Médiuns e dos Evocadores”; seu anúncio foi feito no fascículo de janeiro de 1861 da Revista Espírita, que a previu disponível à venda ao público entre os dias 5 e 10 daquele mês, mas que foi oficialmente veio à lume no dia 15, simultaneamente na livraria do seu editor, Pierre-Paul Didier, e no escritório do autor, na famosa Passagem 59 da Rua Sainte-Anne. Descrevendo o processo de composição daquele novo trabalho, expressou-se assim:

“Fruto de longa experiência e de laboriosos estudos, nesse trabalho procuramos esclarecer todas as questões que se ligam à prática das manifestações. De acordo com os Espíritos, contém a explicação teórica dos diversos fenômenos, bem como das condições em que os mesmos se podem reproduzir. Não obstante, sobretudo a matéria relativa ao desenvolvimento e ao exercício da mediunidade mereceu de nossa parte uma atenção toda especial.”
Revista Espírita - janeiro, 1861: ‘O Livro dos Médiuns’


A tiragem foi de 2 mil exemplares — o que era muito para os padrões da época, devido aos altos custos de produção.

O primeiro efeito deste lançamento foi, obviamente, a multiplicação de grupos interessados em pesquisas espíritas, como Kardec assinalou na sua revista, edição do mês seguinte ao daquele lançamento (artigo ‘Escassez de médiuns’). Foi um sucesso, claro! Tanto que em março seguinte já se pensava numa reimpressão, uma vez que vinham pedidos de toda parte, como Kardec anotou: “da Rússia, da Alemanha, da Itália, da Inglaterra, da Espanha, dos Estados Unidos, do México, do Brasil, etc.” (artigo ‘O homenzinho ainda vive’). A reedição viria em novembro daquele mesmo 1861.

Uma boa métrica para a repercussão do livro é a correspondência recebida pelo autor, da qual podemos destacar a carta de um conde italiano, datada de 2 de março de 1861, donde extraímos o seguinte:

“Há cerca de quatro anos ocupo-me aqui das manifestações espíritas e tenho a felicidade de contar na família com um bom médium, que nos dá comunicações de ordem superior. Temos lido e relido vosso O Livro dos Espíritos, que nos proporciona alegria e consolação, dando-nos as mais sublimes e admissíveis noções da vida futura. Se desta pudesse duvidar, as provas que tenho agora são mais que suficientes para consolidar a minha fé. Perdi pessoas que me eram muito caras e tenho a inapreciável felicidade de saber que elas são felizes e posso corresponder-me com elas. Dizer da alegria que por isso experimentei é inexprimível. [...] Todavia, faltava-nos um guia seguro para a prática. Se não temesse importunar-vos, desde muito já vos teria pedido conselhos da vossa experiência. Felizmente vosso O Livro dos Médiuns veio preencher essa lacuna, e agora marchamos a passo mais firme, pois estamos prevenidos contra os escolhos que se podem encontrar.”
Revista Espírita - março, 1861: ‘Correspondência’


Reedições da obra

Com a rápida vendagem da primeira tiragem e os pedidos fervilhando, uma reimpressão fazia-se urgente. Todavia, como os estudos e pesquisas não paravam, o autor julgou por bem reeditar o conteúdo original para acrescentar novos desenvolvimentos, formatando assim uma edição substancialmente aumentada, conforme ele mesmo anuncia na sua revista referente ao mês de novembro de 1861:

“Esta segunda edição é muito mais completa que a precedente; contém numerosas e importantes instruções e vários capítulos novos. Toda a parte que concerne mais especialmente aos médiuns, à identidade dos Espíritos, à obsessão, às questões que podem ser dirigidas aos Espíritos, às contradições, aos meios de discernir os Espíritos bons dos maus, à formação de reuniões espíritas, às fraudes em matéria de Espiritismo, recebeu notáveis desenvolvimentos, frutos da experiência. No capítulo das dissertações espíritas adicionamos várias comunicações apócrifas, acompanhadas de observações pertinentes, de modo a facultar os meios de descobrir o embuste dos Espíritos enganadores, que se apresentam com falsos nomes.”
Revista Espírita, novembro, 1861: ‘Bibliografia: O Livro dos Médiuns - 2ª edição’


No mesmo artigo, Kardec aditou que sua obra foi submetida à apreciação dos amigos espirituais, que a revisaram inteiramente e ajudaram com “numerosas observações do mais alto interesse”, de maneira que se poderia dizer que a autoria do livro era tanto de Kardec quanto dos Espíritos. E ele completa dizendo:

“Recomendamos com insistência esta nova edição, como o guia mais completo — tanto para os médiuns quanto para os simples observadores. Podemos afirmar que, seguindo-a pontualmente, evitar-se-ão os perigos tão numerosos, contra os quais se vão chocar principiantes inexperientes. Depois de tê-la lido e meditado atentamente, os que forem enganados ou mistificados certamente somente poderão culpar a si mesmos, porque tiveram todos os meios para se esclarecerem.”

A edição revisada foi anunciada já na Revista Espírita de dezembro de 1861, mas é bem provável que tenha sido lançada só em janeiro do ano seguinte, já que a folha de rosto da nova edição assinala o ano de 1862.

Até a sua desencarnação em 31 de março de 1869, Kardec reeditou O Livro dos Médiuns até a 10ª edição, somando um total de 16 mil impressões dessa obra. Convém observarmos que, embora cada reimpressão fosse registrada como uma nova edição e que cada nova edição fosse renumerada, o conteúdo do livro permaneceu o mesmo daquela revisão feita na 2ª edição, constituindo assim o texto definitivo da obra.

“Foi identificado, na análise comparativa, que a 2a edição é o texto definitivo, que contém 71% da edição original, com um conteúdo ordenado de forma mais metódica, refletindo a habilidade de Kardec como escritor na atualização das edições, ao aproveitar parcialmente ou mesmo excluir trechos bem elaborados, sem apego à ideia inicial.”
O Livro dos Médiuns: origem dos textos e evolução da obra, Luciana Farias e Luís Jorge Lira Neto


Processo de elaboração

A base do Guia dos Médiuns e dos Evocadores vem das obras precedentes: do capítulo X (“Manifestações dos Espíritos”) da edição original de O Livro dos Espíritos, do opúsculo Instrução Prática e de vários artigos da Revista Espírita (de 1858 a 1860); estima-se que aí temos um terço de O Livro dos Médiuns; o restante é oriundo de desenvolvimentos novos do seu autor.


Allan Kardec


O laboratório de Kardec para a sua pesquisa mediúnica foi principalmente a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas (SPEE), fundada e presidida por ele; depois, as sessões particulares com inúmeros médiuns, além da correspondência com grupos espíritas de todas as partes do mundo, que muitas vezes acabavam sendo publicadas na Revista Espírita, ocasião em frequentemente Kardec citava o médium (ou pelo menos as iniciais do seu nome) dando-nos a conhecê-los, já que seus nomes são omitidos nos livros.

Com isso, sabemos de alguns médiuns que emprestaram suas faculdades psíquicas para a composição do livro em questão: Alis d’Ambel, Sra. Costel, Sr. Darcol, Sr. Roze), Sra. Schmidt e a Sra. Schutz, Possivelmente, as médiuns Srta. Huet e Srta. Japhet também deve ter alguma participação nas comunicações aproveitadas na obra.

Dos Espíritos colaboradores, os mais atuantes foram são Luís (patrono da SPEE) e Erasto (discípulo de são Paulo). Também são reproduzidas comunicações assinadas por: O Espírito de Verdade, santo Agostinho, são Bento, são Vicente de Paulo, Joana d'Arc, Fénelon, Pascal, Jean-Jacques Rousseau, Chateaubriand (François-René, Visconde de Chateaubriand), Delfina de Girardin, Pierre Jouty, Pierre François Mathieu, William Ellery Channing, Jorge (Louis Henri Georgè) (Espírito familiar) e Massillon (Jean-Baptiste Massillon). Além destes Espíritos, é dada como certa a autoria do Cristo numa determinada comunicação, pelo teor e pela linguagem aplicada na dissertação, mas cuja assinatura foi omitida por Kardec, pelas razões seguintes:

“Esta comunicação, obtida por um dos melhores médiuns da sociedade espírita de Paris, foi assinada com um nome que o respeito não nos permite reproduzir senão com todas as precauções, tal seria a insigne graça da sua autenticidade, e porque muitas vezes se tem abusado desse nome em comunicações evidentemente falsas; esse nome é o de Jesus de Nazaré. Nós não duvidamos de modo algum que ele possa se manifestar, mas se os Espíritos verdadeiramente superiores não se manifestam a não ser em circunstâncias excepcionais, a razão nos proíbe de acreditar que o Espírito puro por excelência responda ao chamado do primeiro que apareça. Em todo caso, haveria profanação em lhe atribuir uma linguagem que não fosse digna dele.”
O Livro dos Médiuns, Allan Kardec - 2ª parte, cap. XXX, dissertação IX


Interessante observar que em O Evangelho segundo o Espiritismo, também de Allan Kardec, encontramos no capítulo VI, item 5, uma comunicação intitulada “Advento do Espírito de Verdade” semelhante a esta referida dissertação, salvo algumas pequenas modificações, e desta vez assinada por O Espírito de Verdade, então recebida em Paris e datada de 1860. Essa reprodução endossa a ideia de que Kardec continuou acreditando na autenticidade desta mensagem atribuída a Jesus de Nazaré, e ainda reforça a tese de que o próprio Cristo seja a entidade que normalmente assina como Espírito de Verdade (ou simplesmente Espírito Verdade), já que a referida mensagem reproduzida neste outro livro recebeu tal assinatura.


Estrutura da obra

Embora se dedique principalmente aos temas ligados à prática mediúnica, O Livro dos Médiuns é, em suma, uma obra doutrinária do Espiritismo, em complemento a O Livro dos Espíritos; portanto, também envolve questões doutrinárias em geral, especialmente conceitos morais (por exemplo, a forma correta de usar os recursos medianímicos). Com relação aos temas mais específicos, basicamente ele objetiva:

  • Instruir a mediunidade individual, ensinando a desenvolver as faculdades da alma emancipada, para aqueles que desejam ser médiuns e em quem haja as condições orgânicas necessárias, bem como, orientando a aplicação segura e útil dos dons medianímicos, para aqueles que já têm as faculdades mediúnicas mais ou menos desenvolvidas;
  • Instruir o diálogo com os Espíritos, para os evocadores e dirigentes das sessões, que vão se servir dos médiuns para os trabalhos mediúnicos, orientando-os sobre como lidar com os Espíritos, o que lhes perguntar, como ajudar os que estiverem necessitando de socorro espiritual etc.;
  • Organizar as entidades espíritas, desde a fundação, a formalização das normas de conduta institucional, a disciplina das reuniões etc.

A obra é estruturada da seguinte forma: Introdução, 1ª parte: Noções preliminares e 2ª parte: Manifestações espíritas. Vejamos a síntese de cada uma dessas três seções:

  • Introdução: faz a apresentação da obra, descrevendo a motivação de sua publicação: “Um desejo muito natural, entre os que se ocupam com o espiritismo, é o de poder entrar em comunicação com os Espíritos; é para lhes aplainar o caminho que esta obra está destinada, fazendo-os tirar proveito do fruto dos nossos longos e laboriosos estudos, pois disso faria uma ideia muito falsa se alguém pensasse que, para ser especialista nessa matéria, bastasse saber colocar os dedos sobre uma mesa para fazê-la se mover, ou pegar um lápis para escrever.” Aqui também o autor explica outras deliberações tomadas para sua publicação, por exemplo, a descontinuação do livreto Instrução Prática, a supressão do capítulo sobre a Escala Espírita e a redução dos termos do Vocabulário Espírita, a partir da edição revisada (2ª edição, 1862);

  • 1ª parte: Noções preliminares: antes de cuidar das questões práticas da mediunidade, Kardec desenvolve em quatro capítulos algumas questões filosóficas referentes ao tema, por exemplo: a realidade existencial dos Espíritos (cap. I) e a naturalidade de suas manifestações no nosso mundo, rompendo em absoluto com qualquer ideia de sobrenatural e misticismo (cap. II), além de explicar a metodologia utilizada no trato com os fenômenos, valendo-se dos princípios comuns das ciências e valorizando o estudo teórico antes do exercício das faculdades psíquicas, donde dirá: “O estudo prévio da teoria tem outra vantagem: mostrar imediatamente a grandeza do objetivo e o alcance dessa ciência. Aquele que começa vendo uma mesa girar ou bater fica mais inclinado ao divertimento, pois dificilmente imaginará que de uma mesa possa sair uma doutrina regeneradora da humanidade” (cap. III). E então refuta as teorias de seu tempo que teimavam em negar ou subverter o entendimento sobre as manifestações mediúnicas (cap. IV);

  • 2ª parte: Manifestações Espíritas: finalmente o autor se debruça sobre os fatos, explicando o processo dos mais variados tipos de fenômenos (cap. I), dividindo-os didaticamente entre manifestações de efeitos físicos (cap. II) e de efeitos inteligentes (cap. III), destacando os seus principais gêneros, por exemplo: manifestações visuais (cap. VI), de tiptologia (cap. XI), de pneumatologia (cap. XII) e — as mais requeridas — de psicografia (XIII). Também estuda detalhadamente o papel dos médiuns, suas variadas faculdades mediúnicas (cap. XIV), suas responsabilidades no exercício do seu mediunato (cap. XIX e XX) e inclusive orienta como desenvolver e disciplinar os dons mediúnicos (cap. XVII). Kardec não deixa de falar dos inconvenientes possíveis da mediunidade, enfatizando o problema das obsessões a que os médiuns descuidados estão fortemente sujeitos (cap. XXIII). Depois instrui sobre como identificar os Espíritos (cap. XXIV), como efetuar as evocações (cap. XXV) e como dialogar com os Espíritos (cap. XXVI), alertando ainda sobre o grave problema das mistificações e fraudes (cap. XXVII e XXVIII). Fornece valiosas instruções sobre como organizar os grupos mediúnicos (cap. XXIX), tomando como base a SPEE, da qual reproduz o regulamento, a título de exemplo para as demais (cap. XXX). Nos capítulos finais, ele transcreve importantes dissertações que ratificam os conceitos contidos na obra e, finalmente, oferece um pequeno dicionário explicando a terminologia ali utilizada.

Na dissertação “O Livro dos Médiuns: origem dos textos e evolução da obra”, os estudiosos espíritas Luciana Farias e Luís Jorge Lira Neto apresentam uma interessante ideia sobre estruturação do livro em destaque, dividindo-o em cinco segmentos básicos:

“A partir da observação do índice da 1ª edição, constata-se que o conteúdo foi agrupado em 5 segmentos que revelam a estrutura didática usada pelo autor para explicar o fenômeno mediúnico e as condições para sua prática, quais sejam, (i) as Condições Necessárias, para se conhecer o fenômeno, (ii) Os seres comunicantes, os Espíritos e suas Manifestações, (iii) os seres intermediários, Os Médiuns e sua capacidade de produzir fenômenos, (iv) os espaços de experimentação dos fenômenos, as Reuniões e Sociedades e, (v) exemplos de comunicações, Dissertações Espíritas.”
O Livro dos Médiuns: origem dos textos e evolução da obra, Luciana Farias e Luís Jorge Lira Neto


Traduções

Esta obra foi traduzida para diversos idiomas, com destaque para a versão espanhola de 1872, lançada pela Sociedad Barcelonesa Propagadora del Espiritismo (El Libro de los Médiums), e a versão inglesa de 1876, traduzida por Anna Blackwell (The Medium’s Book). A sua primeira edição no vernáculo português é datada de 1875 e foi traduzida a partir da 12ª edição francesa por Joaquim Carlos Travassos, que adotou o pseudônimo de Fortúnio, e foi publicada por intermédio da Editora B. L. Garnier.

Outras importantes traduções brasileiras foram empreendidas por Guillon Ribeiro (por muito tempo adotada a tradução oficial da Federação Espírita Brasileira), Salvador Gentile, José Herculano Pires, Evandro Noleto Bezerra. A adaptação subintitulada Numa Linguagem Simplificada, de Louis Neilmoris, propôs uma versão para um contexto linguístico mais moderno e de maior alcance popular.

Por padrão, mas não por exclusivismo, o Portal Luz Espírita adota e distribui livremente uma edição própria, traduzida por Ery Lopes, edição essa que dispensa os direitos autorais.


Curiosidades

  • Esta obra trata principalmente de duas potências naturais que, embora muitas vezes sejam colocadas como sinônimos, apresentam uma distinção básica necessariamente aplicável em determinadas circunstâncias: medianimidade e mediunidade. No capítulo Vocabulário Espírita, Kardec descreve “Medianimidade” da seguinte forma: “Faculdade dos médiuns. Sinônimo de mediunidade. Estas duas palavras muitas vezes são empregadas indiferentemente; se quiséssemos fazer uma distinção, poderíamos dizer que mediunidade tem um sentido mais amplo e medianimidade um sentido mais restrito.” E quando vem a vez do vocábulo “Mediunidade”, ele remete o leitor à “Medianimidade”, porque a definição seria a mesma, sendo aplicada ao vocábulo que aparece primeiro, seguindo a ordem alfabética.

    Uma circunstância necessária em que se faz distinção dessas duas potências é quando se define medianimidade como sendo uma capacidade própria da alma (änima) do encarnado em estado de emancipação da alma e, por outro lado, mediunidade é definida como uma capacidade de interação da alma emancipada (do médium) com um Espírito, que então utiliza este médium como seu instrumento de manifestação. Nesse sentido, Kardec vai pegar o sonâmbulo com exemplo de medianimidade, ao dizer que: “O sonambulismo pode ser considerado uma variedade da faculdade medianímica [...] O sonâmbulo age sob a influência do seu próprio Espírito; é sua alma que nos momentos de emancipação vê, ouve e percebe além dos limites dos sentidos; o que ele expressa ele tira de si mesmo [...] O médium, ao contrário, é o instrumento de uma inteligência exterior; é passivo, e o que diz não vem de si. Em resumo, o sonâmbulo exprime o seu próprio pensamento e o médium exprime o pensamento de outrem.” (2ª parte, cap. XIV, item 172). Esta definição kardequiana para medianimidade é a que posteriormente estudiosos como Alexandre Aksakof vão adotar para o termo Animismo.


  • Em Instrução Prática, em vez do termo medianimidade o autor usou mediatriz, correspondente ao original mediatrice em francês.

  • O Livro dos Médiuns apresenta um quadro didático classificando os diversos tipos de médiuns, de acordo com as suas capacidades mediúnicas; a propósito disso, o Espírito de Sócrates vai dizer que, ao lado da tabela da Escala Espírita, temos aí um resumo ilustrativo da doutrina kardecista:

    “Este quadro é de uma grande importância [...] Ele deverá estar constantemente sob os olhos de todo aquele que se ocupa com as manifestações, do mesmo modo que a escala espírita, da qual ele é o complemento; esses dois quadros resumem todos os princípios da doutrina, e contribuirão — mais do que vocês imaginam — para reconduzir o espiritismo ao verdadeiro caminho.”
    Sócrates, O Livro dos Médiuns - 2ª parte, cap. XVI, item 197


    Aliás, constava na primeira versão do livro um capítulo sobre a Escala Espírita (cap. VI da 1ª parte), sendo suprimido na edição revisada porque — conforme explica Kardec na Introdução da 2ª edição — esta escala podia ser encontrada em O Livros dos Espíritos, do qual o Guia dos Médiuns é o complemento.


  • Na edição revisada, o Vocabulário Espírita foi substancialmente enxugado: de 90 páginas com 162 verbetes para 3 páginas e 25 verbetes, sendo 3 novos; além disso, ele foi transportado para o final da 2ª parte da obra. Quanto a isso, o autor justifica na Introdução: “Suprimimos ainda do vocabulário o que não se refere propriamente a esta obra (...). Esse vocabulário, aliás, não está completo (...). Conservamos nesta obra, tão somente, as palavras novas ou específicas, relativas ao assunto de que nos ocupamos.”


Legado doutrinário

Sendo a medianimidade o principal instrumento de estudo e pesquisa da Doutrina Espírita, e sendo o médium uma parte crucial do que poderíamos chamar de mão de obra do Espiritismo experimental, então O Livro dos Médiuns assume um papel essencial para o desenvolvimento da doutrina kardecista e para uma melhor experiencia para o diálogo com os Espíritos, visando o progresso espiritual de todos. Não obstante essa objetivação primordial muito específica — tratar da mediunidade — é preciso enxergar essa obra também como um desenvolvimento doutrinário mais generalizado, que por vezes abrange diversos outros conceitos do Espiritismo, justificando a definição kardequiana de que este trabalho constitui a continuação de O Livro dos Espíritos.

O grande filósofo espírita José Herculano Pires, na explicação para a sua tradução deste livro editada pela LAKE, exprime suas impressões quanto à importância de O Livro dos Médiuns para humanidade:

“O leitor deve encarar este livro, portanto, como um tratado superior de fenomenologia paranormal, em que a fase metapsíquica e parapsicológica de pesquisa material estão superadas. O Livro dos Médiuns apresenta a solução dos problemas em que ainda se enredam as pesquisas atuais e convida os estudiosos a avançarem além. Mas tudo isso com critério e métodos científicos, segundo o próprio Richet o reconheceu ao se referir a Kardec no Tratado de Metapsíquica.”
O Livro dos Médiuns - edição da LAKE.


Links


Veja também


Referências

  • Revista Espírita, Allan Kardec: coleção 1860 - Ebook; coleção 1861 - Ebook; coleção 1862 - Ebook
  • A História do Espiritualismo, Arthur Conan Doyle - Ebook.
  • As Edições de O Livro dos Espíritos, Obras de Kardec - Ebook.
  • Instruction Pratique sur les Manifestations Spirites, Allan Kardec - Google Books.
  • “O Livro dos Médiuns: origem dos textos e evolução da obra”, de Luciana Farias e Luís Jorge Lira Neto, em 160 anos de O livro dos Médiuns, CCDPE-ECM, ENLIPHE - Amazon.
  • “Tradutores históricos de O Livro dos Espíritos”, de Antônio César Perri de Carvalho, na revista Reformador, janeiro de 2015 - Acervo online Reformador.
  • El Libro de los Médiums (em espanhol), Allan Kardec. Editado pela Sociedade Barcelonesa propagadora do Espiritismo - BDCYL.
  • The Medium’s Book (em inglês), Allan Kardec. Traduzido por Anna Blackwell - Internet Archive.


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Índice de verbetes
A Gênese
A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo
Abreu, Canuto
Adolphe Laurent de Faget
Agênere
Alexandre Aksakof
Allan Kardec
Alma
Alma gêmea
Amélie Gabrielle Boudet
Anastasio García López
Andrew Jackson Davis
Anna Blackwell
Arigó, Zé
Arthur Conan Doyle
Auto de Fé de Barcelona
Auto-obsessão.
Banner of Light
Baudin, Irmãs
Bem
Berthe Fropo
Blackwell, Anna
Boudet, Amélie Gabrielle
Cairbar Schutel
Canuto Abreu
Caridade
Carma
Caroline Baudin
Célina Japhet
Cepa Espírita
Charlatanismo
Charlatão
Chevreuil, Léon
Chico Xavier
Cirne, Leopoldo
Codificador Espírita
Comunicabilidade Espiritual
Conan Doyle, Arthur
Consolador
Crookes, William
Daniel Dunglas Home
Davis, Andrew Jackson
Denis, Léon
Dentu, Editora
Dentu, Édouard
Desencarnado
Deus
Didier, Pierre-Paul
Divaldo Pereira Franco
Dogma
Dogmatismo
Doutrina Espírita
Doyle, Arthur Conan
Dufaux, Ermance
Ectoplasma
Ectoplasmia
Ecumenismo
Editora Dentu
Édouard Dentu
Epífise
Ermance Dufaux
Errante
Erraticidade
Errático
Escala Espírita
Escrita Direta
Espiritismo
Espiritismo à Francesa: a derrocada do movimento espírita francês pós-Kardec
Espírito da Verdade
Espírito de Verdade
Espírito Errante
Espírito Santo
Espírito Verdade
Espiritual
Espiritualismo
Espiritualismo Moderno
Evangelho
Expiação
Faget, Laurent de
Fascinação
Fora da Caridade não há salvação
Fox, Irmãs
Francisco Cândido Xavier
Franco, Divaldo Pereira
Fropo, Berthe
Galeria d'Orléans
Gama, Zilda
Glândula Pineal
Henri Sausse
Herculano Pires, José
Herege
Heresia
Hippolyte-Léon Denizard Rivail
Home, Daniel Dunglas
Humberto de Campos
Imortalidade da Alma
Inquisição
Irmão X
Irmãs Baudin
Irmãs Fox
Jackson Davis, Andrew
Japhet, Célina
Jean Meyer
Jean-Baptiste Roustaing
Joanna de Ângelis
Johann Heinrich Pestalozzi
José Arigó
José Herculano Pires
José Pedro de Freitas (Zé Arigó)
Julie Baudin
Kardec, Allan
Kardecismo
Kardecista
Karma
Lachâtre, Maurice
Lamennais
Laurent de Faget
Léon Chevreuil
Léon Denis
Leopoldo Cirne
Leymarie, Pierre-Gaëtan
Linda Gazzera
Livraria Dentu
London Dialectical Society
Madame Kardec
Mal
Maurice Lachâtre
Médium
Mediunidade
Mesas Girantes
Metempsicose
Meyer, Jean
Misticismo
Místico
Moderno Espiritualismo
Necromancia
O Livro dos Espíritos
O Livro dos Médiuns
Obras Básicas do Espiritismo
Obsediado
Obsessão
Obsessor
Oração
Palais-Royal
Panteísmo
Paráclito
Parasitismo psíquico
Pélagie Baudin
Percepção extrassensorial
Pereira, Yvonne A.
Pestalozzi
Pierre-Gaëtan Leymarie
Pierre-Paul Didier
Pineal
Pires, José Herculano
Pneumatografia
Possessão
Prece
Pressentimento
Projeto Allan Kardec
Quiromancia
Religião
Revelação Espírita
Rivail, Hypolite-Léon Denizard
Roustaing, Jean-Baptiste
Santíssima Trindade
Santo Ofício
Sausse, Henri
Schutel, Cairbar
Sentido Espiritual
Sexto Sentido
Silvino Canuto Abreu
Sociedade Dialética de Londres
Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas
SPEE
Subjugação
Superstição
Terceira Revelação
Tribunal do Santo Ofício
Trindade Universal
Ubiquidade
UEF
União Espírita Francesa
Vampirismo
Verdade, Espírito
Videira Espírita
William Crookes
X, Irmão
Xavier, Chico
Xenoglossia
Yvonne do Amaral Pereira
Zé Arigó
Zilda Gama

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