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Índice de verbetes


Expiação



Expiação é um processo, dentro da lei natural de Deus, ao qual os Espíritos em evolução (portanto, imperfeitos) são submetidos com o objetivo de reparar seus erros através de circunstâncias que lhes permitam sofrer semelhantes consequências que outrora eles causaram, para que compreendam os efeitos nocivos de suas imperfeições e reeduquem suas disposições, ao mesmo tempo em que possam reparar os danos a quem tenham prejudicado. O processo expiatório consiste em um dos três principais propósitos das reencarnações, ao lado das provações e missões. As punições desse gênero são basicamente morais, para os desencarnados, e físicas, para os encarnados. Sua aplicação sempre é temporária e proporcional ao erro cometido e à necessidade da conscientização acerca das consequências do ato causal. Em Espiritismo, o caráter de expiação se difere fundamentalmente do conceito comum das tradições religiosas convencionais, que a consideram essencialmente um castigo divino puramente para fazer sofrer o infrator da lei, enquanto na Doutrina Espírita predomina o caráter didático, de refazimento moral e evolução espiritual.



Etimologia

O termo expiação vem do latim expiatìo ou expiatiónis, transliterado do hebraico כִּפּוּר (quipur), ligando-se diretamente à tradição judaico-cristã fundamentada na Bíblia, cuja essência é o necessário castigo àquele que infringir a lei divina ou as normas eclesiásticas (as determinações religiosas). Nesse contexto, essa retaliação tem por finalidade primordial demonstrar o poder e a autoridade de Deus e dos sacerdotes consagrados sobre os fiéis.

Segundo o Dicionário Houaiss, expiação tem quatro conotações básicas: 1) purificação de crimes ou faltas cometidas; 2) meio usado para expiar(-se); penitência, castigo, cumprimento de pena; sofrimento compensatório de culpa; 3) (em religião) no Antigo Testamento, uma classe de contrições que consistia em sacrifícios expiatórios, e cuja finalidade era a de reparar os pecados; 4) (em termo jurídico) cumprimento da pena imposta à pessoa a quem se imputou a prática de um crime. Portanto, todas as significações convergem no sentido de que expiar é pagar pelos erros cometidos.


Expiação nas diversas tradições

Entre muitos povos, os infortúnios comuns da vida são geralmente expiações divinas impostas aos pecadores individuais ou a uma determinada coletividade (família, tribo, cidade ou nação inteira) mediante seu mau comportamento. Dentre as punições possíveis, considera-se os reveses financeiros, doenças, abandono e até a morte de um indivíduo; para uma expiação coletiva, considera-se a ocorrência de tragédias naturais como seca, inundações, terremotos, pragas etc. Nessa concepção vulgar, admite-se a divindade — ou os diversos deuses, nas crenças politeístas — com características humanas (antropomorfismo), por exemplo, o temperamento de vingança.

Nas tradições orientais (notadamente no hinduísmo, budismo, jainismo, siquismo e no taoismo), em que a crença em Deus não é comum, o processo expiatório é definido pela ideia do carma (ou karma) como sendo uma lei natural que estabelece uma consequência direta entre uma determinada ação e seus efeitos mediante um princípio moral, consequência essa de natureza boa ou má conforme a qualidade das ações que desencadearam os efeitos.


Expiação nas tradições religiosas

Além de considerar as expiações naturais impostas pela divindade, muitas tradições religiosas também se concedem o direito de impor sentenças contra aqueles a quem julgam infratores de seus preceitos. Para tal fins, o judaísmo adotou a lei do talião (“Olho por olho, dente por dente”); o cristianismo medieval instituiu o Tribunal da Santa Inquisição, que impunha tortura e por vezes a pena capital; nas igrejas modernas, considera-se suspensão de sacramentos e, nos casos mais extremos, a excomunhão dos ditos hereges.


Sacrifícios expiatórios

Desde a mais remota Antiguidade, determinadas crenças desenvolveram diversos rituais litúrgicos para “aplacar a ira dos deuses” e converter a expiação dos pecados por meio de oferendas e de sacrifícios exteriores.

Conforme os textos dos Levíticos, o terceiro livro do Antigo Testamento, a antiga tradição judaica exigia que todo sacerdote e sua casa oferecesse um novilho em sacrifício pelo pecado. Em seguida, eram tomados dois bodes, e um deles seria enviado para o deserto como emissário, no intuito de “levar embora” o pecado do povo. O outro bode era sacrificado e seu sangue aspergido no propiciatório, cobrindo o pecado do povo. Desse costume, originou-se a expressão — ainda hoje muito popular — “bode expiatório” para designar metaforicamente algo ou alguém (principalmente) sobre o qual se faz recair a culpa ou qualquer problema de outrem. Os hebreus então instituíram a celebração anual, até hoje conservada, denominada Iom Quipur, isto é, Dia da Expiação ou Dia do Perdão, realizada no décimo dia de Tishrei, o primeiro mês do calendário hebraico.

Os católicos e grande parte dos cristãos protestantes tomam a crucificação de Jesus narrada nos Evangelhos bíblicos, como simbologia de um novo sacrifício expiatório em favor da coletividade humana, pelo que o Cristo assume a figura do “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” — fazendo menção ao pecado original de Adão e Eva, do qual o restante da humanidade teria herdado parte da culpa; para estes cristãos, a imolação do Messias era necessária para a reconciliação da humanidade com Deus através do sacrifício de seu filho na cruz.

Quanto aos pecados individuais, a igreja católica prega o “sacramento da reconciliação”, mediante o arrependimento e a confissão dos pecados a um sacerdote, que por sua vez aplica a penitência (por exemplo, a reza de um rosário) para então, sendo cumprida a penitência proferida pelo sacerdote, propiciar a remissão absoluta do referido pecado. As igrejas reformistas em geral não seguem a prática da confissão, mas pregam a crença na absolvição completa do fiel que se arrepender e suplicar a Deus pelo seu perdão.


Expiação segundo o Espiritismo

A definição espírita de expiação encontra-se expressamente formatada na obra Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas, publicada por Allan Kardec em 1858, nos seguintes termos:

Expiação - castigo que os Espíritos sofrem em punição pelas faltas cometidas durante a vida corporal. A expiação, como sofrimento moral, ocorre no estado errante; como sofrimento físico, ela ocorre no estado corporal. As vicissitudes e as tormentas da vida corporal são ao mesmo tempo provações para o futuro e uma expiação para o passado.”
Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas, Allan Kardec - ‘Vocabulário espírita’

A expiação é, portanto, um instrumento natural necessário para o cumprimento da lei de progresso espiritual e da lei de justiça, amor e caridade. Como os Espíritos são criados em estado de simplicidade e estão destinados a progredir até o estado de perfeição, eles então passam pelas mais diversas vivências a fim de desenvolverem sabedoria e todas as demais virtudes. Nesse ínterim, eles estão sujeitos às más paixões e outras tantas faltas perante as leis divinas, caindo assim em culpas mais ou menos graves de acordo com o seu grau de consciência e livre-arbítrio; com isso, a expiação é aplicada a título de reeducação, colocando por meio das reencarnações o culpado numa situação semelhante ao contexto que lhe causou a culpa, porém desta vez na posição inversa, experimentando a condição de quem foi prejudicado pelo mesmo ato do qual outrora o expiante foi o algoz, agora sentido os efeitos do mal resultante das imperfeições e a carência de evoluir moralmente.

Um dos exemplos de aplicação da expiação é a inversão da condição social:

Um homem pertencente a uma raça civilizada poderia, por expiação, estar reencarnado numa raça selvagem?
“Poderia sim, mas isso depende do gênero da expiação. Um senhor que tenha sido duro para seus escravos poderá, por sua vez, tornar-se escravo e sofrer os maus tratos que ele tenha infligido. Aquele que em certa época exerceu o comando pode, numa nova existência, ter que obedecer àqueles mesmos que curvaram sob a sua vontade. Isso será uma expiação, que Deus pode lhe impor, se aquele senhor tiver abusado do seu poder. Um bom Espírito também pode escolher uma existência influente entre essas raças, para fazê-las progredir, e isso então seria uma missão.”
O Livro dos Espíritos, Allan Kardec - questão 273

A expiação também pode ser aplicada com relação à mediunidade: Espíritos podem ser proibidos de se comunicarem e os médiuns podem ter seus dotes mediúnicos suspensos ou extinguidos caso não façam bom uso deste recurso:

Os médiuns podem perder a sua faculdade?
“Isso acontece às vezes, qualquer que seja o gênero dessa faculdade; mas também, frequentemente não passa de uma interrupção momentânea, que cessa junto com a causa que a produziu.”
O Livro dos Médiuns, Allan Kardec - 2ª parte, item 220

Segundo a codificação kardequiana, a morte prematura é outro caso exemplar de expiação — seja para o Espírito da criança que falece, seja para seus pais (O Livro dos Espíritos, questão 199).

Espíritos recalcitrantes no mal e que não acompanham o progresso geral de um determinado planeta, como expiação, podem sofrer o exílio, sendo transferidos para mundos inferiores (A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, cap. XVIII).

Podem ser expiações igualmente o prolongamento da erraticidade (O Livro dos Espíritos, questão 224-b) e a reencarnação compulsória:

Quando o Espírito desfruta do seu livre-arbítrio, a escolha da existência corporal dependerá sempre exclusivamente de sua vontade, ou essa existência bem pode lhe ser imposta pela vontade de Deus, como expiação?
“Deus sabe esperar, não apressa a expiação. Todavia, Deus pode impor uma existência a um Espírito, quando este — pela sua inferioridade ou má vontade — não está apto a compreender o que poderia lhe ser mais proveitoso, e quando vê que tal existência pode servir para a purificação e o avanço do Espírito, ao mesmo tempo em que ele encontre nela uma expiação.”
O Livro dos Espíritos - questão 262-a

E mais: Espíritos criminosos podem ser constrangidos a permanecer no local do ato praticado como punição, para que “constantemente tenham esse crime diante dos olhos” (O Livro dos Médiuns - 2ª parte, cap. IX, item 132, questão 9); noutros casos, o instrumento da expiação pode ser o campo aberto para a obsessão (Idem - 2ª parte, cap. XXIII, item 252); há, inclusive, os mundos especialmente voltados para processos expiatórios:

“Há Espíritos que jamais podem se comunicar; são aqueles que, por sua natureza, ainda pertencem aos mundos inferiores à Terra. Muito menos os que estão nas esferas de punição, a menos que com uma permissão superior, que não é concedida a não ser para uma utilidade geral.”
O Livro dos Médiuns - 2ª parte, cap. XXV, itemz 282, perg. 3ª


Mecanismo expiatório

Uma peça-chave para se compreender a expiação e tudo o mais relacionado à justiça divina é o mecanismo expiatório — ou seja, como a devida punição chega exatamente ao indivíduo merecedor: Deus criaria algum mal ou inspiraria os Espíritos a fazerem algo ruim contra aquele que devesse sofrer uma expiação?

Nesse particular, diz a Revelação Espírita que cada encarnado tem um anjo guardião encarregado de lhe inspirar o bem, fortalecê-lo nas provações e lhe proteger de determinados perigos — desde nascimento à morte, e por vezes até na erraticidade. E além dos anjos protetores individuais, sabemos que há os Espíritos que dirigem as coletividades, de modo que assim se estabelece um controle espiritual sobre os acontecimentos em geral. Nos mundos mais evoluídos, seus habitantes desfrutam de uma maior liberdade de ação, em razão de seu avançado grau de consciência; nas dimensões menos adiantadas, onde moram seres ainda muito imperfeitos e inconsequentes, esse controle é necessariamente mais rígido, tanto que, no caso da nossa Terra — planeta ainda com traços de mundos expiatórios —, a influência dos Espíritos é bem incisiva: “a influência deles é maior do que vocês imaginam, pois frequentemente são eles que vos dirigem.” (O Livro dos Espíritos - questão 459)

Desta maneira, quando necessário para a instrução ou expiação de seu tutelado, seu anjo protetor pode se afastar temporariamente, deixando-o à mercê da própria sorte e, sem esta proteção especial, o indivíduo fica sujeito às circunstâncias do ambiente. Sua vulnerabilidade é maior nos mundos primitivos e nos mundos de expiação e de provas (como é o caso da Terra) em que, o tempo todo, a cada esquina há um potencial malfeitor. Logo, nem Deus nem os bons Espíritos precisam — nem poderiam jamais, já que são bons — provocar o mal ou inspirar que outros o façam: o mal está iminente entre os seres imperfeitos, que então se infligem reciprocamente o processo de punição pelos seus erros.


Negação das penas eternas

O Espiritismo rebate prontamente as penas eternas. A ideia de um julgamento fatal após uma única existência carnal a determinar a destinação eterna da alma pós-morte é incompatível com os atributos naturais da divindade, sobretudo os de bondade e de justiça, pois as mais diferentes condições de existência na Terra implicam numa sorte desproporcional para os indivíduos alcançarem a salvação e, nestas condições, denotariam a imparcialidade do Criador perante seus filhos.

“No Pai-Nosso Jesus nos ensina a dizer ‘Perdoa, Senhor, as nossas faltas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores’. Pois se o culpado não devesse esperar algum perdão, inútil seria pedi-lo. Mas esse perdão é incondicional? É uma remissão pura e simples da pena em que se incorre? Não; a medida desse perdão subordina-se ao modo pelo qual se tenha perdoado, o que equivale dizer que não seremos perdoados desde que não perdoemos.
“Deus, fazendo do esquecimento das ofensas uma condição absoluta, não podia exigir do homem fraco o que Ele — o Onipotente — não fizesse.
“O Pai-Nosso é um protesto cotidiano contra a eterna vingança de Deus.”
O Céu e o Inferno, Allan Kardec - 1ª parte, cap. VI, item 6

Por sua vez, o mecanismo expiatório estabelecido por Deus permite a redenção de todas as faltas e justifica o Espiritismo em sua negação absoluta da ideia das penas eternas:

“[...] não há faltas imperdoáveis que não possam ser apagadas pela expiação. O homem encontra o meio nas diferentes existências que lhe permite avançar, conforme seu desejo e seus esforços, na via do progresso à perfeição, que é o seu objetivo final.”
O Livro dos Espíritos - ‘Introdução’, item VI


Reencarnação e expiação

As sucessivas reencarnações têm como fundamento a expiação e o melhoramento da humanidade através das provas e missões (O Livro dos Espíritos, questão 167). Na medida em que desenvolve consciência, os Espíritos participam do seu planejamento reencarnatório e então definem determinadas circunstâncias que venham a lhes proporcionar as aquisições que necessitam para avançar na senda do progresso espiritual.

O que orienta o Espírito na escolha das provações que ele queira sofrer?
“Ele escolhe aquelas que podem ser para ele uma expiação, pela natureza das suas faltas, e o faz avançar mais depressa. Uns podem, portanto, impor a si mesmos uma vida de misérias e privações para tentar suportá-las com coragem; outros preferem experimentar as tentações da fortuna e da autoridade, muito mais perigosas, pelos abusos e má aplicação a que se pode fazer delas, e pelas más paixões que essas tentações desenvolvem; outros, enfim, querem ser testados pelas lutas que terão de sustentar em contato com o vício.”
O Livro dos Espíritos - questão 264

Logo, todo o processo reencarnacionista se desenvolve dentro de uma organização sábia e justa, de modo a propiciar muitas vezes que numa mesma experiência carnal o reencarnante possa se submeter a diversas situações de expiação e ao mesmo tempo passar por outras provações e até executar determinadas missões, de maneira que todas as vicissitudes da vida sejam explicadas e postas em conforme com a sabedoria, bondade e justiça divina, mostrando assim a harmonia do Universo no curso das coisas.

“Mediante as diversas existências corpóreas é que pouco a pouco os Espíritos vão se expungindo de suas imperfeições. As provações da vida os fazem adiantar-se, quando bem suportadas. Como expiações, elas apagam as faltas e purificam. São o remédio que limpa as chagas e cura o doente. Quanto mais grave é o mal, tanto mais enérgico deve ser o remédio. Logo, aquele que sofre muito deve reconhecer que muito tinha a expiar e deve alegrar-se com a ideia da sua próxima cura. Dele depende tornar proveitoso o seu sofrimento, pela paciência, e não lhe estragar o fruto com as suas iras, visto que, do contrário, terá de recomeçar.”
O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec - cap. V, item 10

O mecanismo expiatório também dá sustentação à justiça das aflições prometida por Jesus em sua máxima “Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados; bem-aventurados os que anseiam por justiça, pois serão saciados.” (Mateus, 5:4 e 10): enquanto a sociedade terrena é muito imperfeita para premiar todas as boas ações e para punir as más ações, a justiça divina é infalível: nenhuma falta lhe escapa e, por outro lado, nenhum bom esforço fica sem recompensa:

“A alma ou Espírito sofre na vida espiritual as consequências de todas as imperfeições que não conseguiu corrigir na vida corporal. O seu estado — feliz ou desgraçado — acompanha o seu grau de pureza ou impureza.
“[...] Não há uma única imperfeição da alma que não importe terríveis e inevitáveis consequências, como não há uma só qualidade boa que não seja fonte de um prazer. Assim, a soma das penas é proporcionada à soma das imperfeições, como a dos gozos à das qualidades.”
O Céu e o Inferno - 1ª parte, cap. VII


Expiação e arrependimento

O peso e a duração da expiação são proporcionais ao refazimento consciencial do Espírito culpado. Desde que ele compreende o mal que fez, reconhece sua culpa e se arrepende sinceramente, ele pode contar com a misericórdia divina. Normalmente esse arrependimento se dá na vida espiritual, quando sua visão alargada lhe permite enxergar melhor as consequências, mas pode começar ainda durante a encarnação:

Que é a consequência do arrependimento no estado corporal?
“Avançar já desde a vida atual, se tiver tempo de reparar suas faltas. Quando a consciência faz uma reprovação e mostra uma imperfeição, a pessoa sempre pode se melhorar.”
O Livro dos Espíritos - questão 992

Porém, o arrependimento não exime o Espírito da necessidade de expiar o passado, para reparar seus erros perante aqueles a quem prejudicou. Por outro lado, essa conscientização o fortalece no cumprimento dos seus deveres e o faz sofrer menos. Mas se ele se endurecer no mal, sua expiação será ainda mais longa e dolorosa:

“Embora seja o primeiro passo para a regeneração, o arrependimento não basta por si só; são necessárias a expiação e a reparação. Desse modo, arrependimento, expiação e reparação são as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências. O arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo o caminho da reabilitação pela esperança; contudo, só a reparação pode anular o efeito destruindo a sua causa. Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma anulação.”
O Céu e o Inferno - 1ª parte, cap. VII


Terra: mundos de expiação e de provas

Os incontáveis mundos habitados são de diferentes níveis de progresso e neles reencarnam os Espíritos mais ou menos de uma mesma faixa evolutiva. De maneira didática, esses orbes são divididos em cinco classificações: 1) mundos primitivos; 2) mundos de expiação e de provas; 3) mundos de regeneração; 4) mundos ditosos; e 5) mundos celestes ou divinos.

Segundo a Revelação Espírita, a Terra está na segunda classe, em fase de transição para a terceira. Conservando ainda muitos traços característicos de um mundo de expiações e de provas, nosso planeta oferece aos seus habitantes duras condições de sobrevivência física e tormentos psicológicos por conta da companhia de Espíritos bastante imperfeitos — muitos dos quais estão na infância da vida espiritual e, portanto, não vieram aqui necessariamente por expiação, mas para se desenvolverem pelo contato com Espíritos mais adiantados; outros, no entanto, são daqueles que foram exilados de outros mundos e cá expiam seus erros:

“Os Espíritos em expiação — se podemos exprimir dessa forma — são exóticos, na Terra; já viveram noutros mundos, donde foram excluídos, em consequência da sua rebeldia no mal e por se haverem constituído causa de perturbação para os bons em tais mundos. Tiveram de ser banidos para o meio de Espíritos mais atrasados por algum tempo, com a missão de fazer que estes últimos avançassem, pois que levam consigo inteligências desenvolvidas e a semente dos conhecimentos que adquiriram. Daí vem que os Espíritos em punição se encontram no seio das raças mais inteligentes. Por isso mesmo, para essas raças é que de mais amargor se revestem os infortúnios da vida. É que há nelas mais sensibilidade, sendo, portanto, mais provadas pelas contrariedades e desgostos do que as raças primitivas, cujo senso moral se acha mais embotado.
“Os Espíritos em expiação — se podemos exprimir dessa forma — são exóticos, na Terra; já viveram noutros mundos, donde foram excluídos, em consequência da sua rebeldia no mal e por se haverem constituído causa de perturbação para os bons em tais mundos. Tiveram de ser banidos para o meio de Espíritos mais atrasados por algum tempo, com a missão de fazer que estes últimos avançassem, pois que levam consigo inteligências desenvolvidas e a semente dos conhecimentos que adquiriram. Daí vem que os Espíritos em punição se encontram no seio das raças mais inteligentes. Por isso mesmo, para essas raças é que de mais amargor se revestem os infortúnios da vida. É que há nelas mais sensibilidade, sendo, portanto, mais provadas pelas contrariedades e desgostos do que as raças primitivas, cujo senso moral se acha mais embotado.
“Como consequência, a Terra oferece um dos tipos de mundos expiatórios, cuja variedade é infinita, mas revelando todos, como caráter comum, o fato de servirem de lugar de exílio para Espíritos rebeldes à lei de Deus. Esses Espíritos têm aí de lutar ao mesmo tempo com a perversidade dos homens e com a inclemência da Natureza — duplo e árduo trabalho que simultaneamente desenvolve as qualidades do coração e as da inteligência. É assim que Deus, em sua bondade, faz que o próprio castigo resulte em proveito do progresso do Espírito.”
O Evangelho segundo o Espiritismo - cap. III, itens 13 e 14

Todavia, como os mundos também progridem, a Terra se encaminha para a Era de Regeneração, quando será habitada pela nova geração, fundada em um sentimento e disposições morais daqueles que bem expiaram suas más paixões e sentimentos instintivos degradantes (egoísmo, orgulho, inveja, ciúme, materialismo etc.):

“São esses os vícios dos quais a Terra deve ser expurgada pelo afastamento daqueles que recusam em se melhorar, porque estes são incompatíveis com o reino da fraternidade, e que os homens de bem sofreriam sempre em contato com eles. Quando a Terra estiver livre deles, os homens caminharão sem entraves para o futuro melhor que está reservado para eles, já neste mundo mesmo, como prêmio pelos seus esforços e pela sua perseverança, esperando que uma depuração ainda mais completa abra para eles o acesso aos mundos superiores.”
A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, Allan Kardec - cap. XVIII, item 28


Expiação na literatura espírita comum

A definição espírita de expiação foi bem interpretada pelos grandes autores kardecistas. O filósofo León Denis, por exemplo, frequentemente ressalta a necessidade de resgatarmos um passado culposo e de fazermos desse conceito uma lição de vida compartilhada, num processo de reeducação mútua e que venha a ter efeitos práticos em todos os sentidos na nossa existência — pessoal e social —, como lemos na passagem adiante:

“O essencial seria, portanto, ensinar antes a todos os homens de onde eles vêm e para onde vão, ou seja, qual é o verdadeiro propósito da vida e do destino. Só então aparecerá em todo o seu brilho e em todas as suas consequências sociais, essa imensa solidariedade que une os seres em todos os degraus de sua ascensão, obrigando-os, para seu próprio bem, a retornar à Terra e aos outros mundos nas condições mais diversas, a fim de adquirir com isso as qualidades inerentes a esses ambientes e, muitas vezes também, resgatar aí um passado culposo.”
Socialismo e Espiritismo, Léon Denis - cap. I

O Espírito Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, frisa a condição de missionários de muitos reencarnantes diante de seus sofrimentos e que, portanto, não podemos confundi-los com expiações:

“À vista disso, não te habitues a medir as dores alheias pelo critério de expiação, porque, quase sempre, almas heroicas que suportam o fogo constante das grandes dores morais, no sacrifício do lar ou nas lutas do povo, apenas obedecem aos impulsos do bem excelso, a fim de que a negação do homem seja bafejada pela esperança de Deus.”
Religião dos Espíritos, (Emmanuel) Chico Xavier - cap. 24: ‘Reencarnação’

André Luiz, pelo médium Waldo Vieira, faz o seguinte alerta: “Sexo desvirtuado, caminho de expiação.” (Conduta Espírita, cap. 1: ‘Da mulher’).

Fazendo um apanhado de sua vida e obra, a notável médium espírita Yvonne A. Pereira, demonstrando uma elevada compreensão do próprio processo expiatório, vai confessar aos seus leitores:

“[...] ingressando na vida terrena para uma encarnação expiatória, eu deveria, com efeito, morrer para mim mesma, renunciando ao mundo e às suas atrações, para ressuscitar o meu espírito, morto no pecado, através do respeito às leis de Deus e do cumprimento do dever, outrora vilipendiado pelo meu livre arbítrio.”
Recordações da Mediunidade, Yvonne A. Pereira - cap. 2

Joanna de Ângelis, mentora espiritual do médium Divaldo Franco, exorta-nos a uma das mais sublimes de nossas tarefas no terreno carnal:

“Quando, na constelação familiar exista algum exemplo de expiação, deve-se torná-lo preciosa lição de vida, não apenas para o padecente, mas para todos os membros, que se deverão unir, a fim de atenuar os sofrimentos daquele que se encontra necessitado de ajuda. Essa providência desenvolve em todos a coragem e o respeito à vida, eliminando temores e diluindo ilusões em torno da matéria, principalmente quanto à sua fragilidade.”
Constelação Familiar, (Joanna de Ângelis) Divaldo Franco - cap. 20

E finalmente, retornando à codificação espírita, ressaltamos a mensagem do apóstolo Paulo:

“Gravitar para a unidade divina: esta é a meta da humanidade. Para alcançá-la, três coisas são necessárias: justiça, amor e ciência; três coisas são opostas e contrárias a isso: ignorância, ódio e injustiça [...]
“Quem é, de fato, o culpado? É aquele que, por um desvio, por um falso movimento da alma, se afasta do objetivo da criação — que consiste no culto harmonioso do belo, do bem, idealizados pelo exemplo humano, pelo Homem-Deus, por Jesus Cristo. O que é o castigo? A consequência natural, derivada desse falso movimento; uma soma de dores necessárias para fazê-lo desgostar da sua deformidade, pela experimentação do seu sofrimento. O castigo é o aguilhão que excita a alma, pela amargura, a se curvar sobre si mesma e retornar ao terreno da salvação. O objetivo do castigo não é outro que a reabilitação, a redenção.”
O Livro dos Espíritos - questão 1009


Veja também


Referências

  • O Livro dos Espíritos, Allan Kardec - Ebook.
  • O Livro dos Médiuns, Allan Kardec - Ebook.
  • O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec - Ebook.
  • O Céu e o Inferno, Allan Kardec - Ebook.
  • A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, Allan Kardec - Ebook.
  • Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas, Allan Kardec - Ebook.
  • Socialismo e Espiritismo, Léon Denis - Ebook.
  • Religião dos Espíritos, (Emmanuel) Chico Xavier - FEB Editora.
  • Recordações da Mediunidade, Yvonne A. Pereira - FEB Editora.
  • Conduta Espírita, (André Luiz) Waldo Vieira - FEB Editora.
  • Constelação Familiar, (Joanna de Ângelis) Divaldo Franco - Editora LEAL.
  • Verbete Expiação na Wikipédia.
  • Verbete Iom Quipur na Wikipédia.


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Índice de verbetes
A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo
Abreu, Canuto
Adolphe Laurent de Faget
Agênere
Alexandre Aksakof
Allan Kardec
Alma
Alma gêmea
Amélie Gabrielle Boudet
Anália Franco
Anastasio García López
Andrew Jackson Davis
Anna Blackwell
Arigó, Zé
Arthur Conan Doyle
Auto de Fé de Barcelona
Auto-obsessão.
Banner of Light
Baudin, Irmãs
Bem
Berthe Fropo
Blackwell, Anna
Boudet, Amélie Gabrielle
Cairbar Schutel
Canuto Abreu
Caridade
Carma
Caroline Baudin
Célina Japhet
Cepa Espírita
Charlatanismo
Charlatão
Chevreuil, Léon
Chico Xavier
Cirne, Leopoldo
Codificador Espírita
Comunicabilidade Espiritual
Conan Doyle, Arthur
Consolador
Crookes, William
Daniel Dunglas Home
Davis, Andrew Jackson
Denis, Léon
Dentu, Editora
Dentu, Édouard
Desencarnado
Deus
Didier, Pierre-Paul
Divaldo Pereira Franco
Dogma
Dogmatismo
Doutrina Espírita
Doyle, Arthur Conan
Dufaux, Ermance
Ectoplasma
Ectoplasmia
Ecumenismo
Editora Dentu
Édouard Dentu
Elementos Gerais do Universo
Emancipação da Alma
Encarnado
Epífise
Erasto
Ermance Dufaux
Errante
Erraticidade
Errático
Escala Espírita
Escrita Direta
Espiritismo
Espiritismo à Francesa: a derrocada do movimento espírita francês pós-Kardec
Espírito da Verdade
Espírito de Verdade
Espírito Santo
Espírito Verdade
Espiritual
Espiritualidade
Espiritualismo
Espiritualismo Moderno
Evangelho
Expiação
Faget, Laurent de
Fascinação
Fluido
Fora da Caridade não há salvação
Fox, Irmãs
Francisco Cândido Xavier
Franco, Anália
Franco, Divaldo Pereira
Fropo, Berthe
Galeria d’Orleans
Gama, Zilda
Glândula Pineal
Henri Sausse
Herculano Pires, José
Herege
Heresia
Hippolyte-Léon Denizard Rivail
Home, Daniel Dunglas
Humberto de Campos
Imortalidade da Alma
Inquisição
Irmão X
Irmãs Baudin
Irmãs Fox
Jackson Davis, Andrew
Japhet, Célina
Jean Meyer
Jean-Baptiste Roustaing
Joanna de Ângelis
Johann Heinrich Pestalozzi
José Arigó
José Herculano Pires
José Pedro de Freitas (Zé Arigó)
Julie Baudin
Kardec, Allan
Kardecismo
Kardecista
Karma
Lachâtre, Maurice
Lamennais
Laurent de Faget
Léon Chevreuil
Léon Denis
Leopoldo Cirne
Leymarie, Pierre-Gaëtan
Linda Gazzera
Livraria Dentu
London Dialectical Society
Madame Kardec
Mal
Maurice Lachâtre
Mediatriz
Médium
Mediunidade
Mesas Girantes
Metempsicose
Meyer, Jean
Misticismo
Místico
Moderno Espiritualismo
Necromancia
O Livro dos Espíritos
O Livro dos Médiuns
Obras Básicas do Espiritismo
Obsediado
Obsessão
Obsessor
Onipresença
Oração
Palais-Royal
Panteísmo
Paráclito
Parasitismo psíquico
Pélagie Baudin
Percepção extrassensorial
Pereira, Yvonne A.
Perispírito
Pestalozzi
Pierre-Gaëtan Leymarie
Pierre-Paul Didier
Pineal
Pires, José Herculano
Pneumatografia
Possessão
Prece
Pressentimento
Projeto Allan Kardec
Quiromancia
Religião
Revelação Espírita
Rivail, Hypolite-Léon Denizard
Roustaing, Jean-Baptiste
Santíssima Trindade
Santo Ofício
Sausse, Henri
Schutel, Cairbar
Sematologia
Sentido Espiritual
Sexto Sentido
Silvino Canuto Abreu
Sociedade Dialética de Londres
Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas
SPEE
Subjugação
Superstição
Terceira Revelação
Tribunal do Santo Ofício
Trindade Universal
Ubiquidade
UEF
União Espírita Francesa
Vampirismo
Verdade, Espírito
Videira Espírita
William Crookes
X, Irmão
Xavier, Chico
Xenoglossia
Yvonne do Amaral Pereira
Zé Arigó
Zilda Gama

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