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Índice de verbetes



Daniel Dunglas Home



Daniel Dunglas Home (Currie, Escócia, 20 de março de 1833 – Paris, França, 21 de junho de 1886) foi um médium e divulgador do movimento Espiritualismo Moderno; foi o mais renomado médium de seu tempo, célebre pela produção de extraordinárias manifestações, dentre as quais levitação de seu próprio corpo, telecinese, psicofonia, etc. Home percorreu os Estados Unidos da América e a Europa fazendo demonstrações públicas de suas capacidades mediúnicas e propagando a imortalidade da alma, que ele abraçou como a causa maior da sua vida, um desígnio espiritual, pelo que não admitia cobrar pelas sessões a que participava, embora tivesse aceitado doações, presentes e praticamente vivido toda a vida como hóspede de amigos, simpatizantes da sua causa espiritualista e curiosos experimentadores da fenomenologia espiritual que o convidavam a troco de assistir aos seus fenômenos.


Daniel Dunglas Home (1833-1886)



Origem familiar

Home nasceu num vilarejo próximo a Edimburgo, capital da Escócia, envolto de uma misteriosa descendência: diz-se que ele alegava ser neto do décimo conde de Home, de quem herdara o sobrenome, enquanto, por outro lado, contestando sua “nobreza”, o jornal da Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres (vol. 70, 4) reportou que sua família verdadeira se escrevia como “Hume” e Daniel, no ato de seu primeiro casamento, teria alterado a grafia propositadamente para ganhar reconhecimento.

Não se sabe por que ele deixou o lar paterno, mas é fato que aos nove anos de idade ele seguiu viagem para os Estados Unidos com uma tia, com quem morou até a juventude até ser expulso daquele lar após a casa ser aterrorizada por manifestações espirituais, interpretadas como satânicas. Daniel passou a vagar por casas de amigos e curiosos que exploravam suas capacidades paranormais — que algumas fontes vão dizer serem herança materna. Se sua mãe era ou não uma vidente, tal como se dizia, a questão mais relevante é que, tendo ela morrido, fez-se uma ligação entre o Espírito dela e o filho:

"Uma noite ele gritou por socorro e quando a tia chegou encontrou-o muito abatido. Disse que a mãe havia morrido naquele dia às doze horas; que ela lhe havia aparecido e dado aviso. Em breve batidas fortes começaram a perturbar aquele lar quieto e os móveis a serem arrastados por forças invisíveis. Sua tia, criatura de estreita visão religiosa, disse que o rapaz havia trazido o Diabo para casa e jogou-o na rua."
A História do Espiritualismo, Arthur Conan Doyle - cap. 9


O desabrochar dos dotes especiais

A partir do falecimento da sua mãe, em 1850, os dotes mediúnicos do jovem eclodiram substancialmente, para o deleite dos curiosos, que o usavam para promover sessões espetaculares, divertidas, mas que o levavam à exaustão e enfermidade.

No embalo da repercussão do caso das Irmãs Fox, em Hydesville (Estado de Nova Iorque, EUA), a fama de Home espalhou-se rapidamente e não tardou que ele fosse procurado por celebridades, nobres, autoridades simpatizantes ou estudiosos do Espiritualismo Moderno, dentre os quais o Dr. Edmonds, juiz da Suprema Corte de Nova Iorque — que mais tarde se converteria em grande defensor e propagador do movimento espiritualista.

Além das incomuns faculdades psíquicas, o jovem exalava carisma por sua humildade e docilidade no trato para com todos. O escritor Arthur Conan Doyle o descreve como um “aristocrata nato, alguém que herdou as tendências da nobreza, mas sem o dinheiro”. Em face disso, não foram poucos convites de adoção que recebeu de casas ricas, que desejam imprimir-lhe seu sobrenome e com isso também ganhar notoriedade social, especialmente depois de algumas incursões do médium em sessões terapêuticas que, diz-se, resultaram em grandes êxitos. Animado com isso, adentrou numa faculdade de medicina, mas a frágil saúde e sensibilidade emocional o desestimularam de seguir adiante.

Tratando de uma afecção pulmonar, fora aconselhado a mudar de ares, pelo que foi parar na Inglaterra em 1855, financiado por ativistas espiritualistas.

"No momento a sua posição era muito estranha. Tinha uma relação difícil com o mundo. Seu pulmão esquerdo estava parcialmente destruído. Seus recursos eram modestos, embora suficientes. Não tinha negócios nem profissão e sua educação havia sido interrompida pela doença. De caráter desconfiado, gentil, sentimental, artístico, afetuoso e profundamente religioso, tinha uma profunda tendência para a Arte e para o Drama. Assim, a sua capacidade para a escultura era considerável e como declamador provou mais tarde que pouca gente o igualava. Mas acima de tudo isto, de uma honestidade inflexível e tão rigorosa que por vezes chegava a ofender aos seus companheiros, havia um dom tão admirável que apagava todos os demais. Este repousa naquelas forças, muito independentes de sua vontade, que iam e vinham com desconcertante irregularidade, mas demonstrando a todos que examinassem a prova, que havia algo na atmosfera desse homem que permitia que as forças a ele exteriores, como exteriores à nossa percepção, se manifestassem neste plano da matéria. Por outras palavras, ele era um médium — o maior que o mundo moderno já viu, no campo das manifestações físicas."
Idem

Estabeleceu-se inicialmente em Liverpool e aí viveu de favores e interesses oportunistas de hospedeiros. Inválido para o trabalho, em razão de sua cada vez mais débil condição física, restou-lhe a benevolência alheia ante uma previsível morte prematura. Foi recebido e fez amizade com realezas e gozou da simpatia de todos que o conheceram mais intimamente, e não se corrompeu com as ofertas de negociantes dos espetáculos espirituais.

"Um homem inferior teria usado os seus poderes extraordinários para fundar uma seita especial, da qual teria sido o sumo sacerdote inconteste, ou para se rodear de uma auréola de poder e de mistério. Certamente muita gente na sua posição teria sido tentada a usar aqueles dons para fazer dinheiro. Em relação a este ponto seja dito antes de qualquer coisa que no curso de seus trinta anos de singular ministério, jamais ele tocou num tostão como paga de seus dons. É absolutamente certo que lhe foram oferecidas duas mil libras pelo Clube União, em Paris, no ano de 1857, por uma única sessão, e que ele, pobre e inválido, as recusou terminantemente."
Idem

Daniel Home foi casado por duas vezes: o primeiro matrimônio foi contraído em 1858 com Alexandra de Kroll, uma jovem oriunda de uma nobre família russa, ficando ele viúvo apenas quatro anos após as núpcias em decorrência de uma tuberculose que a levou, deixando órfão o único filho do casal; casou-se pela segunda vez em 1871, novamente com uma nobre filha da Rússia.



A missão de Home

Desprendido de ganância e sensível aos valores morais, Home considerava-se presenteado com os dons pelos quais podia exercer um oficio sagrado, uma missão especial: “Essa missão é demonstrar a imortalidade. Nunca recebi dinheiro por isso e jamais o receberei” — dizia.

"Houve certos presentes da realeza que não podiam ser recusados sem grosseria: anéis, alfinetes de gravatas e outros, que mais eram sinais de amizade do que recompensa; porque, antes de sua morte prematura, poucos eram os monarcas da Europa com os quais esse moço desconfiado de um subúrbio de Liverpool não estivesse em afetuosa intimidade."
Idem

De Florença, Itália, o depoimento de uma nobre senhora sintetiza a importância da obra do médium: “Ele é o mais maravilhoso missionário dos tempos modernos e da maior de todas as causas, e o bem que ele tem feito não pode ser avaliado. Quando Sr. Home passa, derrama em seu redor a maior de todas as bênçãos — a certeza da vida futura”.

O recado espiritual sobre a sobrevivência da alma] após a morte era maior que qualquer outra inclinação; o que se seguiu foi que ele não se deixou seduzir nem por dinheiro, nem por fama, nem por poder e pretensão de ser um líder religioso. Era religioso por natureza, tendo participado de cultos diversos, mas sem se prender a qualquer designação, considerando que o atributo da imortalidade da alma era superior a todos os apelos religiosistas e perfeitamente compatível com qualquer doutrina espiritualista.



Ilustração com D. D. Home levitando



A mediunidade de Home

Daniel Home ficou notabilizado particularmente como “o homem que flutuava”. Foram muitas demonstrações públicas de levitação, em sessões diurnas e noturnas, aos olhos de muitas testemunhas ao mesmo tempo, dentre as quais gente da nobreza, curiosos comuns e gênios da ciência, que o investigaram com a mais impiedosa intenção de desmascará-lo.

Entretanto, pelos relatos de tantas e tão honradas personalidades, temos que as capacidades de Home eram assombrosamente vistosas até para os mais intransigentes céticos materialistas.

O artigo “Mais estranho do que uma ficção” publicado em 1860 na revista britânica CornHill, assinado por Robert Bell, reporta uma de suas sessões de levitação: “Home foi erguido de sua cadeira quatro a cinco pés do solo... Vimos o seu corpo passar de um para o outro lado da janela, com os pés para a frente, posto horizontalmente no ar”.

O nobre cavaleiro real inglês William Crookes assim adiantou as conclusões do seu relatório acerca das pesquisas científicas que empreendeu quanto à mediunidade do rapaz escocês:

Os diversos fenômenos que venho atestar são tão extraordinários e tão inteiramente opostos aos mais enraizados pontos do credo científico – entre outros a universal e invariável ação da força de gravitação –, que mesmo agora, recordando-me dos detalhes de que fui testemunha, há antagonismo em meu espírito entre minha razão, que diz ser isso cientificamente impossível, e o testemunho de meus sentidos da vista e do tato, testemunho corroborado pelos sentidos de todas as pessoas presentes – que me dizem não serem testemunhos mentirosos, visto que eles depõem contra as minhas ideias preconcebidas."
William Crookes, em Quartery Journal of Science - jan. 1874: "Fenômenos espirituais observados por Crookes"

Para justificar o “poder especial” de D. D. Home, o Espírito São Luís destacou a especial “organização” daquele médium, (Revista Espírita, maio de 1858: “Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas”), próprio dos reencarnantes inscritos para a missão mediúnica.

Descrevendo seus dons, discursou ele, numa conferência na capital inglesa, em 1866:

"Sinceramente penso que essa força aumentará cada vez mais para nos aproximar de Deus. Perguntareis se ela nos torna mais puros. Minha única resposta é que somos mortais apenas e, como tal, sujeitos ao erro. Mas ela ensina que aqueles de coração puro verão a Deus. Ela nos ensina que Deus é amor e que não há morte. Aos velhos ela vem como uma consolação, quando se aproximam as tempestades da vida e quando vem o descanso. Aos moços ela fala do dever que temos uns para com os outros e diz que colheremos o que houvermos semeado. A todos ensina resignação. Vem desfazer as nuvens do erro e trazer a manhã radiosa de um dia interminável"
A História do Espiritualismo, Arthur Conan Doyle - cap. 9

A levitação que o celebrizou não era a única espécie de fenômeno psíquico de que dispunha; na verdade, de todos os tipos de manifestações experimentadas pelos médiuns contemporâneos seus raros eram aqueles que Home não os tivesse ensaiado pelo menos uma vez. Conta-se de casos de transfiguração (seu rosto sendo envolto por um forte brilho), premonição e visão à distância, telecinese, psicofonia, etc.

Allan Kardec também exaltou suas capacidades:

"O Sr. Home é um médium do gênero dos que produzem manifestações ostensivas, sem por isso excluir as comunicações inteligentes; contudo, as suas predisposições naturais lhe dão para as primeiras uma aptidão mais especial. Sob sua influência, ouvem-se os mais estranhos ruídos, o ar se agita, os corpos sólidos se movem, levantam-se, transportam-se de um lugar a outro no espaço, instrumentos de música produzem sons melodiosos, seres do mundo extracorpóreo aparecem, falam, escrevem e, frequentemente, vos abraçam até causar dor. Na presença de testemunhas oculares, muitas vezes ele mesmo se viu elevado no ar, sem qualquer apoio e a vários metros de altura."
Revista Espírita, Allan Kardec - fev. 1858: 'Sr. Home - 1° artigo'

Essa versatilidade psíquica fez dele um crítico ferrenho de outros médiuns, e mais ainda de possíveis pseudomédiuns; críticas, aliás, muitas vezes injustas — ainda que carregadas de boa intenção, a fim de preservar a integridade da mediunidade. É o caso de quando cobrava que os demais médiuns fizessem sempre demonstrações de suas aptidões psíquicas à luz do dia e ao ar livre, sendo que, por exemplo, fenômenos de materializações ectoplasmáticas são sensivelmente afetadas pela luz. Daí porque Conan Doyle dizer: “Home não tinha grande experiência das materializações completas, tais como foram obtidas naqueles dias pela Senhorita Florence Cook ou por Madame d’Esperance, ou em nossos dias pela mediunidade de Madame Bisson. Assim, podia ele dispensar a obscuridade completa em seu trabalho. Por isso sua opinião foi injusta para com os outros.”

Fenômenos mais complexos como os de materialização exigem bastante do sensitivo; se tais fenômenos eram limitados em Daniel Home, a fragilidade física dele bem pode explicar essa limitação.



A reputação do médium

O médium foi examinado por cientistas, céticos materialistas, clérigos e posto a todos os tipos possíveis de prova disponíveis em seu tempo; fora isso, seu próprio caráter também foi questionado: se os menos simpáticos ao espiritualismo não lhe pegaram em qualquer fraude, tentaram, por outro lado, ao menos lhe arranhar moralmente, a fim de diminuir sua missão espiritual.

"Se fossem necessárias provas da vida inatacável de Home, estas não poderiam ser melhor apresentadas do que pelo fato de que seus numerosos inimigos, sempre à espera de uma oportunidade para o ataque, jamais puderam encontrar algo em toda a sua carreira para um comentário."
A História do Espiritualismo, Arthur Conan Doyle - cap. 9

A maior garantia técnica da veracidade de suas aptidões psíquicas veio de Sir William Crookes, até então o mais renomado cientista da época. Crookes submeteu as faculdades de Home ao máximo rigor da pesquisa acadêmica e lhe atestou a autenticidade dos fenômenos — o que abalou a comunidade científica e pôs em xeque até mesmo a reputação de Crookes.

Se passou incólume das perscrutações acerca de suas faculdades psíquicas, de outra forma sofreu um grande constrangimento em decorrência de um processo conhecido como Home-Lyon: uma rica viúva, a Sra. Lyon, adotou-o legalmente como filho em 1866 lhe direcionando uma considerável soma de dinheiro a título de herança, a pretexto — se supõe — de com isso ganhar notoriedade social, posto que a condição imposta por ela era a de que ele mudasse o sobrenome dele para Home-Lyon; não satisfeita com o investimento, ela reclamou na justiça o dinheiro de volta alegando ter sido influenciada espiritualmente; o dinheiro foi devolvido, havendo o Sr. Home contestado somente a acusação feita por aquela senhora de que a ideia de doação tivesse sido dele, tal um premeditado. A propósito desse episódio, temos uma constatação relevante:

"Não há notícia de que tenha ele perdido a amizade de um só dos homens de honra, que o tinham como amigos, por causa das maquinações de Sra. Lyon. Os próprios motivos dessa senhora eram óbvios. Como todos os documentos estavam em ordem, seu único caminho para recuperar o dinheiro foi acusar Home de extorsão por meio de simulação; e ela era bastante esperta para saber que chance teria um médium — mesmo um médium amador e que não se fazia pagar — na ignorante e material atmosfera de uma corte de justiça do período médio-vitoriano."
Idem

E quando aqui se diz "nobres", de quem Home cativou amizade, está-se falando de tais como Napoleão III, imperador da França, quem o médium visitava com certa frequência e a quem confiou a tutela de uma irmã.



D. D. Home



O legado de Daniel Home

Falecido em Paris, no verão europeu de 1886, teve seus restos mortais sepultados ao lado do túmulo da sua filha, no cemitério de Saint Germain-en-Laye, nos arredores da capital francesa, deixando saudades com os amigos e reconhecimento de uma alma bondosa, que também havia sabido ocultar os inúmeros atos de caridade que praticara para com muitos necessitados que lhe cruzaram o caminho, conforme o testemunho dos mais íntimos.

Deixou três obras literárias: Révélations sur ma Vie Surnaturelle [Revelações sobre a minha Visão Sobrenatural] de 1863, a autobiografia Incidents in My Life [Incidentes da Minha Vida] de 1864, e Lights and Shadows in Spiritualism [Luzes e Sombras no Espiritualismo] de 1877.

O movimento Espiritualismo Moderno — e, por extensão, o movimento espírita — muito deve ao Sr. Home, não apenas pelos seus dotes psíquicos e seu testemunho quanto à imortalidade da alma, mas também pelo seu caráter, por sua honestidade e respeito ao vocacionado mediúnico e o desprendimento material. O seu era o tempo em que se explorava financeiramente dos fenômenos e deles se alardeava a espetaculosidade. Muitos médiuns autênticos aventuraram-se em façanhas outras com o objetivo de mostrar mais do que já eram, forjando capacidades de outros tipos de mediunidade diferente das que lhes eram naturais a pretexto de mais notoriedade — e renda. E isso sem falar dos completos mistificadores e charlatões.

Naquele século materialista que era o século XIX, a fenomenologia produzida por Daniel Dunglas Home corroborou o esforço das mentes abertas e sintonizadas com o plano espiritual para demonstrar a existência dos Espíritos e a continuidade da vida além-túmulo, com a preservação da individualidade e consciência de cada homem.



Home e o Espiritismo

O Sr. Home era um espiritualista, e não exatamente um espírita, no sentido de um adepto declarado dos conceitos do Espiritismo codificado por Allan Kardec. Diz-se, inclusive, que em algum momento de sua carreira mediúnica ele teria ironizado um dos pilares doutrinários da doutrina kardecista: o conceito da reencarnação:

"Eu encontro muitas pessoas que são reencarnacionista, e tive o prazer de encontrar pelo menos doze que tinham sido Maria Antonieta, seis ou sete que tinham sido Rainha Maria da Escócia; um bando de Luís e outros reis; cerca de vinte Alexandre o Grande, mas ainda me falta encontrar um simples John Smith, e vos rogo que, se o encontrardes, guardai-o como uma Curiosidade."
A História do Espiritualismo, Arthur Conan Doyle - cap. 9

Não se pode dizer que ele ignorava ou desdenhava o recado filosófico e moral cabível ao Espiritualismo Moderno, contudo, manteve-se concentrado na senda que marcou a sua biografia: a dos fenômenos de efeitos físicos, acreditando que esta contribuição já seria forte o bastante para mobilizar no meio comum um interesse pelos valores espirituais e religiosos, que ele entendia ser de foro íntimo de cada um.



Home segundo Kardec

O codificador espírita compreendia que a superexposição dos médiuns era algo nada proveitoso para a Doutrina Espírita — pois a ênfase deve ser dada à mensagem — e um tanto perigoso para estes medianeiros, posto que a ideia de excentricidade em relação às demais pessoas pode lhes inflar o espírito de orgulho, vaidade e egoísmo. E como a providência essencial dessa ordem de manifestações é servir de evidência da natureza espiritual, o papel dos medianeiros era ainda mais passivo do que o dos casos de manifestações inteligentes.

Em face disso, não era costumeiro Kardec evidenciar nomes. Contudo, o caso de Daniel Dunglas Home era excepcional, quase que a personificar a mediunidade, e o codificador do Espiritismo, ao longo de sua obra doutrinária, por diversas vezes rendeu-lhe especial admiração, enquanto a analisar o seu vocacionado mediúnico. Na segunda edição de sua Revista Espírita (fevereiro de 1858),ele deu início a uma série de artigos intitulada “Sr. Home”, ocasião em que minimizou as críticas gerais de que o médium fosse um desocupado interesseiro a viver às custas alheias:

"Vindo à França, o Sr. Home não se dirigiu ao público; ele não gosta e nem procura a publicidade. Se tivesse vindo com propósitos especulativos, teria corrido o país, lançando mão da propaganda em seu auxílio; teria procurado todas as ocasiões de se promover, enquanto as evita; teria estabelecido um preço às suas manifestações, contudo, nada pede a ninguém. Apesar de sua reputação, o Sr. Home não é de forma alguma o que se pode chamar de um homem do mundo; sua vida privada pertence-lhe exclusivamente. Desde que nada pede, ninguém tem o direito de indagar como vive, sem cometer uma indiscrição. É mantido por pessoas poderosas? Isso não nos diz respeito; tudo quanto podemos dizer é que, nesta sociedade de escol ele conquistou amizades reais e fez amigos devotados, ao passo que, com um prestidigitador, a gente paga, diverte-se e ponto final. Portanto, não vemos no Sr. Home mais que uma coisa: um homem dotado de uma faculdade notável."
Revista Espírita, Allan Kardec - fev. 1858: 'Sr. Home - 1° artigo'

No segundo artigo da série, Kardec conta um exemplo das tantas maledicências que se ouvia contra o Sr. Home e o inusitado desfecho desta ocorrência:

"O Sr. Marquês de..., uma das personagens que mais interesse demonstraram pelo Sr. Home, e em cuja residência o médium era recebido na intimidade, achava-se um dia na ópera com este último. Na plateia superior estava o Sr. de P..., um de nossos assinantes, e que conhece a ambos pessoalmente. Seu vizinho entabula conversação com ele; o assunto é o Sr. Home. “Acreditais — disse ele — que aquele pretenso feiticeiro, aquele charlatão, encontrou meio de introduzir-se na casa do Sr. Marquês de...? Seus artifícios, porém, foram descobertos e ele foi posto no olho da rua a pontapés, como um vil intrigante. — Estais bem certo disso? — pergunta o Sr. de P... Conheceis o Sr. Marquês de...? — Certamente, responde o interlocutor — Nesse caso, diz o Sr. de P..., Olhe naquele camarote; podereis vê-lo em companhia do próprio Sr. Home, ao qual não parece que queira dar pontapés”. Diante disso, nosso melancólico falador, não julgando conveniente continuar a conversa, pegou seu chapéu e não apareceu mais. Por aí se pode julgar do valor de certas afirmações. Seguramente, se certos fatos divulgados pela maledicência fossem verdadeiros, mais de uma porta teriam se fechado para ele; mas como as casas mais respeitáveis sempre lhe estiveram abertas, deve-se concluir que sempre e por toda parte ele se conduziu como um cavalheiro. Basta, aliás, haver conversado algumas vezes com o Sr. Home para ver que, com a sua timidez e a sua simplicidade de caráter, seria o mais desajeitado de todos os intrigantes; insistimos nesse ponto pela moralidade da causa."
Idem - março, 1858: 'Sr. Home - 2° artigo'

E no mesmo texto, destacando Daniel Dunglas Home dentre aqueles que virtuosamente colaboram profetizando o espiritualismo contra o materialismo, Kardec arremata: “honra aos que empregam nessa obra os bens com que Deus os favoreceu na Terra!”.

Em abril de 1858, o codificador do Espiritismo também tratou de defender a reputação de D. D. Home quando, em nome deste médium, um impostor (Lambert Laroche) ousou vender sessões espiritualistas em Lyon, França. A fraude foi descoberta antes da realização do espetáculo e o “falso Home” escorraçado da cidade, mas tarde o bastante para evitar que os críticos do Espiritismo destilassem a degeneração da doutrina dos Espíritos pelo fato de “o mais nobre dos médiuns” ter finalmente se rendido às especulações teatrais. Kardec assim refutou os críticos:

"O Espiritismo goza hoje de muita reputação para temer a charlatanice; não é mais aviltado pelos charlatães do que a verdadeira ciência médica pelos curandeiros das encruzilhadas; por toda parte encontra, sobretudo entre as pessoas esclarecidas, zelosos e numerosos defensores, que sabem afrontar as zombarias. Longe de prejudicar, o caso de Lyon apenas serve à sua propagação, ao chamar a atenção dos indecisos para a realidade. Quem sabe até se não foi provocado com essa finalidade por um poder superior? Quem pode se vangloriar de sondar os desígnios da Providência? Quanto aos adversários do Espiritismo, é permitido a eles rir, jamais caluniar; alguns anos ainda e veremos quem dará a última palavra. Se é lógico duvidar daquilo que não se conhece, é sempre imprudente inscrever-se em falso contra as ideias novas que, mais cedo ou mais tarde, podem dar um humilhante desmentido à nossa perspicácia: a História aí está para o provar."
Idem - maio, 1858: Variedades "O falso Home"

Não temos conhecimento de que Kardec e Home tiveram qualquer diálogo, no entanto, na Revista Espírita de outubro de 1859 o pioneiro espírita nos dá a entender ter estado pessoalmente com o médium:

"Ora, a suspensão etérea dos corpos pesados é um fato demonstrado e explicado pelo Espiritismo; nós mesmos fomos testemunha ocular e o Sr. Home, assim como outras pessoas do nosso conhecimento, repetiram várias vezes o fenômeno produzido por São Cupertino."
Revista Espírita, Allan Kardec - out. 1859: 'Os milagres'


O médium e a mensagem do pós-morte



Memórias de D. D. Home

Na autobiografia Incidents in My Life [Incidentes da Minha Vida], Home arremata a síntese de seu pensamento e esforço em promover o Espiritualismo:

"O fato, portanto, de qualquer inteligência, verdadeira ou falsa, proveniente do mundo interior, é aquela a partir da qual as conclusões devem ser deduzidas, cujo valor é impossível de ser superestimado. A comunhão real e íntima dos santos pode ser difícil de realizar, devido ao fato de nosso próprio estado ser muito baixo para essa sagrada comunhão, mas não precisamos abandonar o ceticismo de todo o mundo espiritual e negar a possibilidade de um dos mais gloriosos tentáculos do Cristianismo."
Incidents in My Life, D. D. Home - cap. XIII


Referências




Índice de verbetes
A Gênese
Agênere
Aksakof, Alexandre
Alexandre Aksakof
Allan Kardec
Alma
Alma gêmea
Amélie-Gabrielle Boudet
Anastasio García López
Andrew Jackson Davis
Anna Blackwell
Auto de Fé de Barcelona
Banner of Light
Baudin, Irmãs
Bem
Berthe Fropo
Blackwell, Anna
Boudet, Amélie-Gabrielle
Cairbar Schutel
Canuto Abreu
Caridade
Caroline Baudin
Cepa espírita
Charlatanismo
Charlatão
Chevreuil, Léon
Chico Xavier
Cirne, Leopoldo
Codificador Espírita
Consolador
Crookes, William
Daniel Dunglas Home
Davis, Andrew Jackson
Denis, Léon
Dentu, Editora
Dentu, Édouard
Desencarnado
Deus
Divaldo Pereira Franco
Doutrina Espírita
Ectoplasma
Ectoplasmia
Ecumenismo
Editora Dentu
Édouard Dentu
Epífise
Errante
Erraticidade
Errático
Escrita Direta
Espiritismo
Espiritismo à Francesa: a derrocada do movimento espírita francês pós-Kardec
Espírito da Verdade
Espírito de Verdade
Espírito Errante
Espírito Santo
Espírito Verdade
Espiritual
Espiritualismo
Espiritualismo Moderno
Evangelho
Fora da Caridade não há salvação
Francisco Cândido Xavier
Franco, Divaldo Pereira
Fropo, Berthe
Galeria d'Orléans
Gama, Zilda
Glândula Pineal
Herculano Pires
Herege
Heresia
Hippolyte-Léon Denizard Rivail
Home, Daniel Dunglas
Humberto de Campos
Inquisição
Irmão X
Irmãs Baudin
Jackson Davis, Andrew
Joanna de Ângelis
Johann Heinrich Pestalozzi
José Herculano Pires
Julie Baudin
Kardec, Allan
Kardecismo
Lachâtre
Lamennais
Léon Chevreuil
Léon Denis
Leopoldo Cirne
Linda Gazzera
Livraria Dentu
Madame Kardec
Mal
Maurice Lachátre
Médium
Mediunidade
Metempsicose
Misticismo
Místico
Moderno Espiritualismo
Necromancia
O Livro dos Espíritos
Obras Básicas do Espiritismo
Oração
Palais-Royal
Paráclito
Parasitismo psíquico
Pélagie Baudin
Percepção extrassensorial
Pereira, Yvonne A.
Pestalozzi
Pineal
Pneumatografia
Prece
Quiromancia
Religião
Revelação Espírita
Rivail, Hippolyte-Léon Denizard
Santíssima Trindade
Santo Ofício
Schutel, Cairbar
Sentido Espiritual
Sexto Sentido
Silvino Canuto Abreu
Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas
SPEE
Terceira Revelação
Tribunal do Santo Ofício
Ubiquidade
União Espírita Francesa
Vampirismo
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X, Irmão
Xenoglossia
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