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Índice de verbetes



Índice de verbetes
A Gênese
A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo
Abreu, Canuto
Adolphe Laurent de Faget
Agênere
Alexandre Aksakof
Allan Kardec
Alma
Alma gêmea
Amélie Gabrielle Boudet
Anastasio García López
Andrew Jackson Davis
Anna Blackwell
Arigó, Zé
Auto de Fé de Barcelona
Auto-obsessão.
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Baudin, Irmãs
Bem
Berthe Fropo
Blackwell, Anna
Boudet, Amélie Gabrielle
Cairbar Schutel
Canuto Abreu
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Carma
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Cepa espírita
Charlatanismo
Charlatão
Chevreuil, Léon
Chico Xavier
Cirne, Leopoldo
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Comunicabilidade Espiritual
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Crookes, William
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Davis, Andrew Jackson
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Dentu, Édouard
Desencarnado
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Divaldo Pereira Franco
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Dogmatismo
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Ectoplasmia
Ecumenismo
Editora Dentu
Édouard Dentu
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Errante
Erraticidade
Errático
Escrita Direta
Espiritismo
Espiritismo à Francesa: a derrocada do movimento espírita francês pós-Kardec
Espírito da Verdade
Espírito de Verdade
Espírito Errante
Espírito Santo
Espírito Verdade
Espiritual
Espiritualismo
Espiritualismo Moderno
Evangelho
Faget, Laurent de
Fascinação
Fora da Caridade não há salvação
Francisco Cândido Xavier
Franco, Divaldo Pereira
Fropo, Berthe
Galeria d'Orléans
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Glândula Pineal
Henri Sausse
Herculano Pires, José
Herege
Heresia
Hippolyte-Léon Denizard Rivail
Home, Daniel Dunglas
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Imortalidade da Alma
Inquisição
Irmão X
Irmãs Baudin
Jackson Davis, Andrew
Japhet, Célina
Joanna de Ângelis
Johann Heinrich Pestalozzi
José Arigó
José Herculano Pires
José Pedro de Freitas (Zé Arigó)
Julie Baudin
Kardec, Allan
Kardecismo
Karma
Lachâtre, Maurice
Lamennais
Laurent de Faget
Léon Chevreuil
Léon Denis
Leopoldo Cirne
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Linda Gazzera
Livraria Dentu
London Dialectical Society
Madame Kardec
Mal
Maurice Lachâtre
Médium
Mediunidade
Metempsicose
Misticismo
Místico
Moderno Espiritualismo
Necromancia
O Livro dos Espíritos
Obras Básicas do Espiritismo
Obsediado
Obsessão
Obsessor
Oração
Palais-Royal
Paráclito
Parasitismo psíquico
Pélagie Baudin
Percepção extrassensorial
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Pestalozzi
Pierre-Gaëtan Leymarie
Pierre-Paul Didier
Pineal
Pneumatografia
Prece
Projeto Allan Kardec
Quiromancia
Religião
Revelação Espírita
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Santíssima Trindade
Santo Ofício
Sausse, Henri
Schutel, Cairbar
Sentido Espiritual
Sexto Sentido
Silvino Canuto Abreu
Sociedade Dialética de Londres
Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas
SPEE
Subjugação
Superstição
Terceira Revelação
Tribunal do Santo Ofício
Ubiquidade
UEF
União Espírita Francesa
Vampirismo
William Crookes
X, Irmão
Xavier, Chico
Xenoglossia
Yvonne do Amaral Pereira
Zé Arigó
Zilda Gama

Comunicabilidade Espiritual



Comunicabilidade Espiritual ou Comunicabilidade dos Espíritos é a capacidade de os desencarnados (também chamados de mortos, de Espíritos) entrarem em contato com os chamados vivos (os encarnados), para lhes impressionar, transmitir mensagens ou dialogar com estes. Consiste basicamente no mesmo princípio da mediunidade, embora o intercâmbio mediúnico algumas vezes seja referido especificamente como um trabalho vocacionado e mais bem organizado, como nos casos em que o médium desempenha assim uma missão preestabelecida. A comunicação com os Espíritos é um dos princípios fundamentais do Espiritismo, como sendo um elemento essencial para a própria constituição desta doutrina. As duas formas básicas desse tipo de contato são: manifestações espontâneas de Espíritos, como nos fenômenos de efeitos físicos, e; emancipação da alma, ou animismo (dos encarnados), a exemplo dos casos de sonho, telepatia e transe sonambúlico. A comunicabilidade espiritual também é explorada pela necromancia, a dita arte de consultar os mortos, tipicamente aplicada para a adivinhação do futuro e tratar de questões particulares. O fenômeno da comunicação entre os vivos e os mortos está presente na História dos povos, desde os tempos mais remotos, cujo modo de interpretação e reputação do fenômeno variam conforme os valores culturais do local e do período, acontecendo por vezes de ser abominada a sua prática comum (fora do círculo dos iniciados), como é praxe em algumas tradições religiosas. A Doutrina Espírita fomenta o intercâmbio espiritual mediante certos critérios, sobretudo os de responsabilidade, utilidade, bem comum e desinteresse particular, considerando essa interação um meio de promover a evolução espiritual da humanidade, além de solidariedade e confraternização entre os entes queridos. Principalmente no Brasil, esta faculdade também é difundida em cultos afrodescendentes (umbanda, candomblé e culturas afins). Ao redor do mundo, este canal de intercâmbio é recorrido para fins diversos, tais como para estudos científicos e investigação forense.


Exemplo de uma aparição espiritual



Do oraculismo à mediunidade

Desde a mais remota Antiguidade, a prática da evocação dos mortos tem sido registrada em todas as grandes civilizações — seja no âmbito popular, seja no ambiente dito sagrado, do círculo dos iniciados. No primeiro caso, no qual se classifica a necromancia, figura-se a consulta aos Espíritos acerca de curiosidades triviais e respostas para problemas corriqueiros, sem um controle nem método mais criterioso; são intermediários nessas evocações os conhecidos magos, feiticeiros, bruxos, pitonisas, oráculos e outras tantas variações, de acordo com a cultura local e temporal. Já no ambiente sagrado, os iniciados buscam praticar a comunicabilidade espiritual mais criteriosamente, visando fins mais nobres, por exemplo, para auxiliar os seus governantes e desvendar os mistérios da natureza. O Egito, a Grécia e a Roma da Antiguidade são os exemplos mais notáveis desses costumes.

O filósofo espírita José Herculano Pires entendeu a precisão dessa prática, que denominou de mediunismo primitivo num horizonte oracular, como princípio do ensaio evolutivo para o desenvolvimento da mediunidade que então o Espiritismo vem estruturar como mecanismo de aproximação com a natureza superior e com a divindade.

“Ao atingir o horizonte civilizado, o homem se transforma no ser moral que supera o ser social, ou o animal político aristotélico, projetando-se em direção ao ser espiritual do futuro. A humanidade deixa de ser uma espécie, para se transformar num devir. Por isso mesmo, o mediunismo primitivo, o animismo e o culto dos ancestrais se refundem numa forma nova de manifestação psíquica, que é o mediunismo oracular.”
O Espírito e o Tempo, José Herculano Pires – cap. III, Item 2

Nesse contexto, Deus vai se revelando paulatinamente à humanidade e permitindo que ela penetre gradativamente no conhecimento da natureza superior, para daí inspirar-se diante da sua necessidade evolutiva.

É compreendendo essa função pedagógica do intercâmbio espiritual que Allan Kardec vai definir a comunicabilidade dos Espíritos como um dos conceitos fundamentais da Doutrina Espírita.

“Os Espíritos se manifestam espontaneamente ou mediante evocação. Podemos evocar todos os Espíritos: os que animaram homens obscuros, como os das personagens mais ilustres, seja qual for a época em que tenham vivido; os de nossos parentes, amigos, ou inimigos, e obter deles, por comunicações escritas ou verbais, conselhos, informações sobre a situação em que se encontram no Além, sobre o que pensam a nosso respeito, assim como as revelações que lhes sejam permitidas fazer-nos.”
O Livro dos Espíritos, Allan Kardec – Introdução ao estudo da Doutrina Espírita, item VI


Dos mitos às religiões constituídas

É certo que a comunicação espiritual — seja pelas evocações, seja pelas manifestações espontâneas dos seres invisíveis — estabeleceu uma gama de mitos e folclores, desembocando no surgimento das grandes tradições religiosas. O enredo mais comum é: uma divindade apresenta-se a um profeta especial e o incumbe de proclamar uma verdade a ser acatada, venerada e difundida — o que chamamos de religião constituída. Por sua especialidade, esse profeta ou se torna o próprio líder espiritual desse povo na Terra, como embaixador oficial da respectiva divindade (como Moisés para o Jeová de Israel, como Maomé para Alá no Islamismo) ou se anexa ao seu governante para ser seu sacro consultor na condição de porta-voz da vontade divina.

O caso de Jesus de Nazaré é excepcional: ele ofertou-se ao mundo como o Messias, o enviado de Deus para o anúncio de uma nova ordem moral, baseada na caridade incondicional, mas foi idolatrado pela igreja, que o idealizou como sendo a própria divindade e revestiu seu Evangelho com um simbolismo e uma liturgia mais formal e mística, também atrelada a uma igreja dominadora, do que mesmo moralizadora e espiritualmente libertadora. É no entorno dessa idealização mística e ritualística que se ergueu um cristianismo longe do Cristo e que muito se despreza os recursos de Deus para com os homens, tal como o da comunicabilidade dos Espíritos.


Desmistificação do intercâmbio espiritual

Na fundamentação deste conceito no Espiritismo, trabalha-se para caracterizar o processo natural do diálogo com os Espíritos, bem como toda a mediunidade, e, com isso, desfazer a ideia até então predominante de que o fenômeno espiritual tenha qualquer coisa de sobrenatural, no sentido de que ela viola as leis regulares da natureza, para se configurar ou como um milagre ou um ato demoníaco — conforme o teor e a interpretação que se dê à mensagem recolhida do além.

“O pensamento é um dos atributos do Espírito; a possibilidade que eles têm de atuar sobre a matéria, de nos impressionar os sentidos e de realmente nos transmitir seus pensamentos — se assim nos podemos exprimir — resulta da formação fisiológica que é própria deles. Logo, nada há de sobrenatural neste fato, nem de maravilhoso. Tornar um homem a viver depois de morto, e bem morto, reunirem-se seus membros dispersos para lhe formarem de novo o corpo, isso sim seria maravilhoso, sobrenatural, fantástico. Haveria aí uma verdadeira anulação da lei, o que somente por um milagre Deus poderia praticar. Porém, coisa alguma de semelhante há na Doutrina Espírita.”
O Livro dos Médiuns, Allan Kardec – 1ª Parte, cap. II, item 7

Essa ideia primitiva de dar um caráter maravilhoso ao que é próprio da natureza — como a igreja tem feito, para, com isso, supostamente exaltar o poder divino frente à ciência humana — só tem resultado espanto e repulsa instintiva dos pensadores que, não podendo admitir a inconsistência de fenômenos contrários à natureza e desconhecendo uma alternativa ao dogma místico das religiões tradicionais, acabam por negar a espiritualidade. E é precisamente para desfazer esse misticismo e pôr as potências anímicas e mediúnicas na ordem comum das leis universais que o Espiritismo vem apresentar sua contribuição teórica e experimentação prática.


Comunicabilidade espiritual na tradição religiosa

A manifestação de Espíritos está fartamente documentada na tradição religiosa, começando pelo registro de várias passagens bíblicas, dentre os quais destacamos:

A aparição de Azarias, filho do sábio Ananias, a Tobias, filho do ancião Tobit:

Então, tendo Tobias saído, achou um gentil mancebo, que estava cingido e prestes a caminhar. E não sabendo se era um anjo de Deus, o saudou e disse: Donde és tu, guapo mancebo? E ele respondeu: Sou um dos filhos de Israel... Mas, para que não fiques em cuidados, digo-te que sou Azarias, filho do grande Ananias.
Tobias, 5: 5 a 7 e 18

O Espírito e sua voz branda no livro de Jó:

E ao passar diante de mim um Espírito, os cabelos da minha carne se arrepiaram. Parou diante de mim una, cujo rosto eu não conheci; vi um vulto diante dos meus olhos, e ouvi uma voz, conto de branda viração.
Jó, 4: 15 e 16

A aparição de Samuel a Saul, rei de Israel:

E depois disso morreu Samuel, e apareceu ao rei e lhe predisse o fim da sua vida; e, saindo da Terra, levantou a sua voz, profetizando que ia ser destruída a impiedade da nação.
Eclesiástico, 46: 23

A incorporação espiritual em Estevão:

Estêvão, cheio de graça e coragem, fazia grandes prodígios e milagres no meio do povo. E alguns da sinagoga se levantaram a disputar com Estevão. Mas não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito que falava nele.
Atos dos Apóstolos, 6: 8 a 10

O Espírito visitando Pedro na prisão:

E Pedro, pensado na visão, o Espírito lhe disse: Aí estão três homens, que te buscam. E estes disseram. O centurião Cornélio, homem justo e temente a Deus, e que tem por si o testemunho de toda a nação dos judeus, recebeu ordem do santo anjo para que te fizesse chamar a sua casa, a fim de escutar as tuas palavras.
Atos dos Apóstolos, 10: 19 e 22.

Além disso, a Bíblia traz repetidamente o prenúncio de um grande derramamento de comunicações espirituais para um futuro próximo, como nesta passagem do Antigo Testamento:

E, depois disso, acontecerá: Derramarei meu Espírito sobre a tua carne, e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão; vossos velhos terão sonhos e vossos jovens terão visões.
Joel, 2: 28

Passagem esta que, aliás, é reeditada no Novo Testamento, no livro dos Atos dos Apóstolos, 2:17, cuja promessa é retificada pelo próprio Cristo:

“E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco”.
“É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece, mas vós o conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós”.
João, 14:16-17
“Quando vier o Paráclito, que vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim.”
João, 15:26
“Entretanto, digo-vos a verdade: convém a vós que eu vá! Porque, se eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se eu for, vo-lo enviarei.
“Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir, e vos anunciar-á as coisas que virão.”
João, 16:7 e 13

Daí a razão de o apóstolo Paulo não menospreza essa interação interdimensional:

“Não apagueis o espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo e aceitai o que for bom.”
I Tessalonicenses, 5: 19 a 21

Nessa mesma sintonia, João Evangelista também escreverá:

“Caríssimos, não acrediteis em todo Espírito, mas examinai se os Espíritos são de Deus.”
I João, 4: 1

O diálogo com os Espíritos foi também prescrito por Santo Agostinho ainda enquanto encarnado, sendo ele um dos chamados Pais da Igreja, por sua contribuição na formação da doutrina católica:

“Na sua De cura pro Mortuis, diz Santo Agostinho: 'Os espíritos dos mortos podem ser mandados aos vivos, aos quais podem desvendar o futuro, que ficaram conhecendo por outros espíritos ou pelos anjos' (isto é, pelos guias espirituais) 'ou pela revelação divina'.”
A história do Espiritualismo, Arthur Conan Doyle - cap. 24

Malgrado todos esses subsídios, o catolicismo, assim como as igrejas reformistas e as demais correntes cristãs tradicionais praticamente romperam em absoluto com a tradição de uma conexão mais direta entre as dimensões física e espiritual, quase sempre considerando como manifestações demoníacas os fenômenos então inegáveis (como o fez no processo de Joana d'Arc), neste caso anatematizando o contato com os Espíritos, e, havendo persistência das manifestações espontâneas, algumas vezes recomendando até o ritual de exorcismo, para cessar essa conexão.


A condenação de Joana d'Arc



A invasão organizada dos Espíritos no séc. XIX

Em um momento marcante da História da Humanidade, uma onda de manifestações espirituais se derramou nas mais diversas partes do mundo em meados do século XIX, criando um movimento que ficou conhecido como Espiritualismo Moderno, que o escritor inglês Arthur Conan Doyle definiu como uma verdadeira “invasão organizada dos Espíritos”, para diferenciar os acontecimentos de seu tempo dos fenômenos espirituais ocasionais:

“Entretanto não há época na história do mundo em que não encontramos traços de interferências preternaturais e o seu posterior reconhecimento pela humanidade. A única diferença entre esses episódios e o movimento moderno é que aqueles podem ser apresentados como casos esporádicos de extraviados de uma esfera qualquer, enquanto os últimos têm as proporções de uma invasão organizada.”
A História do Espiritualismo, Arthur Conan Doyle – cap. I

O marco desse movimento neoespiritualista é o célebre episódio de Hydesville com as irmãs Fox, cuja data emblemática é 31 de março de 1848, quando teve início uma série de estranhas manifestações de efeitos físicos (ruídos, batidas etc.) resultando no desenvolvimento de um diálogo com o dito Espírito que “assombrava” a família Fox; a apurada investigação desse caso acabou despertando o interesse na investigação de outras tantas supostas manifestações espirituais e motivando a evocação de Espíritos, de que veio a febre das mesas girantes: pessoas de todas as classes se reuniam, em ambiente familiar e até em salões, para realizar sessões de evocação e comunicação espiritual.


As irmãs Fox e o marco do Espiritualismo Moderno


Foi, aliás, no auge dessa extraordinária fenomenologia que nasceu a Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, cuja denominação Espiritismo acabou por ser tomada frequentemente para representar todo aquele movimento espiritualista moderno, aquela invasão espiritual, que o codificador espírita vai considerar como a realização da promessa do Cristo, sobre o envio do Paráclito, o Consolador:

“O Espiritismo vem na época predita cumprir a promessa do Cristo: o Espírito de Verdade é quem preside seu advento. Ele convida os homens a observar a lei de Deus; ensina todas as coisas fazendo compreender o que Jesus só disse por parábolas. Cristo advertiu 'Ouçam os que têm ouvidos para ouvir'. O Espiritismo vem abrir os olhos e os ouvidos, pois fala sem figuras e nem alegorias; levanta o véu que foi intencionalmente lançado sobre certos mistérios. Finalmente, vem trazer a consolação suprema aos deserdados da Terra e a todos os que sofrem, atribuindo causa justa e finalidade útil a todas as dores (...)
“Assim, o Espiritismo realiza o que Jesus disse do Consolador prometido: conhecimento das coisas, fazendo que o homem saiba donde vem, para onde vai e por que está na Terra; atrai para os verdadeiros princípios da lei de Deus e consola pela fé e pela esperança.”
O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec – cap. VI, item 4


Sistematização espírita da mediunidade

O Espiritismo, compreendendo o valor da comunicabilidade espiritual da qual ele próprio se origina, vem então sistematizar a prática desta faculdade mediante critérios positivos para o seu bom uso, partindo do princípio fundamental de que esse canal de interação nada tem de sobrenatural, nem de místico ou de milagroso, mas que consiste na ordem comum da natureza criada por Deus (como qualquer outro fenômeno natural).

“Para os que consideram a matéria a única potência da Natureza, tudo o que não pode ser explicado pelas leis da matéria é maravilhoso, ou sobrenatural, e, para eles, maravilhoso é sinônimo de superstição...
“(...) o Espiritismo nos dá a explicação de uma imensidade de coisas inexplicadas e inexplicáveis por qualquer outro meio e que nos tempos antigos passaram por prodígios, por falta de toda explicação. Do mesmo modo que o magnetismo, ele nos revela uma lei, se não desconhecida, pelo menos mal compreendida; ou, mais acertadamente, de uma lei que se desconhecia, embora se conhecessem os seus efeitos, visto que estes sempre se produziram em todos os tempos, tendo a ignorância da lei gerado a superstição. Conhecida a lei, desaparece o maravilhoso e os fenômenos entram na ordem das coisas naturais.”
O Livro dos Médiuns, Allan Kardec – 1ª parte, cap. II, itens 10 e 15

Na sua sistematização, quanto à comunicabilidade dos Espíritos, a Doutrina Espírita propõe o exercício consciente e responsável da mediunidade, que consiste na mais concreta evidência da imortalidade da alma e da existência do mundo espiritual, bem como é a ferramenta essencial para o desenvolvimento do Espiritismo, como o elemento crucial para o nosso crescimento espiritual:

“A mediunidade tem sido para o mundo espiritual o que o telescópio foi para o mundo espacial e o microscópio para o dos seres infinitamente pequenos; ela permitiu explorar, estudar e — por assim dizer, de visu — suas relações com o mundo corporal; permitiu separar no homem vivo o ser inteligente do ser material, e lhes observar agir separadamente. Uma vez em interação com os habitantes desse mundo, tornou-se possível seguir a alma na sua marcha ascendente, em suas migrações, em suas transformações; pudemos, enfim, estudar o elemento espiritual.”
A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, Allan Kardec – cap. IV, item 16

Exemplos notáveis do estudo dessas comunicações espirituais, especialmente da situação dos Espíritos desencarnados, podem ser encontrados na obra O Céu e o Inferno e ao longo das edições da Revista Espírita publicadas por Allan Kardec.

A prática mediúnica espírita se fundamente sobre certos critérios, tais como:

  • Justa utilidade: por exemplo, meio de instrução e de solidariedade entre entes queridos, não admitindo como pretexto uma mera curiosidade ou divertimento fenomenológico;
  • Bem comum: a interação espiritual deve procurar se pautar sobre os princípios do respeito mútuo e da benevolência para com todos;
  • Desinteresse particular: em Espiritismo, o serviço mediúnico é sempre gratuito e o bom médium espírita é aquele que nada procura por recompensa senão a satisfação de ser útil à seara divina, ciente que esse desprendimento representa a mais eloquente prova da veracidade das manifestações espirituais diante dos incrédulos, porque não é lógico admitir a persistência de uma fraude sem algum interesse (Ver Charlatanismo).
“Os médiuns atuais — porque também os apóstolos tinham mediunidade — igualmente receberam de Deus um dom gratuito: o de serem intérpretes dos Espíritos, para instrução dos homens, para lhes mostrar o caminho do bem e conduzi-los à fé, não para lhes vender palavras que não lhes pertencem, a eles médiuns, visto que não são fruto de suas concepções, nem de suas pesquisas, nem de seus trabalhos pessoais. Deus quer que a luz chegue a todos; não quer que o mais pobre fique dela privado e possa dizer: não tenho fé, porque não pude pagar por ela não tive o consolo de receber os encorajamentos e os testemunhos de afeição dos que pranteio, porque sou pobre. Tal a razão por que a mediunidade não constitui privilégio e se encontra por toda parte. Fazê-la paga seria, pois, desviá-la do seu providencial objetivo. (...)
“A mediunidade é coisa santa, que deve ser praticada santamente, religiosamente.”
O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec – cap. XXIV, itens 7 e 10

Nesse sentido, a atividade da mediunidade segundo o Espiritismo constitui uma vocação, uma tarefa sublime que une os seres invisíveis e os homens num plano didático para promover a evolução espiritual dos indivíduos e ambiente onde estejam inseridos. Portanto, o médium propriamente dito — aquele que exerce essa evocação com certa regularidade — é quase sempre um Espírito que programou sua reencarnação oferecendo-se para servir a esta causa nobre.

Assentado sobre esses justos fundamentos, além da análise das consequências filosóficas das revelações espirituais, o Espiritismo então vai debruçar-se no estudo de âmbito científico acerca das manifestações: como elas se produzem concretamente (cujo agente elementar é o perispírito), sua classificação (fenômenos de efeitos físicos e de efeitos inteligentes) e os meios de desenvolvimento da mediunidade e sua potencialização, dos escolhos de sua prática (obsessão) etc. Para estes fins, especialmente, a obra mais recomendada é O Livro dos Médiuns de Allan Kardec, cujo subtítulo é “Guia dos Médiuns e Evocadores”, sendo assim um roteiro seguro e produtivo sobre como realizar uma sessão espírita, do que tratar com os interlocutores do além e como aproveitar as comunicações recebidas.



Ver Mediunidade.


Espiritualismo além do Espiritismo

Como a mediunidade não é uma faculdade particular do Espiritismo, os Espíritos se manifestam e comunicam suas mensagens normalmente fora dos círculos espíritas, cujo tratamento varia conforme a cultura do ambiente.

Nos cultos afrodescendentes — por exemplo, de umbanda e de candomblé, tipicamente do Brasil — a interação espiritual algumas vezes envolve rituais de dança, de oferendas, de preparação de beberagem e até sacrifícios de animais.

Em certos lugares, como nos Estados Unidos da América e na Inglaterra, é culturalmente aceitável a atividade mediúnica como profissão e os médiuns vendem audiência com os Espíritos a familiares e amigos, que normalmente buscam um consolo afetivo. Também em âmbito profissional, não raro, médiuns são requisitados para ajudar em trabalhos forenses (investigações criminais).

Além dos exemplos de exercício mais ou menos regular e ostensivo da mediunidade, episódios avulsos de supostas manifestações espirituais são registrados em todo o lugar e a toda hora, tal como um alerta geral da espiritualidade para que a humanidade compreenda aquela velha máxima shakespeariana: “Há mais coisas entre o Céu e a Terra do que sonha a tua vã filosofia”.


Referências

  • O Livro dos Espíritos, Allan Kardec - Ebook.
  • O Livro dos Médiuns, Allan Kardec - Ebook.
  • O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec - Ebook.
  • A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, Allan Kardec - Ebook.
  • A História do Espiritualismo, Arthur Conan Doyle - Ebook.
  • O Espírito e o Tempo, J. Herculano Pires - Ebook.


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