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Índice de verbetes



A Gênese



A Gênese



A Gênese - Os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, ou simplesmente A Gênese, tradução do original em francês La Genèse - Les Miracles et les Predictions selon le Spiritisme, de autoria de Allan Kardec, é o quinto livro da coleção conhecida como obras básicas da Espiritismo então desenvolve com mais profundidade o aspecto científico dos conceitos doutrinários da Revelação Espírita, abordando, entre outros temas, a essência de Deus, a Criação do Universo e seu processo de expansão, a origem dos Espíritos e a comparação com a teoria bíblica da gênese, o caráter dos milagres, a natureza das profecias e as predições para o futuro da humanidade.


"A Gênese, os milagres e as Predições segundo o Espiritismo", de Allan Kardec




Contexto histórico

A Gênese é o quinto e último livro publicado por Allan Kardec, lançado pouco mais de um ano antes da desencarnação do autor e tendo já decorridos onze anos da primeira obra básica do Espiritismo — O Livro dos Espíritos — e uma década ininterrupta de edições da Revista Espírita. Portanto, o livro é, de alguma forma, uma síntese mais amadurecida da compreensão espírita quanto à natureza física e espiritual, levando em consideração as revelações da espiritualidade e o desenvolvimento da ciência humana.

Quando da sua publicação, estava muito em voga a discussão sobre a origem do universo e, por conseguinte, dos seres vivos. A teoria evolucionista por meio de seleção natural de Charles Darwin — publicada em A Origem das Espécies, de 1859 — ainda não estava consolidada e enfrentava certa resistência, inclusive dentro do meio cientifico. Fora do círculo acadêmico, no meio popular do Ocidente, por consequência do secular predomínio do catecismo católico, a concepção clássica da origem e desenvolvimento do mundo e dos seres humanos era aquela baseada no primeiro livro da Bíblia — Gênesis, atribuída a Moisés. Qualquer suposição teórica fora da versão bíblica obviamente sofria forte preconceito.

Diante desse cenário, portanto, os propósitos de A Gênese eram revolucionários, e por demais desafiadores. Tanto que o Espírito São Luiz, protetor da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, prenunciou, através de uma comunicação mediúnica recebida em 18 de dezembro de 1857, um mês antes de a obra ser trazida à lume:

"Esta obra vem na hora certa, na medida em que a doutrina está hoje bem estabelecida do ponto de vista moral e religioso. Seja qual for a direção que tome de agora em diante, tem precedentes muito arraigados no coração dos adeptos, para que ninguém possa temer que ela se desvie de seu caminho.";
(...)
"A religião, antagonista da Ciência, respondia pelo mistério a todas as questões da filosofia céptica. Ela violava as leis da Natureza e as adaptava à sua fantasia, para daí extrair uma explicação incoerente de seus ensinamentos. Vós, ao contrário, vos sacrificais à Ciência; aceitais todos os seus ensinamentos sem exceção e lhe abris horizontes que ela supunha intransponíveis. Tal será o efeito desta nova obra; não poderá senão assegurar mais os fundamentos da crença espírita nos corações que já a possuem, e fará dar um passo à frente para a unidade a todos os dissidentes, à exceção, entretanto, dos que o são por interesse ou por amorpróprio; esses o vêem com despeito sobre bases cada vez mais inabaláveis, que os lançam para trás e os rechaçam na sombra (...)"
"A questão de origem que se prende à Gênese é para todos uma questão apaixonada. Um livro escrito sobre esta matéria deve, em conseqüência, interessar a todos os espíritos sérios. Por esse livro, como vos disse, o Espiritismo entra numa nova fase e esta preparará as vias da fase que mais tarde se abrirá, porque cada coisa deve vir a seu tempo. Antecipar o momento propício é tão prejudicial quanto deixá-lo escapar."
São Luís, Revista Espírita, Allan Kardec - Fevereiro de 1868: "Apreciação da obra A Gênese"

Estava claramente estabelecido que A Gênese viria para sancionar o fundamento da lógica e da razão sobre os conceitos espíritas e absolutamente afastar qualquer ideia de superstição, milagre e fantasias sobrenaturais, isto é, fora das leis da natureza criada por Deus.


Anúncio e repercussão da obra

Através da Revista Espírita, edição de janeiro de 1868 — o mês de lançamento do livro — Allan Kardec anunciava aquela nova obra. Logo mais, pela mesma revista, vamos encontrar o autor relatando as primeiras repercussões do livro. Já na edição do mês seguinte, por exemplo, Kardec noticia que a vendagem da primeira edição estava quase completa e já providenciava a segunda edição, ou, melhor dizendo, a segunda impressão, já que não faria qualquer alteração. E o sucesso continua de maneira fenomenal, pois um mês depois, já na Revista Espírita de março daquele ano, é anunciada a terceira edição.

O alcance e a boa recepção que A Gênese teve prontamente podem ser ilustrados pelo depoimento feito por um capitão do exército na África, conforme certo artigo na Revista Espírita:

"O Espiritismo se espalha no norte da África e ganhará o centro, se os franceses para ali se dirigirem. Ei-lo que penetra em Laghouat, nas bordas do Saara, a 33 graus de latitude (...)
"Desde alguns anos entrego-me ao estudo da Anatomia, da Fisiologia e da Psicologia comparadas. A mesma corrente de ideias arrastou-me para o estudo dos animais. Pude dar-me conta, pela observação, de que todos os órgãos, todos os aparelhos se simplificam, quando descem para as raças e espécies inferiores. Como a Natureza é bela para estudar! (...)
"Vossa última obra A Gênese, que acabo de reler, e sobre diversos capítulos da qual me detive particularmente, desvenda-nos os mistérios da Criação e desfere um terrível golpe nos preconceitos. Essa leitura fez-me imenso bem e me abriu novos horizontes. Eu já compreendia a nossa origem e via em meu corpo material o último elo da animalidade na Terra; sabia que o espírito, durante sua gestação corporal, toma uma parte ativa na construção do seu ninho e apropria o seu invólucro às suas novas necessidades. Esta teoria da origem do homem poderá parecer, aos orgulhosos, atentatória à grandeza e à dignidade humanas, mas será aceita no futuro graças à sua simplicidade e à sua empolgante amplitude (...)
"Não mais deve haver véu entre a Natureza e o homem, e nada deve ficar oculto. A Terra é o nosso domínio, cabendo a nós estudar as suas leis; a ignorância e a preguiça é que criaram os mistérios. Quanto Deus nos parece maior na harmonia e na unidade de suas leis! (...)"
Revista Espírita, Allan Kardec - Nov. de 1868: "Os lazeres de um Espírita no Deserto"


La Genése, les Miracles et les Prédictions selon le Spiritisme - Allan KardecFolha de rosto de La Genése na edição original em francês


Versões e polêmicas sobre alterações

Enquanto encarnado, Allan Kardec publicou quatro edições de A Gênese, todas no mesmo ano de 1868 e todas com o mesmo conteúdo. No entanto, logo após sua passagem à vida espiritual, sabe-se que a Livraria Espírita (idealizada por Kardec) publicou uma quinta edição que, por sua vez, trazia alterações, tal como grafado na folha de rosto desta mesma impressão: "Revisada, corrigida e ampliada". Nesta nova versão, muitos trechos, em diversos capítulos, receberam substanciais alterações, em que linhas ou parágrafos inteiros foram suprimidos, outros foram deslocados e renumerados, ao passo que noutras partes da obra conteúdos foram acrescentados. Além disso, em todo as seções do livro são encontrados correções ortográficas.

Todavia, doze anos após o lançamento da quinta edição, Henri Sausse denuncia, através do artigo "Uma infâmia", publicado no periódico O Espiritismo (Le Spiritisme), que esta versão tratava-se de uma adulteração, valendo-se de uma informação obtida através de um confrade. No artigo, ele até especifica os trechos que sofreram modificações:

"Descobri, comparando os textos da primeira e da quinta edição, que 126 trechos tinham sido modificados, acrescentados ou suprimidos. Desse número, onze (11) forma objetos de uma revisão parcial. Cinquenta (50) foram acrescidos e sessenta e cinco (65) foram suprimidos, e não conto os números dos parágrafos trocados de lugar nem os títulos que foram adicionados.
Todas as partes desse livro sofreram mutilações mais ou menos graves, mas o capítulo XVIII: Os tempos são chegados, é o que foi mais maltratado; as modificações feitas nele o tornam quase irreconhecível.
Agora, digam-me, quem são os culpados?
Qual o motivo dessas manobras?"
Henri Sausse, O Espiritismo - Dez. de 1884: "Uma infâmia"

Então sob o comando de Pierre-Gaëtan Leymarie, a Sociedade Anônima respondeu ao artigo de Henri Sausse negando a violação e atribuindo ao legítimo autor da obra as modificações daquela edição revisada.

Sem uma prova documental, as denúncias de Henri Sausse ficaram sem muito efeito prático. Em 2017, contudo, justamente às vésperas da celebração jubilar em comemoração aos 150 anos de lançamento de A Gênese, um minucioso trabalho de pesquisa acerca dessa polêmica foi realizado pela pesquisadora espírita brasileira Simoni Privato Goidanich, resultando no livro O Legado de Allan Kardec (originalmente publicado em espanhol pela Confederação Espiritista Argentina: El Legado de Allan Kardec); a apuração desta pesquisa apresentou a versão de que a quinta edição revisada havia sido registrada e publicada pela Sociedade Anônima em 1872, portanto, três anos após a desencarnação de Allan Kardec, e, sem o menor indício de que tais alterações tenham sido efetivadas pelo codificador espírita. Essa tese propõe também que houve uma premeditada elaboração para distorcer certos conceitos espíritas, atendendo a outras ideias espiritualistas, e notadamente à doutrina conhecida de Jean-Baptiste Roustaing — conhecida como Roustainguismo —, muito por influência do Sr. Guérin, o testamentário de Roustaing e amigo de de ocasião de Leymarie.

"Apesar da indignação no movimento espírita, a Sociedade Anônima permaneceu dominada por Guérin, com a colaboração de Leymarie, e foi transformada em um instrumento de propaganda, na França e no exterior, da teoria exposta na obra de Roustaing."
O Legado de Allan Kardec, Simoni Privato Goidanich - cap. 15

Como a Sociedade Anônima detinha os direitos autorais da obra e persistia em apontar a originalidade das alterações a Kardec, foi a versão da 5ª edição aquela que desde então preponderou como a definitiva e a partir da qual foram autorizadas e produzidas as traduções oficiais, dentre as quais as traduções em português que por muito tempo se estabeleceram no Movimento Espírita Brasileiro, cujos tradutores mais destacados são Guillon Ribeiro e Evandro Noleto Bezerra (pela editora da Federação Espírita Brasileira), João Teixeira de Paula (coautoria de José Herculano Pires, pela LAKE Editora) e Salvador Gentile (Boa Nova Editora).

Contudo, muito antes desse movimento apresentado como de resgate histórico da referida obra, Carlos Imbassahy (1883-1969) — advogado, jornalista e importante ativista espírita, autor de vários livros doutrinários e tradutor de outras espíritas e espiritualistas — observou certa vez as diferenças de conteúdo das traduções brasileiras em relação à obra original, já que ele possuía uma copio da edição original em francês correspondente à 1ª edição, o que o motivou a fazer uma nova tradução, inclusive, sendo aquela que serviu de base para a tradução publicada pela Fundação Espírita André Luiz (FEAL), em 2018, especialmente motivada pelos desdobramentos da pesquisa realizada por Simoni Privato Goidanich e em comemoração ao aniversário jubilar de 150 anos de lançamento da 1ª edição de A Gênese.

Federações e entidades espíritas diversas de vários países aderiram ao dito movimento de resgate histórico do conteúdo original de A Gênese, tendo sido a Confederação Espiritista Argentina a pioneira, cuja edição especial lançada em 2018, em espanhol (La Génesis, los Milagros y las Predicciones según el Espiritismo) foi traduzida pelo seu então presidente Gustavo N. Martinez, que também fez questão de homenagear José María Fernández Colavida (1819-1888), o grande líder espírita na Espanha — chamado "O Kardec espanhol" — que, pelo que se sabe, foi o tradutor primeiro das obras de Kardec para o idioma espanhol e que, no caso de A Gênese, tomou como base o conteúdo original da 1ª edição.


La Génesis, los Milagros y las Predicciones según el Espiritismo - Allan Kardec"A Gênese" em espanhol editada pela Confederação Espiritista Argentina


Entretanto, novos achados históricos referentes à polêmica vieram se sobrepôr àquele contexto apresentado em O Legado de Allan Kardec, a começar pela descoberta de uma 5º edição (versão revisada) datada de 1869, devidamente catalogada numa biblioteca universária na Suíça, que, combinados com outros dados (por exemplo, menção a esta edição presente em uma reimpressão de O O Livro dos Médiuns de julho de 1869) resultam na compreensão que A Gênese revisada teria sido publicada em um ou em até três meses (entre abril e junho de 1869) posteriormente à morte de Kardec, e bem antes de Leymarie (então apontado como o principal articulador das ditas adulterações) assumir a condução das instituições espíritas responsáveis pelas publicações kardecistas (o que só viria a acontecer em julho de 1871, quando foi admitido membro diretor da Sociedade Anônima (entidade criada para administrar os bens legados por Kardec à propagação do Espiritismo). Como é sabido, esta edição "revisada, corrigida e aumentada" de A Gênese foi lançada pela Livraria Espírita, cuja direção estava a cargo de Edouard Mathieu Bittard, superviosado diretamente pela viúva Kardec, que, aliás, notificou os confrades através da Revista Espírita de maio de 1869 que seria ela quem cuidaria pessoalmente das "reimpressões" e das "publicações novas" das obras espíritas de seu marido. A propósito, Amélie Boudet era a legítima herdeira dos direitos autorais das obras literárias de Kardec.

Manuscritos de Allan Kardec e outros documentos recentemente descobertos também evidenciam que o autor de A Gênese estava trabalhando na revisão do conteúdo original e justamente preparando o lançamento da edição revisada às vesperas de ser surpreendido pela sua hora fatal. Entre esses documentos constam transcrições, feitas por Kardec, de mensagens mediúnicas assinadas por Espíritos amigos lhe inspirando correções para a nova edição. Em 22 de fevereiro de 1868, por exemplo, apenas um mês seguinte ao lançamento da edição original, o Mestre espírita recebeu uma comunicação, psicografada na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas pelo médium Desliens, intitulada "Conselhos sobre a Gênese", que se crê ditada pelo Espírito do Dr. Demeure, da qual extraímos o seguinte trecho:

"Permita-me alguns conselhos pessoais sobre o seu livro A Gênese. Penso, como você, que deve sofrer certas reorganizações que a tornarão valiosa sob o aspecto metódico; mas eu recomendo vivamente que você também revise certas comparações dos primeiros capítulos que, sem serem imprecisas, podem levar à ambiguidade, e das quais alguém poderiam tirar vantagens de você exaltando palavras.
[...] É apenas uma questão de detalhes, sem dúvida, mas os detalhes também são importantes; por isso achei útil chamar sua atenção para esse lado.
[...] Minha opinião é que não há absolutamente nada para tirar da doutrina; tudo é útil e satisfatório em todos os aspectos; mas também acredito que você poderia, sem inconvenientes, condensar ainda mais certas ideias que não precisam de desenvolvimento para serem entendidas, já tendo sido esboçadas em outro lugar."
Fonte: Espiritismo em Movimento

De fato, vê-se que vários textos contidos em A Gênesede 1868 foram reproduzidos nas edições seguintes da Revista Espírita com várias modificações, as mesmas de que se serviu a edição revisada, corrigida e aumentada da Gênese de 1869.


Para saber mais, ver a página especial O caso A Gênese.


Página especial de pesquisa: O Caso A Gênese



Estrutura da obra

A obra é estruturada em quatro seções principais, a saber: "Introdução", "A Gênese segundo o Espiritismo", "Os milagres segundo o Espiritismo" e "As predições segundo o Espiritismo".

  • Introdução: como o próprio título diz, traz uma apresentação do livro, seus objetivos e a sua essência, que é justamente tratar os três pontos principais — a origem do universo, a questão dos milagres e as profecias — à luz dos ensinamentos da revelação espírita, que tem por base a lógica e a razão e a refutação de toda e qualquer exploração de fenômenos de caráter sobrenatural, místico, mágico, supersticioso. Para tanto, o Espiritismo toma como fundamento a existência de dois elementos primordiais: o elemento espiritual e o elemento material. A partir deste ponto de vista, todos os fenômenos reais pertencem às leis da natureza, estabelecidas conforme a bondade, a justiça e a sabedoria de Deus, não cabendo o sobrenatural — que seria uma manifestação fora da ordem natural das coisas, tal qual o milagre, a magia.
    "Ao demonstrar a existência do mundo espiritual e suas relações com o mundo material, o Espiritismo fornece a chave para a explicação de uma imensidade de fenômenos incompreendidos e por isso considerados inadmissíveis, por parte de certa classe de pensadores. Esses fatos sobram nas Escrituras, mas seus comentadores não conseguiram chegar a uma solução racional, pois ignoram a lei que os rege. Posicionados em um dos campos opostos, eles têm girando sempre dentro do mesmo círculo de ideias: uns desqualificando os dados positivos da ciência, e os outros desconsiderando o princípio espiritual."
    Allan Kardec, A Gênese, - Introdução

  • A gênese segundo o Espiritismo: nessa seção, a obra analisa um dos temas mais polêmicos no tocante às teorias religiosas desde há muito: a gênese de tudo, ou seja, a origem do Universo, da matéria e dos seres vivos, o que tem implicação direta com o próprio sentido da nossa existência e, por conseguinte, a destinação da alma após a morte física.
    Entretanto, antes de adentrar propriamente na questão a que se destina essa seção, Kardec começa o capítulo I estabelecendo os parâmetros necessários para a compreensão dos conceitos propostos pelo Espiritismo pelo que designou de "Caráter da revelação espírita", distinguindo a Doutrina dos Espíritos do padrão das revelações religiosas tradicionais, cujo caráter é de dogmatismo: imposição de conceitos ditos absolutamente verdadeiros e sagrados, e por isso, não sujeitos ao questionamento — por mais absurdos que sejam eles. O autor ressalta que o Espiritismo é sim uma revelação, necessária inclusive, mas assentada sob os fundamentos da razão e da experimentação científica:
    "Assim como a Ciência clássica tem por objeto o estudo das leis do princípio material, o objeto especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual. Ora, como este último princípio é uma das forças da natureza, a reagir incessantemente sobre o princípio material e reciprocamente, entendemos que o conhecimento de um não pode estar completo sem o conhecimento do outro. O Espiritismo e a Ciência se completam reciprocamente; a Ciência sem o Espiritismo se acha na impossibilidade de explicar certos fenômenos somente pelas leis da matéria, e que por haver prescindido do princípio espiritual, encontra-se com tantas dificuldades, que o Espiritismo sem a ciência careceria de apoio e controle..."
    Idem, - Cap. I, item 16

    Estabelecidos esses parâmetros, desenvolve-se então a tese espírita sobre as evidências da existência de Deus, características aceitáveis sobre a sua natureza, seu modo de conduzir as coisas (providência divina) e os meios de se visualizar a divindade (cap. II). Para tanto, a obra cumpre uma lacuna comum a todas as doutrinas tradicionais especialmente em resposta aos incrédulos: Como conciliar Deus com o mal no mundo?, explicando categoricamente o entendimento sobre o bem e o mal (cap. III).
    Estabelecidos esses parâmetros, desenvolve-se então a tese espírita sobre as evidências da existência de Deus, características aceitáveis sobre a sua natureza, seu modo de conduzir as coisas (providência divina) e os meios de se visualizar a divindade (cap. II). Para tanto, a obra cumpre uma lacuna comum a todas as doutrinas tradicionais especialmente em resposta aos incrédulos: "Como conciliar Deus com o mal no mundo?", explicando categoricamente o entendimento sobre o bem e o mal (Cap. III). Também discorre sobre "O papel da ciência na gênese" (Cap. IV) pelo que registra o confronto histórico entre religião e ciência no tocante às explicações acerca das coisas e observa o escopo das descobertas cientificas para a solidificação da compreensão dos elementos materiais e espirituais.
    A obra também aprecia as diversas teorias da origem e desenvolvimento do nosso mundo, dos seres orgânicos e da gênese espiritual (cap. V a IX) e ainda a compara com a teoria bíblica (cap. XII).

  • Os milagres segundo o Espiritismo: nessa seção, a obra trata da conceituação clássica do termo milagre e a analisa mediante os fundamentos espíritas, que são incompatíveis com a ideia sobrenatural que se convencionou dar a certos fenômenos (cap. XIII). Para tanto, Kardec destrincha a natureza dos fluidos (cap. XIV), que são a chave para a compreensão dos fenômenos promovidos pelos Espíritos em nosso ambiente material. Em vista disso, a obra igualmente pondera sobre o modo de ação e a qualidade dos fluidos nas manifestações, em particular na ação magnética, por exemplo, na operação de curas (passe).
    "Os efeitos da ação fluídica sobre os doentes são extremamente variados, de acordo com as circunstâncias; algumas vezes essa ação é lenta e requer um tratamento prolongado — como no magnetismo comum; de outras vezes ela é rápida, como uma corrente elétrica. Há pessoas dotadas de tal poder que operam curas instantâneas em alguns doentes por meio apenas da imposição das mãos, ou até unicamente por ato da vontade. Entre os dois polos extremos dessa faculdade há infinitos níveis. Todas as curas desse gênero são variedades do magnetismo e só se diferem pela intensidade e pela rapidez da ação. O princípio é sempre o mesmo: é o fluido que desempenha o papel de agente terapêutico e cujo efeito é subordinado à sua qualidade e a circunstâncias especiais."
    Idem, - Cap. XIV, item 32


    Uma vez definida a inconsistência da crença no milagre, o Kardec faz considerações sobre os feitos de Jesus, ditos milagrosos, conforme as narrações evangélicas (cap. XV), que estão sintetizadas na seguinte citação:
    "Os fatos relatados no Evangelho, e que até hoje têm sido considerados milagrosos, pertencem na maioria das vezes à ordem dos fenômenos psíquicos, isto é, dos que têm como causa primária as capacidades e os atributos da alma. Confrontando-os com os que foram descritos e explicados no capítulo anterior, reconheceremos sem dificuldade que há entre eles identidade de causa e de efeito. A História registra outros semelhantes, em todos os tempos e no meio de todos os povos, pela razão de que, desde que há almas encarnadas e desencarnadas, pôde-se produzir os mesmos efeitos. É certo que, no que se refere a este ponto, podemos contestar a veracidade da História; mas hoje eles se produzem sob os nossos olhos e, por assim dizer, à vontade, e por indivíduos que nada têm de excepcional. Só o fato da reprodução de um fenômeno em condições idênticas basta para provar que ele é possível e está submetido a uma lei; portanto, não é miraculoso."
    Idem, - Cap. XV, item 1


  • As predições segundo o Espiritismo: nessa seção a obra aborda a natureza da predição, profecia, presciência, considerando as possibilidades de se conhecer o que convencionamos por "futuro", bem como o alcance da visão de quem propõe tal previdência (cap. XVI), o que também está relacionada à questão das possibilidades e fatalidades dos eventos. Analisa também a destinação, utilidade e permissibilidade das revelações espirituais, em obediência aos desígnios de Deus.
    No capítulo XVII, Kardec examina as predições atribuídas a Jesus narradas nos evangelhos bíblicos.
    No fechamento da obra, o capítulo "Os tempos chegaram" esboça uma espécie de previsão a respeito dos novos tempos marcados pela divindade para o futuro da Humanidade, assim como examina os sinais precursores desses novos tempos (muito mais morais do que físicos) que serão estabelecidos pela nova geração, caracterizada assim:
    "Cabendo-lhe fundar a era do progresso moral, a nova geração se distingue por uma inteligência e uma razão geralmente precoces, juntas ao sentimento inato do bem e de crenças espiritualistas — que é o sinal indubitável de certo grau de adiantamento anterior. Ela não será formada exclusivamente de Espíritos eminentemente superiores, mas daqueles que, já tendo progredido, estejam predispostos a assimilar todas as ideias progressistas e estejam aptos a ajudar o movimento de regeneraçãoa provar que ele é possível e está submetido a uma lei; portanto, não é miraculoso..."
    Idem, - Cap. XVIII, item 27

Com tudo isso, A Gênese é um livro tão esclarecedor quanto motivador para aquele que tem certa compreensão do Espiritismo, pois ele evidencia a onipotência, sabedoria, justiça e bondade — o que dá à humanidade a certeza de que há uma ordem universal e que as virtudes espirituais se sobrepõem aos valores matérias circunstanciais em nosso mundo ainda um tanto atrasado; ela nos permite prever as benesses dos novos tempos na Terra, cujos sinais já estão aos nossos olhos, predestinados a se sucederem em um futuro próximo, para o qual todos nós somos chamados a contribuir e para o qual o Espiritismo é a doutrina que melhor nos conduz.


Referências




Índice de verbetes
A Gênese
Agênere
Aksakof, Alexandre
Alexandre Aksakof
Allan Kardec
Alma
Alma gêmea
Amélie-Gabrielle Boudet
Anastasio García López
Andrew Jackson Davis
Anna Blackwell
Auto de Fé de Barcelona
Banner of Light
Baudin, Irmãs
Bem
Berthe Fropo
Blackwell, Anna
Boudet, Amélie-Gabrielle
Cairbar Schutel
Canuto Abreu
Caridade
Caroline Baudin
Cepa espírita
Charlatanismo
Charlatão
Chevreuil, Léon
Chico Xavier
Cirne, Leopoldo
Codificador Espírita
Consolador
Crookes, William
Daniel Dunglas Home
Davis, Andrew Jackson
Denis, Léon
Dentu, Editora
Dentu, Édouard
Desencarnado
Deus
Divaldo Pereira Franco
Dogma
Dogmatismo
Doutrina Espírita
Ectoplasma
Ectoplasmia
Ecumenismo
Editora Dentu
Édouard Dentu
Epífise
Errante
Erraticidade
Errático
Escrita Direta
Espiritismo
Espiritismo à Francesa: a derrocada do movimento espírita francês pós-Kardec
Espírito da Verdade
Espírito de Verdade
Espírito Errante
Espírito Santo
Espírito Verdade
Espiritual
Espiritualismo
Espiritualismo Moderno
Evangelho
Fora da Caridade não há salvação
Francisco Cândido Xavier
Franco, Divaldo Pereira
Fropo, Berthe
Galeria d'Orléans
Gama, Zilda
Glândula Pineal
Herculano Pires
Herege
Heresia
Hippolyte-Léon Denizard Rivail
Home, Daniel Dunglas
Humberto de Campos
Inquisição
Irmão X
Irmãs Baudin
Jackson Davis, Andrew
Joanna de Ângelis
Johann Heinrich Pestalozzi
José Herculano Pires
Julie Baudin
Kardec, Allan
Kardecismo
Lachâtre
Lamennais
Léon Chevreuil
Léon Denis
Leopoldo Cirne
Linda Gazzera
Livraria Dentu
Madame Kardec
Mal
Maurice Lachátre
Médium
Mediunidade
Metempsicose
Misticismo
Místico
Moderno Espiritualismo
Necromancia
O Livro dos Espíritos
Obras Básicas do Espiritismo
Oração
Palais-Royal
Paráclito
Parasitismo psíquico
Pélagie Baudin
Percepção extrassensorial
Pereira, Yvonne A.
Pestalozzi
Pineal
Pneumatografia
Prece
Quiromancia
Religião
Revelação Espírita
Rivail, Hippolyte-Léon Denizard
Santíssima Trindade
Santo Ofício
Schutel, Cairbar
Sentido Espiritual
Sexto Sentido
Silvino Canuto Abreu
Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas
SPEE
Terceira Revelação
Tribunal do Santo Ofício
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União Espírita Francesa
Vampirismo
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X, Irmão
Xenoglossia
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