Compartilhe esta página no: Compartilhar no Twitter Compartilhar no Facebook Compartilhar no Google Plus



Índice de verbetes



Auto de Fé de Barcelona



O Auto de Fé de Barcelona foi um importante episódio para a História do Espiritismo, apesar de se tratar de uma ofensiva da Inquisição Católica contra a Doutrina Espírita. Refere-se à execução de um processo movido pelo bispo de Barcelona, ordenando a queima em praça pública de uma remessa de livros espíritas que Allan Kardec havia enviado para uma livraria na Espanha. A execução se deu em 9 de outubro de 1861. A despeito do prejuízo material, esse ato acabou por despertar naquela região maior interesse pelo Espiritismo, além de engrossar a crescente revolta popular contra as arbitrariedades da Igreja Católica.


Representação de um Auto de Fé do Tribunal de Inquisição da Igreja Católica, a exemplo daquele ocorrido em Barcelona


O Auto de Fé

"Auto de Fé" foi o nome dado a uma cerimônia em que eram proclamadas e executadas as sentenças do Tribunal de Inquisição da Igreja Católica. Essa corte religiosa, também conhecida de Tribunal do Santo Ofício, foi instituída no começo do século XIII, com o objetivo de caçar e julgar os réus acusados de heresia (crime contra a doutrina católica).

Nas nações que proclamavam o catolicismo como a religião oficial do Estado, autoridades eclesiásticas detinham o poder de abrir processos, julgar (muitas vezes sumariamente) e expedir sentenças (a serem executadas pelo Estado) contra os condenados.

Maurice Lachátre, filósofo iluminista, escritor e editor francês


O Auto em Barcelona

De Paris, França, Allan Kardec havia enviado cerca de 300 obras espíritas, de sua autoria e de outros escritores, para serem comercializadas pela livraria de Maurice Lachâtre — escritor, editor e intelectual francês exilado em Barcelona, Espanha.

A remessa continha exemplares das obras seguintes:

  • Revista Espirita, dirigida por Allan Kardec;
  • A Revista Espiritualista, dirigida por Piérard;
  • O Livro dos Espíritos, por Allan Kardec;
  • O Livro dos Médiuns, por Allan Kardec;
  • O que é o Espiritismo?, por Allan Kardec;
  • Fragmento de sonata, atribuído ao Espírito de Mozart;
  • Carta de um católico sobre o Espiritismo, pelo doutor Grand;
  • A História de Joana d'Arc, atribuído a Joana d'Arc pela médium Ermance Dufaux;
  • A realidade dos Espíritos demonstrada pela escrita direta, pelo barão de Guldenstubbé.

Quando passava pela alfândega espanhola, a remessa foi confiscada pela Igreja local, sob a ordem do bispo Antonio Palau Termes (1857-1862), a pretexto da autoridade que lhe era concedida pela Inquisição. Argumentando que aquelas obras eram contrárias à fé católica, o bispo de Barcelona então sentenciou que fossem queimados, sem qualquer tipo de indenização aos seus proprietários. A execução se efetivou na esplanada central daquela cidade, às 10h30.


Dom Antonio Palau Termens, bispo do Auto de Fé de Barcelona de 9 de outubro de 1861


Allan Kardec tomou conhecimento do Auto pessoalmente. Seu informante descreveu:

"Assistiram ao Auto de Fé: um sacerdote com os hábitos sacerdotais, empunhando a cruz numa mão e uma tocha na outra; um escrivão encarregado de redigir a ata do Auto de Fé; um ajudante do escrivão; um empregado superior da administração das alfândegas; três serventes da alfândega, encarregados de alimentar o fogo; um agente da alfândega representando o proprietário das obras condenadas pelo bispo.
Uma multidão incalculável enchia as calçadas e cobria a imensa esplanada onde se erguia a fogueira. Quando o fogo consumiu os trezentos volumes ou brochuras espíritas, o sacerdote e seus ajudantes se retiraram, cobertos pelas vaias e maldições de numerosos assistentes, que gritavam: Abaixo a Inquisição! Em seguida, várias pessoas se aproximaram da fogueira e recolheram as suas cinzas."
Revista Espírita, Novembro de 1861, Allan Kardec - "Resquícios da Idade Média"

Repercussão

Os principais jornais internacionais noticiaram o Auto com um tom majoritariamente de reprovação à sentença, que atiçou ainda mais a opinião pública contra a intolerância ideológica da Igreja Católica e o autoritarismo das autoridades que se autoimputaram competentes para o Auto. Além disso, o fato acabou propagando ainda mais o Espiritismo e despertando o interesse popular pelas obras espíritas. O jornal Las Novedades de Madrid notiticou: ""Eis o repugnante espetáculo, autorizado pelos homens da união liberal, em pleno século dezenove: uma fogueira em La Coruña, outra em Barcelona, e ainda muitas outras, que não faltarão, em outros lugares. É o que deve acontecer, pois é uma consequência imediata do caráter geral que domina o atual estado de coisas e que em tudo se reflete. Reação no interior, relativa aos projetos de lei apresentados; reação no exterior, apoiando todos os governos reacionários da Itália, antes e depois de sua queda, combatendo as ideias liberais em todas as ocasiões, buscando por todos os lados o apoio da reação, obtido ao preço das mais desastradas concessões.""

Tão logo soube da apreensão dos livros, mas antes da execução da sentença, Kardec consulta seu guia espiritual — Espírito Verdade — se seria favorável reclamar a restituição das obras e se deveria publicar os fatos relacionados na Revista Espírita. Eis a resposta:

"Por direito, pode reclamá-las e conseguiria que te fossem restituídas, se te dirigisse ao Ministro de Estrangeiros da França. Mas, ao meu parecer, resultará desse auto-de-fé maior bem do que o que viria da leitura de alguns volumes. A perda material não é nada em comparação da repercussão que semelhante fato produzirá em favor da Doutrina. Deve compreender quanto uma perseguição tão ridícula e atrasada poderá fazer a bem do progresso do Espiritismo na Espanha. A queima dos livros determinará uma grande expansão das ideias espíritas e uma procura febricitante das obras dessa doutrina. As ideias se disseminarão lá com maior rapidez e as obras serão procuradas com maior avidez, desde que as tenham queimado. Tudo vai bem."
[Sobre publicar ou não na Revista Espírita:]
"Espera o auto-de-fé."
Obras Póstumas, Allan Kardec - 2ª Parte, "Auto-de-fé em Barcelona"

Na Revista Espírita daquele mesmo mês, Kardec publicou duas comunicações espirituais, dentre tantas, recebidas na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. A primeira foi assinada pelo Espírito Dollet, que havia sido um livreiro do século XVI:

"O amor da verdade deve sempre fazer-se ouvir: ela rompe o véu e brilha ao mesmo tempo por toda parte. O Espiritismo tornou-se conhecido de todos; logo será julgado e posto em prática. Quanto mais perseguições houver, tanto mais depressa esta sublime doutrina alcançará o apogeu. Seus mais cruéis inimigos, os inimigos do Cristo e do progresso, atuam de maneira que ninguém possa ignorar a permissão de Deus, dada àqueles que deixaram esta Terra de exílio, de voltarem aos que amaram. Ficai certos: as fogueiras apagar-se-ão por si mesmas; e se os livros são lançados ao fogo, o pensamento imortal lhes sobrevive."
Dollet

A outra foi ditada pelo Espírito daquele que havia encarnado como frade de origem espanhola e inquisidor do Santo Ofício: São Domingos de Gusmão:

"Era necessário que algo ferisse violentamente certos Espíritos encarnados, a fim de que se decidissem a ocupar-se desta grande doutrina que vai regenerar o mundo. Nada é feito inutilmente em vossa Terra. Nós, que inspiramos o auto-de-fé de Barcelona, sabíamos perfeitamente que assim agindo daríamos um grande passo à frente. Esse fato brutal, inacreditável nos tempos atuais, foi consumado com vistas a chamar a atenção dos jornalistas que se mantinham indiferentes diante da profunda agitação que tomava conta das cidades e dos centros espíritas. Eles deixavam dizer e fazer, mas, obstinados, faziam ouvidos de mercador, respondendo pelo mutismo ao desejo de propaganda dos adeptos do Espiritismo. Queiram ou não, é preciso que hoje falem; uns, constatando o histórico do caso de Barcelona, outros o desmentindo, ensejaram uma polêmica que fará a volta ao mundo e da qual só o Espiritismo aproveitará. Eis por que hoje a retaguarda da Inquisição praticou o seu último auto-de-fé, porque assim o quisemos."
São Domingos


Aquarela do Auto de Fé de Barcelona de 9 de outubro de 1861


Cobertura da Revista Espírita

Depois de publicar o ocorrido na edição de novembro de 1861, a Revista Espírita continuou cobrindo os seus desdobramentos. Na edição de agosto do ano seguinte, a revista deu nota do falecimento do bispo de Barcelona e da sugestão que a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas recebeu de um correspondente espanhol para evocar o Espírito de Dom Antonio Palau, que se antecipou, ditando a seguinte mensagem, conforme a transcrição da revista:

"Auxiliado por vosso chefe espiritual pude vir ensinar-vos com o meu exemplo e vos dizer: Não repilais nenhuma das ideias anunciadas, porque um dia, um dia que durará e pesará como um século, essas ideias amontoadas clamarão como a voz do Anjo: Caim, que fizestes de teu irmão? Que fizestes de nosso poder, que devia consolar e elevar a Humanidade? O homem que voluntariamente vive cego e surdo de espírito, como outros o são do corpo, sofrerá, expiará e renascerá para recomeçar o labor intelectual, que a sua preguiça e o seu orgulho o levaram a evitar; e essa voz terrível me disse: Queimaste as ideias e as ideias te queimarão!
Orai por mim. Orai, porque é agradável a Deus a prece que lhe é dirigida pelo perseguido em benefício do perseguidor.
Aquele que foi bispo e que não passa de um penitente."
Dom Antonio Palau (Espírito)

Comentando a mensagem do bispo, Kardec escreve: "Não podemos censurá-lo, pelo triplo motivo de que o verdadeiro espírita a ninguém condena, não guarda rancor, esquece as ofensas e, a exemplo do Cristo, perdoa aos seus inimigos; em segundo lugar, longe de nos prejudicar, ele nos foi útil; enfim, porque reclama de nós a prece do perseguido para o perseguidor, como a mais agradável a Deus, pensamento todo caridade, digno da humildade cristã, revelada pelas últimas palavras: 'Aquele que foi bispo e que não passa de um penitente'. Bela imagem das dignidades terrenas deixadas à beira do túmulo, para se apresentar a Deus tal que se é, sem os aparatos impostos aos homens". Logo mais, faz uma exortação aos confrades espíritas: "Espíritas, perdoemos-lhe o mal que nos quis fazer, como quereríamos que as nossas ofensas nos fossem perdoadas e oremos por ele no aniversário do auto-de-fé de 9 de outubro de 1861."

Em setembro de 1864, o periódico notificava que o novo bispo de Barcelona, Dom Pantaleão Monserra y Navarro, trilhava pelos mesmos costumes medievais de Dom Antonio Palau, numa cruzada contra o Espiritismo, conforme a transcrição de uma pastoral do eclesiástico, da qual extraímos o seguinte trecho:

"A geração atual se vê obrigada a assistir a esse triste espetáculo que hoje nos dão os povos mais adiantados em ciência e em civilização. Os Estados Norte-Americanos, essa nação chamada modelo, e algumas partes da França, aí compreendida a colônia da Argélia, esforçam-se, desde algum tempo, ao estudo ridículo e à aplicação do Espiritismo, que, sob esse nome, vem ressuscitar as antigas práticas da necromancia, pela evocação dos Espíritos invisíveis, que repousam no lugar de seu destino, além do sepulcro, e os consultam para descobrir os segredos ocultos sob o véu que Deus estendeu entre o tempo e a eternidade."
Dom Pantaleão Monserra y Navarro, bispo de Barcelona

Allan Kardec, o codificador espírita


Refutando as acusações dessa pastoral, o codificador espírita finaliza com um recado direto ao bispo: "E vos admirais, monsenhor, dos progressos da incredulidade! Antes vos deveríeis admirar de que, em pleno século dezenove, a religião do Cristo seja tão mal compreendida pelos que são encarregados de ensiná-la. Não fiqueis, pois, surpreso se Deus envia seus Espíritos bons para lembrarem o sentido verdadeiro de sua lei. Eles não vêm para destruir o Cristianismo, mas para libertá-lo das falsas interpretações e dos abusos que nele introduziram os homens."

Ver História do Espiritismo.


Referências

  • Revista Espírita, Allan Kardec - especialmente: Novembro de 1861; Agosto de 1862; Setembro de 1864.
  • Obras Póstumas, Allan Kardec - especialmente 2ª Parte, "Auto-de-fé em Barcelona: Apreensão dos livros" (a
  • O que é o Espiritismo?, Allan Kardec - especialmente: "Biografia de Allan Kardec, por Henri Sausse"



Índice de verbetes
A Gênese
Aksakof, Alexandre
Alexandre Aksakof
Allan Kardec
Alma
Alma gêmea
Amélie-Gabrielle Boudet
Anastasio García López
Anna Blackwell
Auto de Fé de Barcelona
Bem
Blackwell, Anna
Boudet, Amélie-Gabrielle
Cairbar Schutel
Canuto Abreu
Caridade
Cepa espírita
Charlatanismo
Charlatão
Chico Xavier
Cirne, Leopoldo
Codificador Espírita
Consolador
Crookes, William
Denis, Léon
Dentu, Editora
Dentu, Édouard
Desencarnado
Deus
Divaldo Pereira Franco
Doutrina Espírita
Ectoplasma
Ectoplasmia
Editora Dentu
Édouard Dentu
Epífise
Escrita Direta
Espiritismo
Espírito da Verdade
Espírito de Verdade
Espírito Santo
Espírito Verdade
Espiritual
Espiritualismo
Espiritualismo Moderno
Evangelho
Fora da Caridade não há salvação
Francisco Cândido Xavier
Franco, Divaldo Pereira
Galeria d'Orléans
Gama, Zilda
Glândula Pineal
Herculano Pires
Herege
Heresia
Hippolyte-Léon Denizard Rivail
Humberto de Campos
Inquisição
Irmão X
Joanna de Ângelis
Johann Heinrich Pestalozzi
José Herculano Pires
Kardec, Allan
Kardecismo
Lachâtre
Lamennais
Léon Denis
Leopoldo Cirne
Linda Gazzera
Livraria Dentu
Madame Kardec
Mal
Maurice Lachátre
Médium
Mediunidade
Misticismo
Místico
Moderno Espiritualismo
Necromancia
O Livro dos Espíritos
Oração
Palais-Royal
Paráclito
Parasitismo psíquico
Pestalozzi
Pineal
Pneumatografia
Prece
Religião
Revelação Espírita
Rivail, Hippolyte-Léon Denizard
Santíssima Trindade
Santo Ofício
Silvino Canuto Abreu
Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas
Terceira Revelação
Tribunal do Santo Ofício
Ubiquidade
Vampirismo
William Crookes
Xenoglossia
Yvonne do Amaral Pereira
Zilda Gama

© 2014 - Todos os Direitos Reservados à Fraternidade Luz Espírita

▲ Topo